.em meados de dezembros, com hitchcock

fico paralisada nesse minuto porque eu não entendo o que faz mudar o percurso de um passarinho e leva-lo a sentar no meu sofá quando ele pode estar às soltas.

acordo hoje com a ligação de um emprego querendo que eu fosse fazer parte do trabalho. passei meses tentando olhar para qual trabalho devesse eu mesma fazer disso uma parte de emprego. depois veio uma amiga tentando me dizer que as coisas não tinham saído como planejado (planejamos quase que juntas essas coisas que ela fala, coisas do cotidiano e amorosas) e eu ainda meio zonza de ter acordado com a ligação inesperada de emprego digo que está tudo bem em não sair como planejado, pois o tentar, neste passo, faz parte do processo atual da vida dela. tentamos que fizesse dar certo algo e se não deu é porque ainda devemos continuar nessa empreitada. e juntas. disse mais uma vez a ela, você não está sozinha nisso, estou também, a ideia é fazer dar certo algo que se deve concretizar e ela se perceber superada. alimento nela uma esperança da qual eu repito em retórica a mim de forma frequente, ouço meu discurso ocupando a figura de um gravador no repeat, meus ouvidos precisam de certa repetição e que minhas próprias esperanças se segurem nessa voz extra, que vem de fora, a se lembra dela se manter fortalecida, já que as coisas acontecem sem de todo o nosso controle e, geralmente, soa para o nosso melhor. continuo na conversa com a amiga até que algo passa à frente de minha porta, estou no meu quarto nessa conversa e divagação, e não identifico o que é. fico assustada, estou sozinha em casa e agora não há nenhuma voz para me dizer que, independente do que isso seja, tudo vai acontecer para o meu melhor. corro para a sala e descubro que um enorme passarinho se encontra perdido em meu sofá. fico paralisada nesse minuto porque não entendo o que faz mudar o percurso de um passarinho e leva-lo a sentar no meu sofá quando ele pode estar às soltas, pela casa inteira e cima da casa também. fico paralisada no minuto seguinte ainda porque não consigo chegar perto dele sabendo que ele pode decidir trocar o sofá e voar para algum lugar que não conheço na casa ou tentar vir para cima de mim pra mostrar alguma coisa da qual eu não tenha acesso em mim mesma, quem sabe pra apontar que devo deixar de podar minhas próprias manifestações de asas nas simbologias de ações e discursos que verbalizo às amigas. observo o passarinho e ele parece me observar também, foram poucos segundos de estranhamento e eu não sabia se era ele quem invadia meu espaço ou se eu que mudava o rumo do seu conforto no sofá. fico ali ainda paralisada e agora além de paralisar observo ele e penso em como é que ele vai sair dali, já que o sofá é tão confortável e macio e a temperatura da sala tão boa e há tantos livros na estante dos quais ele poderia folhear e adquirir um conhecimento que ainda não tenha e possa talvez mostrar a mim também algumas das páginas que não li. que não li e não quis interpretar, e esse passarinho me parece ser bastante inteligente e me parece estar ali em busca de estabilidade, nas palavras e no voo, que por outro momento penso que seja difícil ele querer me ajudar com algo assim, na minha falta de coragem de encarar as literaturas que me esperam e os sofás macios que eu ainda não provei.

passa um tempo e eu espero que ele vá embora, a presença dele me preocupa quando, afinal, o meu sofá não é habitat natural pra passarinho, nem os livros na estante talvez sejam capazes de ensinar o que ele procura ou vem buscar aqui na minha casa.

começo a pensar em um plano para liberta-lo e cada tentativa de passo à frente para chegar mais perto dele me faz perceber que tenho medo de passarinho. o que um passarinho poderia fazer de mal a mim? quando tento responder a essa minha pergunta, imediatamente depois, vejo que ele não é bem um passarinho, mas um pássaro de grande porte, ou um passarão como bem contrariaria quintana, o Mario, que preza pelo gosto da poesia nas coisas e não na vontade de encarar livros e literaturas como forma de superação de realidades e medos.

em vista de perceber que o pássaro tinha um porte que só aumentava o meu medo de chegar perto, deixo que meus passos se recuem e me retornem à conversa de celular com a amiga, escrevo a ela e a um outro também amigo pedindo ajuda na forma de como libertar aquele pássaro.

- entrou um pássaro grande aqui na minha sala.

- e eu não sei como ajudar ele a achar a janela. pra sair.

- você tem alguma ideia de como posso fazer isso?

- deixa aberto. tente não assusta-lo.

- nossa, muito difícil.

- ele vai sentir a corrente do vento.

(…)

- consegui.

- estava com medo dele se machucar.

- não sabia muito como fazer sem ele se machucar.

- não sabia como conseguir ajudar ele a voar.

o pássaro foi embora e não foi pela janela que consegui abrir. ele deu a volta pelo lado oposto que eu estava, visitou a cozinha e depois a lavanderia, descobriu que tínhamos um telhado transparente e que ainda não era ali. só então viu uma fresta de luminosidade vindo do outro lado da vizinha, correu a voar para lá e sumiu.

visto que ele foi embora, volto para a sala para mensurar o estrago dele ter ficado tanto tempo no sofá. volto e percebo que, na verdade, era ele quem mais tinha medo de mim, fez cocô pela sala inteira, enquanto eu o olhava e pensava, ele se borrava do que eu poderia tentar impedir dele voltar de onde veio.

toda essa sua sujeira na minha sala me fez lembrar do quanto não estamos preparados para libertar passarinhos. Hitchcock me explica. e eu volto com a amiga em diálogo e digo a ela que vai ser preciso a gente olhar mais calmamente para essas coisas que vimos tentando. ela concorda comigo, mas diz que ela é a passarinha da história.


vai ser preciso a gente olhar mais calmamente para essas coisas que vimos tentando.