Frida Kahlo: a soFrida que se kahlava diante de seu amor.

[re] pensar
Aug 22, 2017 · 6 min read

Já se perguntaram por que a imagem de Frida Kahlo é tão utilizada para representar as defesas do feminismo? São muitos memes, páginas de internet, manifestações em redes sociais que tratam de assuntos feministas tendo como ilustre figuração a imagem de Frida. Até o seu nome é utilizado como trocadilhos para manifestar a mulher que “não se cala” diante de alguma atitude “machista”. Ops! Bem, mas quem era essa mulher? Ela era uma ativista feminista? Lutava pela emancipação das mulheres? Lutava por seus direitos? Era realmente uma mulher que não se calava diante das subjugações alegadas às mulheres?

Vamos lá… Além das biografias da artista que nos permite acessar um pouco de sua história, Frida nos brindou com um diário publicado em forma de um lindo livro e lançado pela Editora José Olympio. O diário de Frida Kahlo nos dá informações íntimas a respeito da artista. Sem contar com seu trabalho que é um tanto autoexpressivo, mas que me dispensarei da análise deles, preferindo checar algumas partes do seu diário.

Frida Kahlo era uma artista mulher vivendo numa atmosfera onde não era comum ter mulheres artistas. Obviamente teve que enfrentar preconceitos, resistências, mas não o fazia levantando uma bandeira em favor das mulheres. Frida juntou-se a um círculo de artistas e intelectuais em 1928 logo depois de uma longa recuperação do acidente que sofrera. Durante a recuperação, Frida pintava incessantemente, estreitando sua relação com a arte. Também se interessava pela política, principalmente pela defesa de uma reforma artística e cultural, onde pudessem ser reerguidos os elementos simbólicos indígenas que fora subestimado pela pintura européia herdada pela colonização espanhola. Neste mesmo ano, Frida conheceu Diego Rivera que já era famoso por pintar murais com temas nacionalistas em várias instituições mexicanas. Diego era filiado ao Partido Comunista Mexicano, inclusive, era um dos fundadores do partido. Eles se apaixonaram e Frida, que já tinha tendências políticas alinhadas às dele, endossava certas causas. Mas até aqui nada relacionado ao direito das mulheres. Então eles se casaram, separaram, se juntaram novamente. Tiveram um relacionamento conturbado do começo ao fim, permeado por muitos casos extraconjugais, primeiro da parte de Diego Rivera e ao conhecimento de todas as pessoas próximas ao casal. Diego sempre a traía e ela suportando dia após dia, com muita angústia e tristeza, até que ela acaba se “acostumando” e deixando para lá, porque, afinal, não “suportava viver sem ele”. Mas ocorre que ele a trai com sua irmã, com quem teve 6 filhos, o que foi a gota d’água e tido como imperdoável pela pintora.

O diário de Frida é recheado de cartas para Diego, bem como poesias, desabafos, desenhos, lamúrias, expressões variadas relacionadas a ele. Há também expressões que configuram sua paixão pela ideologia comunista e pelos líderes russos, mas nada referente à luta pela igualdade de gêneros. A relação de Frida com a política se consubstancia com sua relação com Diego. Frida vivia para ele e por ele. Durante muitos anos Frida exercia o papel tradicional de esposa e não se afirmava veementemente enquanto artista, permanecendo, por um bom tempo, à sombra do marido. As declarações deixam claro que Frida era dependente emocional de seu amante, motivo esse de aceitar tantos casos extraconjugais de sua parte. Ela aceitava tudo com muito sofrimento, só para tê-lo por perto. Diego não aceitava que Frida fizesse o mesmo, só se fosse com mulheres, já que ela era bissexual ou “se descobriu bissexual” pelo contexto de abandono afetivo. Vai saber. Em uma das separações, ela teve um caso com Trotsky que estava refugiado no México a convite do grupo de Diego Rivera.

Diante de uma exposição geral de sua vida e obra, acredito que o feminismo passaria longe das aspirações da artista. Frida era dependente e submissa a um homem que não a respeitava. Frida lutava por visibilidade para os povos indígenas e por uma reforma cultural nacionalista. Frida não usava calças para confrontar a sociedade, mas porque com seis anos, contraiu poliomielite, que deixou uma lesão no seu pé direito, pelo que ganhou o apelido de Frida pata de palo (ou seja, Frida perna de pau). Passou a usar calças, depois longas e exóticas saias, que se tornaram uma de suas marcas pessoais. Tudo para tampar suas “feridas”. Frida não era uma mulher empoderada, mas subserviente a um amor que não era o amor próprio. Ironicamente, Frida Kahlo se calava diante das atitudes maléficas do marido. Sua única expressão era a angústia profunda e o sofrimento vivido nessa conturbada vida conjugal em meio a uma série de doenças, acidentes, lesões e operações que sofreu ao longo da vida. Tudo devidamente esboçados em sua arte pintada, escrita e vivida. Está tudo lá.

Seria no mínimo desonesto com sua história e porque não dizer, irônico, apropriar de sua imagem para representar uma luta pela qual ela não lutou. É desonesto forçar uma defesa sobre deliberadas confusões de dor como amor, desespero como libertação e fraqueza como coragem. Como disse Elizabeth Shackelfertad: “a glorificação de suas tribulações mantém viva tudo o que deveria ser abominável para a verdadeira feminista” [1]. Tudo em nome de uma figura que se tornou pop e que se adéqua esteticamente ao frenesi contemporâneo do “meu corpo minhas regras”. Mas a que custo? Ah, se prestássemos atenção a tristeza que acometeu Frida quando passou por três abortos, sendo dois deles, espontâneos. Ao que tudo indica, mas carece de fontes seguras, o último aborto feito a contragosto em um hospital por causa das muitas complicações em sua saúde colocando em risco a sua vida e a do bebê. Tudo com muito sofrimento, pois Frida queria muito ser mãe. Dar um filho a Diego era tudo que ela queria. Existem, em cartas que Frida escreveu, queixas de decepção quando ela conta a Diego que está grávida e ele não fica feliz falando que tem muito trabalho, insinuando que isso poderia atrapalhar sua carreira, até que depois ele cede e aceita a gravidez, já que ela deseja tanto um ‘Dieguito”; há, inclusive, uma citação onde Diego tenta convencê-la que ela não leve a gravidez adiante colocando sua saúde fragilizada como um empecilho e ela responde: “Se eu agüento um Diego, meu corpo poderá agüentar um Dieguito”. Enfim, pode-se tentar aproveitar da nebulosidade e da falta de detalhes, mas juntando as partes do quebra cabeça fica muito claro que se Frida fez um aborto por complicações de saúde este não era seu desejo. Ela não ficou grávida e decidiu correr atrás de um aborto simplesmente por uma ação voluntária. Os abortos sempre vieram acompanhados de profunda angústia em pinturas fortes e deprimentes. E todos os desejos de Frida ou na maioria das vezes eram os desejos de Diego.

Enfim, a “mesma soFrida que se Khalou” manifesta mais uma das incoerências em torno das imagens do feminismo. A apropriação e uso da imagem da artista pode sinalizar mais uma vez a necessidade de construção de ‘personas’ e mitos que possam apenas representar um grupo que necessita ter pessoas gravitando em torno de suas pautas e ações. Mesmo que essa imagem precise ser forjada contra tudo que seja óbvio.

Por que então para falar de feminismo não usam como ícone a máscara de gorila das Guerrilla Girls [2]? Não seria bem mais coerente e porque não dizer mais autêntico?

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Rafaela Senfft é formada em Artes Plásticas. Gosta de descobrir o que está por trás das aparências.

[1] Frida Kahlo; No Feminist, Elizabeth Shackelford, The New York Times, 2/12/1990.

[2] Guerrilla Girls é um grupo anônimo de feministas radicais, artistas femininas dedicadas a lutar contra o sexismo e o racismo dentro do mundo da arte. O grupo se formou em New York em 1985.

[re] pensar

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Instância de pensar novamente sobre uma ideia ou um sistema em ordem para mudar ou melhorá-lo. Grupo de Estudos sobre o Movimento de Emancipação da Mulher.

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