NACHO DOCE / REUTERS

Ressacada

Sentiste a mudança climática? Sentiste as rajadas de vento? Observes este mar: esse mar de gente que caminha feito onda bravia. Quando chega à costa é para inundar as ruas. É para botar abaixo tudo o que não presta.

“Quero ser conhecido como presidente das grandes reformas” disse ao Ratinho — aquele mesmo que chutou uma mulher no palco e fez a fama promovendo barraco em canal aberto, mas não gosta de violência. A TV não gosta de violência, dizem. O barraco do pobre fica bonito num quadro de 15 minutos em programa de auditório ou como cena de novela — fica engraçado, dizem. Mas o barraco toma as ruas: tem pneu queimado e vidraça estilhaçada, não achas engraçado dessa vez? Te causas pânico que o povo saia do tubo para resolver não só os casos de família, mas os casos de trabalho, os casos de aposentadoria, os casos de direitos?

Subas no morro mais alto e observes o mar: é a ressaca. Sintas as rajadas de vento nos cabelos. Se fores gota de oceano não temas: fazes parte do mar bravio mesmo que não saibas ainda.

Vejas aquela onda: é pontual, dizem. Observes ela se encopando em movimento crescente: 40 milhões de gotas mudaram sua rotina para compô-la. São gotas operárias, gotas professoras, gotas enfermeiras, gotas bancárias, gotas motoristas, gotas ferroviárias, gotas aeronautas, gotas comerciantes, gotas idosas, gotas crianças, gotas gestantes. Enquanto eles dizem que é pontual, a onda avança.

Permaneçam na costa e vejam as nossas reformas, eles dizem. Precisamos que sejam gotas, eles dizem: de suor e de sangue. Milhões de gotas se negam, vejas! Milhões de gotas não querem mais ser suor e sangue da fortuna alheia. Milhões de gotas correm pro mar e vejas que altura chega a onda. Ela vai estourar na costa, lhe aviso. Precisas parar e sentir a mudança climática: ela anuncia as transformações. A decisão de que gota serás deve ser sua. A decisão se permaneces esperando na costa ou se vais pro mar deve ser sua: eu vou pro mar, ser caos, ser brisa, ser ressaca. Me acompanhas?

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