dia 5. les masques.

quando elas caem e são penduradas na vitrine.

na boca o mesmo batom de sempre. nos olhos, a indecisão de se saber quem é. no máximo, vez ou outra, um cílio mais alongado uma sombra que encobre a sombra da identidade e incerteza. ela nasce no corpo de mulher, ela tem mãos, seios, de mulher. ela tem os desejos reprimidos, a ideologia de uma beleza vendida nas vitrinas, escancaradas nas novelas, a avó e mãe cobrando os cabelos bem penteados, a roupa impecável, as unhas feitas. vai crescendo dessa forma, sem forma, seguindo o que é dito-imposto em seu próprio corpo. no íntimo, traz a dualidade das sensações ultra seres humanos, o reencontro com o mito do andrógino no meio de suas pernas. ela não quer ser ela. sequer ser ele. ela precisa ser os dois, os dois e ao mesmo tempo. ela não pode negar ou abstrair dessa forte existência, o eu reclama todas as contrariedades da escola, do bairro, da famíliazinha. ela corta tudo, então, começa pelos rabos, pelos cabelos, tira parte deles, bota no pote de lembranças porque olhar praquilo vai ajudá-la a descobrir quem é. tira as roupas que já não servem, pendura tudo em armários de desconhecidos, naqueles que ainda não se veem na transgenerosidade. pendura e perdura, até na desconfiança que busca a confiança de si mesma — ou de si mesmo, agora —, tira a máscara que costuraram no nascimento e deixa lá exposta por mais uns dias pra ver reação de quem passa por ali. ali é o seu lugar, no seu corpo mais fortemente sentido. ela e ele se encontram se seguem, abrindo os olhos por vezes, fechando outros quando preciso.