Retrato do meu saudoso tio Zulma Almada, o Caipirão do Carcanhá Rachado

Caipirão

Carlos Grillo
Aug 24, 2017 · 2 min read

Por mais de uma década, minhas férias escolares tiveram Minas Gerais como destino. Era um esquema compulsório. Quase toda a família do meu pai — avós e 15 tios — morava em Passos. E praticamente toda a família da minha mãe — avós e 7 tios — morava em Belo Horizonte. O que não faltava nas duas cidades, era gente para me pagear. E a ideia era essa mesmo. Não demorei a entender que eram os meus pais que tiravam férias de mim e não eu que tirava férias da escola. Nada mais justo. Os velhos mereciam algum sossego.

Resignado, eu apenas aguardava os bons momentos dessas temporadas mineiras. O mais esperado deles: viajar para o Rancho do Ti’Zulma. Eu era louco por aquele lugar. Ficava na cidade de Pimenta, numa espécie de loteamento chamado Vivendas do Lago, às margens do Rio Grande, na represa de Furnas. O Ti’Zulma, irmão do meu avô materno, era casado com a Tia Cota, dona da melhor pipoca do universo segundo dados irrefutáveis da minha memória afetiva. Para sorte da família, os dois deixaram para trás uma situação até confortável na capital para retomar a vida tranquila da roça.

À época, naquele pedaço isolado de terra, a única comunicação que eles tinham com o mundo era por meio de um radioamador. E meu tio era uma espécie de celebridade dentro desse universo. Um sujeito querido, engraçado e de voz poderosa conhecido como o “Caipirão do Carcanhá Rachado”. Eu passava horas ao seu lado, ouvindo conversas deliciosas, repletas de termos e códigos curiosos. Aquela foi a primeira rede social com a qual eu tive contato. Muito antes do BBS, do IRC, do ICQ, do Orkut, do Facebook e dessas coisas. Muito antes da Internet até.

As ondas dos radioamadores singravam os céus para levar e trazer notícias de entes queridos, encontrar carona confiável de um município a outro, fazer encomendas de todo tipo, inclusive de remédios e, é claro, falar de política. Ao contrário das redes sociais de hoje, no entanto, aquela guardava uma certa poesia. Em que bate-papo, chat ou post, você ouve alguém chamar caneta de bailarina? Carro de pé de borracha? Ou amigo de macanudo? Os “Papa Yankes” e “Papa Tangos” tinham uma linguagem peculiar e belíssima. Algo que se perdeu entre emoticons, emojis, gifs, citações duvidosas de Clarisse Lispector, memes vazios revisitados à exaustão e uma profusão insandecida de hashtags.

O que hoje nos sobra em tecnologia, parece nos faltar em alma. Talvez seja um bom momento para pensar se não devemos reaprender a conversar. De resgatar o prazer de um bom papo, mais elaborado no conteúdo e despretensioso na forma. Capaz de motivar compartilhamentos e inspirar curtidas sem implorar por elas.

Nota:

Escrevi esse texto inspirado em meu saudoso Tio Zulma Almada, que nos deixou há exatos dois anos.

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    Carlos Grillo

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    Sócio fundador da Fermento Promo. Co-fundador da Revista Traços. Fotógrafo submarino, de natureza e de vida selvagem. Pai do Lucas.

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