Sala de espera

Colou electrodos gelados que fê-lo adentrar o coração dela. Virou a tela para que ela também pudesse ver: seu próprio coração. Ansiava a possibilidade de finalmente encontrar as respostas de todos os apertos dos últimos tempos.

Ela parecia triste com o que viu: todos sentimentos do mundo transmutados em forma de um vazio escuro na tela. Onde fora parar toda aquela angústia de ontem à tarde? E todo o amor, prazer, volúpia, insegurança, medo, onde foram parar? Toda aquela cosquinha que fê-la rir sozinha na outra noite, afinal, não tem forma? E todos os seres que ela jurava aconchegar?

Perdida em pensamentos confusos deixava de incomodar-se com o gel espalhado pelo seu peito esquerdo. Tampouco conseguia se concentrar na porção de nomes de médicos que o doutor citava a fim de encontrar algum amigo comum: há isso no campo da saúde, esse orgulho em conhecer. Desculpe, trabalhamos no mesmo prédio, mas não me lembro de nenhum de seus amigos.

Importava-lhe pouco os sobrenomes e seus feitos operatórios. Compreender onde diabos estavam todos aqueles sentimentos acabara tomando toda sua atenção. Pense, observe! Talvez os confins do miocárdio não seja mesmo a masmorra da alma.

Fique feliz — ele disse — encontramos aqui alguém em perfeito estado. Ela não sorriu. Escute, então, ele insistiu. O som era bonito. Gostou de ouvir seu coração, pensou até em tornar isso um hábito. Encantava-se pelo ritmo até que lhe veio como estalo: o pulsar. É nisso que consistem os sentimentos. Não são coisas passíveis de realocar, expelir, transplantar. São batimentos, movimentos.

Há tanto de sentimentos nas propriedades fundamentais do miocárdio! Cronotropismo, leu: é o efeito no ritmo cardíaco que o faz acelerar. Lembrara saudosa de momentos ritmados, conduzido também pelo pulsar alheio. Inotropismo, entendeu: foram os momentos que fê-la sentir aperto tão profundo que olhou-se no espelho esperando encontrar seu avesso. Lusitropismo, sorriu: está aí a tão buscada sensação de relaxamento.

Pode vestir-se, já encontrou o que buscava: fossem pequenos objetos os sentimentos, as mesas de cirurgia estariam cheias. Mas são vibrações, movimentos, não os agarramos, nos resta deixar que fluam. Agora passe a outra sala, vai saber como corre o sangue de suas veias.

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