A fumaça que ainda paira sobre Santa Maria

Celulares tocavam. Um, dois, três, muitos. Os gritos vinham de todos os lados e a fumaça negra encobria o céu da cidade coração do Rio Grande do Sul. As lágrimas que começaram na madrugada de 27 de janeiro de 2013, ainda não cessaram.

A Kiss estava lotada. Lá dentro, muitos jovens e estudantes se divertiam. Iniciou-se ali a maior tragédia do Estado. Iniciou-se o resultado de uma série de irresponsabilidades. Iniciou-se o pesadelo de inúmeras famílias. Iniciou-se o fogo.

Eles não tinham culpa. Só queriam aproveitar o fim-de-semana, aproveitar a vida. Assim como eu, como você e tantos outros jovens que frequentam baladas e buscam locais de diversão. Mas naquela noite foi diferente.

Naquela noite o riso transformou-se em pranto e a alegria em desespero. 2h30min da manhã; um artefato pirotécnico; um alvará vencido; uma boate superlotada; um extintor de incêndio que não funcionou; uma única porta de saída. 242 jovens levados dessa vida prematuramente. 242 sonhos que acabaram na Rua dos Andradas, 1925. 242 pais que não viram seus filhos voltarem para casa naquela noite. E nunca mais verão. 242 famílias que até hoje aguardam por justiça.

Alguém precisava ser responsabilizado. Eram tantas infrações que a Polícia Civil responsabilizou 28 pessoas e indiciou criminalmente 16.

Quatro anos e cinco meses se passaram. Os celulares já não tocam mais. Nada aconteceu com os culpados. Após as investigações do Ministério Público, restaram apenas quatro denunciados, que respondem em liberdade. Nenhum responsável pelos alvarás, licença de funcionamento, vistorias e demais protocolos que não foram cumpridos, foi culpabilizado.

Os pais deitam sobre seus travesseiros todas as noites com o sentimento de injustiça. Mas eles não se calam. Tampouco aceitam. Foram às ruas, à imprensa, aos tribunais. E continuarão indo, quantas vezes forem necessárias.

Hoje os responsáveis seguem impunes. Apenas três bombeiros foram condenados, mas respondem em liberdade. Enquanto isso, uma mãe e três pais estão sendo processados por calúnia e difamação. Eles ‘ousaram’ acusar os promotores de Justiça envolvidos no caso. Eles se recusaram a aceitar em silêncio as falhas que mataram e feriram mais de 900 jovens. Eles perderam seus filhos e podem perder sua liberdade também.

Passaram-se 53 meses. Os pais ainda choram. Um, dois, três, muitos.

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Texto por: Melissa Konzen

Imagem: @Cesarcartum para o Notícias do Dia Ric-Record