#AgoraÉQueSãoElas: Ser mulher e militante

Participação de Francine Machado no #AgoraÉQueSãoElas

No fim do mês passado fui tomada por uma sensação pesada de impotência. Era Eduardo Cunha avançando contra nossos ventres — que tem que e serão laicos, ainda que para isso tenhamos que parir uma nova humanidade, colegas se abrindo doloridamente na iniciativa do Think Olga #PrimeiroAssédio e eu mesma resignificando experiência de choque, em que não soube o que fazer, mas provavelmente para sobreviver emocionalmente, na ocasião dei estrategicamente outro rótulo. Só que recentemente compreendi como se não o primeiro, um dos pontapés iniciais no assédio, que naturalizamos, só que atualmente as militantes jovens e vlogueira Jout Jout estão transformando inclusive as posturas das mais antiga nesta batalha: “vamos fazer um escândalo”!

Mesmo militando há tempos no Movimento das Mulheres do Heliópolis, me atrevendo nas Jornadas de Junho ou ocupando o espaço público nas marchas anuais das mulheres e me reconhecendo na luta coletiva de tantas companheiras “de estrada”, foi baque demais para um fim de outubro só. Como se não bastasse pouco antes as famílias fora do padrão “tradição, família e propriedade” também não tem reconhecimento e muito menos amparo legal, segundo decisão do que uma colega bem definiu “Congresso das Trevas”.

Militar sendo mulher não é exatamente uma decisão. É uma necessidade urgente.

É ouvir numa entrevista de emprego “que método anticoncepcional você usa”? E tempos depois entender que aquela invasão só é imposta numa sondagem nada profissional por conta do meu gênero. E que certamente ganharia menos, como nossos políticos empacados na Idade Média acham que merecemos mesmo, já que somos um risco de prejuízo em potencial licença maternidade.

Militar pra gente é batalhar, palmo a palmo, direitos que os homens ao nosso redor já se conformam até “é assim mesmo”.

Quando nos indignamos, chocamos ou não nos conformamos com amiga agredida que acolhemos em casa, com limitação da expressão do que vestimos pelos riscos que decorremos ou colega machucada que demoramos a convencer, levamos à Delegacia da Mulher, mas não conseguimos fazê-la registrar o B.O. de tentativa dupla de homicídio da parceira grávida, praticamente acordando com travesseiro quase sufocando o início do dia ao lado do agressor.

Ser mulher é renascer sempre, de novo e mais.

Quando já estava com a impressão de disputa perdida com nossos deputados e senadores cada vez mais “andando para trás”, são as jovens que provam: “do ventre nasce um novo coração”. E vão às ruas, forçam a discussão da cultura de estupro, insistem em não silenciar aos assédios nas nossas infâncias, se posicionam nas colunas dos amigos jornalistas e comunicadores.

Sim, já fui uma assessora e repórter, que sempre viu a profissão como o “clube da Luluzinha”, mas só na empreitada #AgoraÉQueSãoElas me caiu a ficha de que sempre fomos os piões da área: as direções, colunas, espaços dos “formadores de opinião”, quase nunca estiveram no colo das mulheres, militantes, periféricas, negras e muito menos das trans.

Bem, agora dando aula, escrevendo e contando história, acabei me afastei mais um bocadinho das possibilidades do jornalismo, da Internet… Só que da militância nunca!

É nossa convicção que está lá, levantando bandeira, pintando os rostos, cantando em grupo, chamando outros para a rua, já que a ameaça contra o estado laico paira sobre todos os nossos ventres.

Mesmo temporariamente sem saúde para ocupar as ruas junto com as jovens feministas, me orgulho: no sangue, suor e lágrimas abrimos um espaço pra termos essa consciência, para brecarmos esse retrocesso, cantarmos e escrevermos pelos nossos direitos. As bandeiras não são vermelhas à toa. E noutra transmutação de ânimo, volto a acreditar, sentir e escrever vendo as mães nas ruas com os bebês em slings: estamos fazendo nascer a sociedade nova. Quem disse que esse comportamento nosso é só de homem?

Quem falou para abaixar o rosto quando avançam contra nossos corpos? Onde está pré determinado que a cultura patriarcal não se modifica? Sinto muito.

Essa forma tão passiva de lidar o machismo, sexismo, preconceito, racismo, trans e gordofobia não funcionou. E estamos em parto coletivo dum mundo novo. A quem vem agora: não repare a bagunça da reforma! Estamos num trabalho intenso e persistente para entregar um comportamento, cultura e Brasil novos. Com cheiro de tinta.

“Que sonho que se sonha só é só sonho, mas que se sonha junto é realidade”.