das manhas das manhãs e o jeito incerto de me encaixar em teus lençóis.

das vezes que te propus acordar ao meu lado fui surpreendida com seu abraço no meio da noite. a simples intenção de procurar minhas mãos perdidas entre as cobertas da cama me fez querer te propor outras vezes esse acordar e pedir quase que implorando pra ficar e deixar de partir. partir pra mim significaria não ter mais estes abraços surpresos e a sensação das minhas mãos soltas entre as cobertas da cama me traria lágrimas das quais eu não saberia enxugar sozinha. passei meses tentando lidar com um presente apegado a um passado, com muitas informações novas das mudanças que meus 29 anos me pediam. você entrou em julho, em meados da bagunça dos meus medos, e seus grandes olhos fizeram grudar os meus, pequenos, sem querer desviar mais essa presença sua imposta atrás de óculos que disfarçavam as tentativas de me enxergar. te propus que me visse, que me reconhecesse sem grau algum de miopia, que me descobrisse sem receita ou nome atribuído a novo amor, que estivesse disposta vivenciar. você veio quieta, com os ares despretensiosos, com lacunas nas mensagens que tentavam dizer algo sem querer dizer coisa alguma, o seu medo estava próximo ao meu, mas a vontade de fugir para as minhas terras desconhecidas fez esquecer qualquer insegurança. o desconhecido se tornou o seu chão, um amuleto ou alicerce que te pendurou ao pescoço e fez organizar as nossas partidas. foi aí que aceitei a tua entrada, aceitei a tua procura na noite em me resgatar na cama de algum sonho perdido, aceitei a tua frase dizendo que os nossos abraços teriam fim, você partiria dali meses para uma vida nova e eu não te cobrava uma vida nova, nem que o abraço se prolongaria, porém meus olhos te suplicavam desde o início que você continuasse me olhando por mais alguns dias, por mais algumas horas, me procurando nessas tentativas de me salvar dos meus próprios sonhos esquecidos. acho que você entendeu, que compreendeu os meus fracos escudos de mulher forte, achou brechas nas minhas franquezas e decidiu de uma vez tentar. tentar entrar, tentar ficar, sentar comigo, mesmo quando tudo te forçasse a ir. as inúmeras despedidas que criamos em nossas mentes trouxeram fortalecimento para os abraços, pra que não se desfizessem no primeiro avião que atravessasse o céu da casa que remodelamos juntas. das vezes que te propus acordar ao meu lado com um café de pouco açúcar você remexia tudo pra tornar saboroso pra mim. das vezes que te propus não forçar abrir os olhos porque era cedo demais esquecemos dos relógios e fomos ficando ficando sem perceber quantas manhãs passamos gostosamente juntas. a simples intenção de procurar você ao meu lado me fez desejar que esse lado tornasse único e fosse guiado a uma só direção: na minha ida até a sua chegada, na minha busca pelo companheirismo que desejei tão breve encontrar e que quando encontrei (te encontrei!) a gratidão que percorre meu espírito transcende qualquer palavra ou foto que eu procure colar aqui. tudo isso não quer dizer nada, é só pra gente lembrar das manhas das manhãs e teu jeito incerto de me enquadrar nos lençóis teus.

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