dia 7. o vaso acolhe as superfícies.

ela se levanta, tropeça numa peça qualquer de quarto, sai arrastada pelos dedos que erram a porta e o interruptor. abaixa as calças inebriada pela falta de vontade de levantar, o vaso acolhe suas superfícies, ela joga o papel fora como se jogasse o próprio rosto amassado de travesseiro. abre a torneira, tem pouca água, a pasta está quase no fim e as cerdas da escova é a primeira maciez do dia. o espelho não existe, fora quebrado na vez que o excesso de álcool lhe fez odiar o namorado que traiu sem pensar nas consequências que traria ao buraco do armarinho do banheiro. ela lava as remelas, enxuga o que sobrou de água no rosto, aperta nas mãos a segunda maciez do dia, as toalhas bordadas por mamãe. está quase chegando à cozinha quando se lembra que voltar ao corpo é necessário, tem um trabalho enorme lá fora esperando disposição e paciência. prepara o primeiro gole de xícara, adoça bastante as prateleiras, pega qualquer coisa que se diz ter mais de mil calorias, um pó no guaraná, três mais sachês de instantâneo, a pressa das horas vai leva-la a preparar tudo rápido, enfrentar o trânsito da volta, o trânsito dos pensamentos, sobretudo, o trânsito que ela gostaria de morrer afogada, como carro que não pega, quando na pressa não tem tempo de reparar as olheiras, ajeitar o cabelo pra vingar traição com o primeiro bonitão de escritório que passar. chega em casa o dia chegou dentro dos sapatos, os pés já exaustos cobram uma circulação mais lenta, é hora de não ter hora nenhuma, de dormir, de deixar um pouco do corpo, entrar em outra história, buscar as alegrias que não trazem nos dias.

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