Idosos não são crianças

É muito comum a infantilização dos idosos. É velhinho pra cá, vovozinha pra lá. Quando estamos em um contexto de intimidade onde há campo para isto não vejo problema; mas me incomoda quando vejo um idoso sendo tratado como criança. Como se ele não pudesse entender o que está sendo dito pra ele. Pior ainda é quando vejo um anúncio de “Creche para idosos”. Aí meu coração como gerontologista se quebra.

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Eu estava no supermercado outro dia e vi a moça do caixa soltar a seguinte pérola: Vovó, você quer ajuda pra embalar as compras? A intenção foi das melhores, não me entendam mal. Com certeza a moça quis ser simpática e ajudar. Mas me surpreendi mesmo foi com a resposta da senhora que disparou: Não tenho netos para ser chamada de avó e se tivesse não teria sua idade.

Tirando a falta de jeito de ambas as partes, entendi a situação. Nós presumimos que se tem cabeça branca é velho é naturalmente avó ou avô. Já montamos um cenário de família tradicional que não é a realidade de muitas pessoas.

Precisamos lembrar que este ser humano que está em nossa frente, tem uma história, tem experiência, tem vivências! Tem uma bagagem riquíssima! E não sabemos absolutamente nada sobre sua vida. Ou seja, não devemos presumir absolutamente nada!

Desde então tenho pensado neste assunto. Me peguei outro dia chamando a atenção do meu pai porque ele não tinha marcado um otorrino. Isso porque acho que ele está perdendo a audição e ele teima que não. E assim, aos poucos vemos os papéis se inverterem.

Meu pai é médico, clinica até hoje e leva uma vida totalmente ativa. Mais do que ninguém ele sabe sobre a importância de se consultar com um profissional e sobre as vantagens de se resolver precocemente qualquer problema. Ele trata de pacientes todos os dias e alerta sobre os cuidados com a saúde, os encaminha para outros profissionais e puxa a orelha deles quando não seguem o que deve ser feito. Porque eu, deveria ficar no pé dele? Porque eu deveria tratá-lo como se ele não estivesse indo ao médico por pirraça? Ele é adulto e sabe o que faz, certo?

Médio. A gente se preocupa. E por mais que eu saiba que ele é perfeitamente capaz de procurar um médico e procurar ajuda, fico receosa. Qual o limite entre tomar as rédeas das decisões por eles ou deixar que eles sofram as consequências dos próprios atos?

Escuto muitos casos de famílias que tiram os carros dos idosos, porque acham que eles não podem mais dirigir ou que tomam outras decisões sem o consentimento deles.

Outro dia fui visitar uma senhora de 93 anos. Ela mora sozinha no mesmo prédio que o neto. E foi ele quem me chamou. Estava preocupado e queria fazer adaptações na casa dela. Ela foi super gentil e me recebeu super bem mas na primeira oportunidade me falou: Você é muito simpática mas não sei o que está fazendo aqui. Minha casa está ótima e não preciso de nada.

Enquanto andávamos pela casa, ela tropeçou três vezes. Não escutou a cuidadora chamando por ela e teve dificuldades em me entender algumas vezes. A casa era fofa mas precisava realmente de alguns ajustes.

O que fazer? Tomar a frente e ignorar a opinião dele? Se é em prol da segurança justifica? Não tenho uma resposta pronta. Me policio sempre para tratar os idosos com muito respeito pela sua história e pela sua autonomia. Os trato como os adultos que são. Mas me pego às vezes com vontade de falar: Vai fazer e pronto! É o melhor pra você! Mas sei que não posso. Preciso escutar seu ponto de vista e tentar encontrar um meio termo.

Mas como é difícil às vezes!