O invisível B — A representação de bissexuais em filmes e séries

A palavra “bissexualidade”, embora usada para definir pessoas que se atraem por ambos os sexos, muitas vezes é vista como sinônimo de indecisão e vulgaridade por heterossexuais e, até mesmo, outros membros da comunidade LGBT. Esta concepção errada que muitos têm sobre bissexuais torna-se ainda mais forte graças a pouca representação dessas pessoas em séries e filmes. Afinal, quantos personagens você pode afirmar com total certeza serem bissexuais no cinema ou em programas de TV? Sua resposta, infelizmente, deve ser “poucos” ou “nenhum”.

Raramente um personagem cinematográfico ou televisivo é assumidamente bissexual. Na maioria das vezes são homossexuais, mesmo que já tenham se relacionado com pessoas do sexo oposto. Dos poucos que são bissexuais, apenas alguns já afirmaram sentir atração por homens e mulheres e/ou se envolveram com ambos durante a estória.
Um exemplo de personagem que já manteve relações sexuais com ambos os sexos durante a trama é Sara Lance (Arrow/ DC’s Legends of Tomorrow). No show do Arqueiro Verde, a heroína (nem tão heroica) manteve um romance com o protagonista e, mais tarde, com outra personagem, Nyssa al Ghul. Em Legends of Tomorrow, sua série atual, Sara demonstrou sentimentos por Leonard Snart e se relacionou com algumas mulheres durante as duas temporadas do programa da emissora CW.

Outros personagens que podemos citar como bissexuais em séries são Brittany Pierce (Glee), Príncipe Oberyn (Game of Thrones), Olivia Burke (Gossip Girl), Wade (Faking It) e Callie Torres (Grey’s Anathomy). A série How To Get Away With Murder, é um dos poucos (talvez o único) exemplo de show onde a protagonista é bissexual. Na trama, Annalise Keating era casada com um homem e já havia tido relações sexuais com mulheres no passado.

Segundo dados da GLAAD (Gay and Lesbian Alliance Against Defamation), em 2016, os personagens bi de séries subiram de 20% para 30% no período de um ano. Em serviços de streaming, o número aumentou de 20% para 26%. Porém, em séries de TV pagas, a representação baixou de 35% para 32%. Em todas as plataformas existem mais mulheres bissexuais do que homens, o que ajuda a fixar ainda mais ideias machistas e preconceituosas contra a comunidade LGBT.

No cinema, pelo fato de um filme ter em torno de duas horas de duração e não desenvolver seus personagens mais a fundo, fica ainda mais difícil encontrar exemplos de pessoas que se digam bissexuais. Em filmes como “Azul é a Cor Mais Quente”, “O Preço da Traição” e o premiado “Carol”, por exemplo, existem personagens que se ‘encaixam’ na definição do termo, embora em nenhum momento se definam como tais.

Grande parte dos personagens bissexuais em programas de TV e no cinema não possuem destaque na trama ou mesmo diálogos sobre sua orientação sexual. A falta desses na mídia ainda é um problema enorme, que, além de ajudar a manter os estereótipos de bissexuais indecisos e fetichizados, não contribui para um maior diálogo acerca dessa orientação sexual tão hostilizada. Sabemos que a representação é, e sempre foi,algo de extrema importância e necessidade. Exemplos nas telas, mesmo que escassos, são de grande relevância, tanto para telespectadores que ainda não aceitam uma sexualidade diferente da sua, quanto para os que estão se descobrindo ou que já passaram pelo processo de aceitação.
Texto/Opinião: Paulo C. Ferraz
Revisão: Victória Lopes