só a morte que quase não é.

estou aqui. finalmente estou aqui. nunca me senti aqui. tão bem aqui. bem, sozinha. nessa cidade, o cemitério é um lugar de passeio, de turismo, de trazer paz. vi ele tantas vezes nos filmes, sobretudo nos pés que Truffaut filmou. que silêncio. vontade de retratar tudo, as flores vivas, as flores mortas. os corvos sobrevoando nossas cabeças, a minha, as deles. aqui, pessoas sozinhas, outras em bando. outras fumando charuto, puxando carrinho, uma perna manca, bengala. outras fumando uma erva qualquer que conecte ao lugar, aqui, às pessoas.

acordei hoje sentindo meu corpo num não-lugar. aqui. sentindo que deveria visitar aqui. mas já não estou aqui? os meus pés voltados para o céu, a minha fala, os pensamentos tão rápidos e indecisos, meu corpo, sozinho, decidiu por mim, a vinda. aos mortos ou àqueles que estão agora no não-lugar. deveriam ser a minha companhia. difícil explicar vida, explicar?, as escolhas, os diálogos prolongados sem sentido, ausência de referência, as palavras soltas, horas e horas de palavras soltas, que não levam a lugar algum. aqui seria o não-lugar? seria o silêncio deles que me traz de volta ao corpo? meu corpo, vago, sente as lacunas intermediárias, as não perspectivas, o prazer e na hora seguinte, dor. o medo. a perda. de mim. minhas letras que já não conectam com nada, nem a caneta nem o papel me absorvem. a cidade, aqui ou talvez lá?, me transforma, nas inércias das minhas não-escolhas, no meu não-lugar.

os acontecimentos, as mulheres, os términos, a família, a família que terei, ainda, os desejos, os rascunhos, jogados, lá fora, os projetos, o meu nascimento, a minha vinda até aqui, os propósitos, meu leite materno, meus dedos do pé se mexendo e provando a possibilidade do não paralítico, a primeira queda, a voz dos reconhecidos, as datas, o diário, a cognição, o primeiro livro, escrito, a entropia, as crenças engajadas, as impostas, a filosofia, aquela que não li, que descobrirei, um concerto, outro conserto, chopin, 7a. symphony de beethoven, la chatte, as sombrinhas da minha vida, que não me deixaram molhar, quando eu respinguei, molhei a carta que ela me respondeu, finalmente, o primeiro apagador, a decisão do ensinar, meu avô, a lembrança, o amor, saudade, agora todos os amores, meus risos, pessoas me dizendo que gostam dos meus risos, eu me desculpando o amarelado do café, minha comida que queima na panela quando me perco e olho horas pra foto dela, olhando nos olhos dela, minha calcinha de sexo, meu sutiã rasgado pelo instinto, eu desligando o telefone sem querer desligar. o primeiro sarau, poesias minhas, timidez, a vontade de se guardar no armário, minhas meias rasgadas, eu querendo elas inteiras, meus fios, seus fios, uma cama à três, seu abraço me apertando, eu querendo ele, a foto que você tirou e que nunca tive acesso, a letra dela nos meus seios, o chuveiro nos esperando, meu dente de leite, minha gestação, mamãe misteriosa, ansiosa, ascendente, o meu de peixes, o dela também, mas perdi ela e todas as minhas águas que ela levou junto, não choro mais, mentira! amanhã vou chorar outra vez quando ela acordar pôr a roupa e não me dar bom dia nem meu café que ela fez e eu sei que é meu. meu lápis de cor, de cor, quebrou, um menino apontou ele nas minhas costas, era sala de aula, 7 anos, quase sinfonia, eu lembro, lembro de ser pequena, quase a menor da turma e a fila era indiana e eu era sempre quase das primeiras, a professora tinha a minha simpatia, boas notas, nenhum futuro, de quê adianta?, chega lá e não se chega, há dúvida, a dúvida, o casamento, papel assinado, vamos dividir a conta?, o apartamento, os sonhos, suas fantasias, agora minhas também, ela sonha que escovo os dentes, devo limpá-los, há muito café, os grãos, de areia, quando menina pegava juntava fazia castelo, a espuma, a onda, vem sempre e leva tudo que a gente tem. mas também, tem tão pouco. as construções frágeis, minhas costuras, têm janela, que é pra eu poder dar um pulo e respirar, quando quiser, ver os pássaros do vigésimo nono andar, os prédios morando no mar, depois vem Daumesnil, um monte de gente rica, floricultura, dei tulipas a ela, não murcharam, ela foi comigo até Versailles, ouvimos um flautista, o mais famoso das cidades, a música penetrou, as notas, me levou de volta depois para São Paulo, não havia ela nem Ela, vem Paris, entro, depois outra, a música, de novo, me conectou com todas elas, com a infância, com as cidades, com agora, Marx Dormoy, me coloca na estrada, entropia novamente, nas provas, no meu não-lugar do corpo, onde estou?

na morte, no renascimento, é preciso morrer parte pra outra parte poder entrar. não tem espaço, insisto na entropia, me enterro, aqui, agora?, amanhã nasço outra vez. na entropia, ela termodinâmicamente existe.

palavra difícil.

muito difícil.

tudo difícil.

(im)previsibilidade. desordem.

a sua, a minha, só a morte que quase não é.