
Feminismo e ação coletiva
O feminismo antes de qualquer outra coisa é um movimento de ação política. Nasceu assim. Como ação civil e política. Se apresentando como um movimento em meio a tantos outros do século XVIII por emergência do fenômeno de emancipação do Homem. Esse é o tempo em que os ideais iluministas alcançava os comuns através das mais variadas panfletagens em nome da negação a todo tipo autoridade. Esse era o caldo cultural que fornecia as bases de atuação para o feminismo. Nesse sentido, entendê-lo passa por entender melhor este tempo e a dinâmica interna de um movimento social e político.
É sabido que o movimento busca por afirmar uma epistêmé, mas essa é uma tarefa dada como incerta por vários teóricos. Especialmente no Brasil, a tarefa foi tida como secundária até bem pouco tempo concedendo, assim, supremacia radical a ação política. Mas por necessidade de dizer o que se é tem-se observado um movimento que ao esboçar alguma tentativa de saber acaba por instrumentar um conjunto de teorias relacionadas às ciências políticas e sociais. Por isso, dizemos que há um feminismo liberal, um marxista, um anarquista, um individual e, ora veja, também um cristão. Além destes, existem ainda aqueles identificados por recortes essencialistas de gênero, raça e classe social em inter-relação com os anteriores. Sempre.
Se buscarmos por definições do feminismo encontraremos sutis variações do que se apresenta como: “… um conjunto de movimentos políticos, sociais, ideologias e filosofias que tem como objetivo comum: direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias que advogam pela igualdade entre homens e mulheres, além de promover os direitos das mulheres e seus interesses” [1].
Ou seja, é a ação política que primeiro confere identidade ao Feminismo que também pode ser encontrado em sua historiografia por outros dois nomes: Movimento de Emancipação da Mulher e Movimento de Mulheres. O termo feminismo é o nome francês que acabou se popularizando.
Mas o que são movimentos sociais? Segundo o sociólogo francês Alain Touraine, “movimentos sociais são a ação conflitante de agentes das classes sociais, lutando pelo controle do sistema de ação histórica”. Segundo ele, em cada sociedade existe um movimento social que encarna não uma simples mobilização, mas um projeto de mudança social [2]. Nenhum movimento social se define somente pelo conflito, mas pela aspiração de controlar o movimento da história.
A ação é a resposta ao conflito e controlar a história o seu meio e fim. Meio na medida que a identidade do movimento precisa ser reforçada por pelo menos três princípios. Pensemos neles fazendo a sua aplicação ao feminismo:
- princípio de identidade: corresponde à autodefinição do ator social e à sua consciência de pertencer a um grupo ou classe social. Um movimento social só pode se organizar se essa definição for consciente. Entretanto a formação do movimento precede essa consciência. É o conflito que constitui e organiza o ator. É pelo conflito que ele se identifica.
- princípio de oposição: um movimento só se organiza se puder nomear seu adversário, mas a sua ação não pressupõe essa identificação. O conflito faz surgir o adversário, forma a consciência dos atores. Ou seja, o adversário confere a própria identidade do agente ‘discriminado’.
- princípio de totalidade: os atores em conflito, mesmo quando este seja circunscrito ou localizado, questionam a orientação geral do sistema. Um movimento social não é inteligível senão no conflito tendo em vista o “controle da historicidade”, isto é, dos modelos de conduta a partir dos quais uma sociedade produz suas práticas.
Em psicologia social, esses princípios são incrementados pelo conhecimento de que as pessoas se organizam em grupos e protestam em nome de uma causa comum alimentadas por diferentes fatores que passam pela capacidade (e necessidade) de identificação. Elas precisam se identificar e o sentimento de injustiça, de eficácia de grupo, de identidade social e de afetividade [3] são determinantes para o engajamento e a manutenção de seus participantes.
· Sentimento de injustiça: as pessoas têm maior predisposição para se mobilizarem socialmente quando sentem que estão contribuindo mais para a sociedade do que o que recebem dela e, se perdem a crença de que não podem controlar a situação.
· Eficácia de grupo: as pessoas têm maior predisposição para se mobilizarem socialmente quando acreditam na capacidade do grupo que se mobiliza em realizar seus projetos, mesmo que ainda sintam descrença na eficiência da estrutura política, o que se chama de “cinismo político”.
· Identidade social: as pessoas têm maior predisposição para se mobilizarem socialmente quando passam a perceber que fazem parte de algum grupo social, o que, por solidariedade, estimula-os a defenderem politicamente as causas do grupo com o qual se identifica.
· Afetividade: as pessoas têm maior predisposição para se mobilizarem socialmente quando têm uma forte reação afetivo-atitudinal frente a uma determinada situação que as afeta ou a um outro grupo social com cujas causas elas se identificam.
Somado à perspectiva original de Alain Touraine, os Novos Movimentos Sociais (NMS), final do século XX pra cá, deslocaram a sua arena de luta — mais mobilizador do que dizer simplesmente arena de ação, para o interior da própria sociedade civil. Se antes a oposição era direcionava única e exclusivamente às instituições políticas, agora há uma oposição também no nível da micropolítica, concentrando a mudança nos indivíduos através de laboratórios sociais e de criação de novos estilos de vidas para somente depois confrontar o poder do Estado. Mais do que nunca a luta é por mentes e corações individuais tendo a indústria cultural como seu veículo mais profícuo e eficiente.
Agora vem cá, grosso modo, não é essa dinâmica que tem se verificado na prática diária do movimento? Um movimento que a todo tempo comunica a sua agenda à cultura e à sua audiência por amor, medo ou ódio? Pense (1) na gramática utilizada, (2) na sistemática eleição do adversário, na (3) enumeração diária das injustiças, no (4) apontamento dos ganhos por projeções futuras ou por ganhos passados não explicados satisfatoriamente, no (5) deslizamento de afetividades, na (6) inegociável defesa da ação conjunta, e claro, na (7) anulação do divergente seja através de sua afronta aberta ou de seu silenciamento como ocorre, por exemplo, a muitas mulheres críticas ao movimento.
Pense nesses elementos situados na dinâmica frenética pela busca da coesão necessária à manutenção da identidade do grupo e da ação coletiva. Tudo justificado como uma urgente guerra moral, no embalo de uma ideia monolítica de universalidade representativa impossível de ser cumprida a menos que se infrinja novas injustiças ou que se crie novas ilusões, dificuldades e inimigos. A verdade é que todo dia nasce um novo motivo de descontentamento e uma nova necessidade de “ação” daqueles que se identificam com a causa. Tudo, o todo tempo, retroalimentando o imaginário dos membros em causa e com pouquíssimas autocríticas sendo ventiladas uma vez que a ação de antemão já se apresenta como um contradiscurso.
E assim, sem a autocrítica, o movimento acaba por tornar uma ferramenta doutrinadora — modeladora de novas subjetividades, ao invés de uma ferramenta e meio que promova a consolidação direitos (possíveis) fazendo-o em respeito a todos aqueles que no mínimo diz representar. Na prática o que se vê é a interdição do debate, o afastamento do divergente e a pregação aos convertidos. Agora imagina toda essa força sobre a incerteza do que seja real, possível e desejável? Imagina essa força sem o comprometimento com toda uma cultura e história que não diz respeito somente a mulher? É tirania pura uma vez que pouco haverá de espaço para o contraditório. Se estamos falando de ação política pouco haverá de espaço para a crítica quando tomada como oposição à sua dinâmica e reivindicação. Pouco haverá de espaço para um certo ceticismo político tão importante em tempos em que ação humana não repercute somente sobre os envolvidos diretamente, mas também sobre as gerações futuras e em escala global.
Sair dessa dinâmica é condição necessária para refletir seu tempo, seu percurso, suas reivindicações, suas práticas e a sua militância. Sair dessa dinâmica é respeitar seus interlocutores e a história que trouxe as mulheres e o próprio movimento até aqui.
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Isabella Passos é formada em Filosofia. Adora descobrir o que alimenta as ideias.
[1] Wikipédia.org (português).
[2] La production de la société, 1973, Alain Touraine.
[3] Psicologia social e movimentos sociais: uma revisão contextualizada, 2012, Jaqueline Gomes de Jesus. Revista Psicologia e Saber Social (UERJ).
![[re] pensar](https://miro.medium.com/fit/c/160/160/1*nHjRg68ubJa3uVSfF45xZw.png)