dia 8. sem forçar ajustamento.

choveu o dia todo.

choveu o dia todo e ela machucou um pé quando a bicicleta a expulsou sem piedade. na tentativa de não morrer os olhos ou outra parte do rosto, se protegeu esquecendo da formalidade do restante do corpo, caiu em cima de si numa dor provocada pelo sentir da própria existência estagnada no asfalto. as pessoas passaram se riram não se compadeceram à limitação alheia pela queda não se sentiram os corpos nem qualquer outra passagem ali, não se respirou direito na dor, não se forçou ajustamento, não se tentou levantar no impulso do meio da aceitação de uma queda. não se importaram com o redor, com os risos, nem com a falta de reconhecimento local, nem com tudo acontecendo tão rápido e tão não familiar, como mudanças que propomos realizar nas viradas de séculos. os séculos das próprias memórias, dos anos armazenados nas vezes da aprendizagem do andar. a bicicleta expulsa da mesma forma que ela expulsa uma pessoa que não cabe mais nela. será que se preocupa com essa queda ser tão dolorida como a queda de si mesma? será que sentirá alheia a esse ambiente que a coloca agora? será que terá vontade de programar algum ajustamento? não se pensa nisso, os pedais também não se ajustam em segura-la firme na própria bicicleta.

o frio do chão torna tudo mais gelado, mais difícil de curar machucado, o sangue se demora a circular.

uma mão se ergue por trás, o olhos oferecem apoio, um colo quase se é inevitável aceitar para voltar a se andar direito.

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