[re] pensar: uma apresentação

Repensar [m.q.] é o ato ou instância de pensar novamente. Pensar novamente sobre um plano, uma ideia ou um sistema em ordem para mudar ou melhorá-lo.
É também um grupo de estudos idealizado por mulheres - seus amigos e interlocutores, para o exame da história do Movimento de Emancipação da Mulher através da investigação e do debate crítico pelo intermédio de uma atmosfera de troca e produção de saber. Boas bibliografias, leituras polidisciplinares e insights individuais se constituem matérias-primas para o sucesso desse esforço. E algumas das discussões aparecerão neste blog através dos textos de seus participantes.
A crítica (bu!) se encaminhará pelo estudo do movimento e de seus principais desdobramentos sobre outras áreas do conhecimento. A intenção é de avaliar e balancear suas conquistas, avanços, limites e impasses, tanto no campo de produção dos discursos quanto das práticas. Mais atentamente, nos interessa saber sobre o campo da produção do conhecimento. Há uma epistemologia feminista? É necessário descobrir.
“O termo crítica provêm do grego kritikē (κριτική) , que significa (a arte de) discernir , separar , julgar . É um ato do espírito que preserva o que merece ser afirmado e que põe em dúvida a pretensão daquilo que pode ir além do seu domínio de aplicação e, portanto, não merece ser afirmado. Crítica é a arte de apreciar méritos e deméritos com o objetivo de aprimorar desempenhos futuros. “ (Ops, olha o pedantismo filosófico, mas é preciso explicar, rs ) [1]
Mas, por que o caminho da crítica? Porque a crítica é o passo mais seguro para a análise responsável das condições e consequências de um conceito ou de uma ação independente dos domínios aos quais pertençam. A crítica é sempre a tentativa adequada de compreender os limites e a validade de um alegado conhecimento ou práxis. Ela, a crítica, é condição inegociável de saída do ponto de vista dogmático tão presente nas atuais discussões do movimento das mulheres. Militante por natureza e por afirmação.
Neste caso, se tratando de análise de uma práxis, simultaneamente objetiva e subjetiva, e podendo ela estar sob um ponto de vista sentencioso, a crítica, além de propiciar o juízo adequado da matéria também poderá fazer emergir um sem número de tensões e resistências de diferentes graus e qualidades a depender de seus interlocutores. O que é comum na atmosfera do politicismo integral que tem dominado os Novos Movimentos Sociais (NMS) e seus simpatizantes.
Um exemplo corriqueiro desse tipo de impasse é o termo ‘antifeminista’. Segundo as feministas Daphne Patai e Noretta Koertge [2], rótulos como estes são ferramentas habituais contra as críticas direcionadas ao feminismo. Para as autoras, o termo é empregado somente para silenciar o debate dentro e fora da academia. Por outro lado, há também o insistente emprego do termo feminista ao outro ao não permiti-lo o direito esclarecido de se negar em tal lugar, dizem: "se você acredita na igualdade entre os gêneros, você é feminista!", como se a compreensão de noções como igualdade e feminismo não merecessem um debate mais qualificado acerca de seus conteúdos, possibilidades e dificuldades.
Com isso, os rótulos impõem os limites do entendimento por uma comunicação produtiva. Cumprem o seu papel interditor em uma cultura cheia de informação, mas resistente ao debate que trata adequadamente a informação capaz de produzir o conhecimento que sustente transformações perenes. Por que afinal de contas, quem seria contra os direitos das mulheres? O que não assegura aos defensores mais acalorados a tranqüilidade de não ter os seus conteúdos e razões colocados em suspeita e, por isso mesmo, sob uma boa discussão.
Para saber é necessário des-saber o sabido, duvidar de sua própria dúvida, suspender o caráter essencialmente associativo e afetivo que dominou o atual ativismo da emancipação das mulheres. Afinal, somente o dogmático dorme e luta sobre a pretensão do incontroverso.
Então, ousemos pensar! E [re]pensar.
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Isabella Passos é formada em Filosofia. Adora descobrir o que alimenta as ideias.
[1] Wikipedia.org (no domínio francês)
[2] Daphne Patai e Noretta Koertge são professoras norte americanas de Literatura e Filosofia da Ciência, respectivamente, e autoras do livro Professing Feminism: Education and Indoctrination in Women’s Studies em que analisam o tipo de ensino praticado por grupos acadêmicos em torno das temáticas sobre a Mulher.
![[re] pensar](https://miro.medium.com/fit/c/160/160/1*nHjRg68ubJa3uVSfF45xZw.png)