
botaram uma cadeira de praia na sacada do apartamentozinho. aqui não tem praia, tem o desejo de nadar em marés altas. o vizinho do último andar, da arquitetura que privilegia a sua morada, assiste todas as vidas das demais caixinhas de apartamento. o dele é vazio, sem cadeira, nem maré. botaram uma janela transparente, uns vidros translúcidos que era pra amenizar a sensação do pouco espaço, da ausência de ambiente e nessas ausências moram-se corações sufocados que raramente se aninam quando um acontecimento inesperado ou misterioso lhe toca a campainha. aqui, o sol é pouco, só é forte no alto verão, todo o restante de dias ouvem-se dores de cabeça pela falta da vitamina D. D é uma letra que diz muito. diz em muitas línguas, conjuga muitos verbos derivados latinos, aponta o nome de entidades divinas que talvez existam pra amenizar o encaixotar do cotidiano. passeando nas largas ruas dessas vidas é possível notar que 7 metros quadrados são suficientes pra sobrevivência. são? entre uma dúvida e outra e a falta de diálogo, os vizinhos do prédio de caixinhas não se veem, não se relacionam, não sabem nada da vida do outro, não se interessam. somente aquele lá de cima, do privilegiado que vigia os demais deles.