.Vontade.
Era uma vontade sem nome, sem rumo, que não se enquadrava em nenhuma classificação já concebida anteriormente. Uma vontade que tinha um dono, mas sua assustadora intensidade afugentava qualquer potencial interessado. Uma vontade sem número, sem cor, credo ou religião. Quando tentavam aprisioná-la, ela escapulia como o vento. Se tentavam domesticá-la, ela se transformava em lembrança, em passado, num esquete não-encenado, numa sala sem móveis ou num terraço com vista bonita e sem rede de proteção. Era uma vontade que não se encaixava na percepção linear do tempo. Uma vontade explícita, sem entrelinhas nem detalhes, só um esboço do que poderia vir a ser. Às vezes transparente até demais. Sua repetição não a tornava repetitiva, sua existência não a fazia concreta. Uma vontade latejante, constante, lógica, sem compreensão ou interpretação. Era uma vontade, mas também poderia ser uma saudade do futuro do presente, uma lamentação pelo futuro do pretérito ou uma constatação do que seria mais que perfeito. Alguns a chamavam de obsessão. Outros, de loucura. E uns poucos, de sonho.