Aprendendo a parlare um novo idioma

No ano passado, tive de passar por uma experiência um tanto interessante: aprender um novo idioma, do zero.

Diferente de décadas passadas, o inglês está cada vez mais acessível e praticado em todo o mundo. Aqui no Brasil, não falamos em reuniões, ligações e criação de redes profissionais, mas sim algo como "vamos fazer uma meeting pra discutirmos aquela call do evento de networking?". Like, follow, build, inbox… tudo incorporado ao nosso linguajar do dia-a-dia.

E quando não dominamos um idioma e precisamos dele para uma viagem? Antigamente era necessário recorrer a cursos rápidos, ouvir CDs antes de dormir, comprar livros de "Russo em 24 horas"… Hoje em dia as coisas estão um pouco diferentes.

Visitantes

No ano passado, fui a trabalho para Milão, Itália, com o intuito de preparar mesas interativas com jogos digitais no pavilhão Brasil na Expo Milano 2015. Foi um evento sensacional que durou 6 meses, e funciona como uma feira mundial, uma grande exposição pública com mais de cem países participantes. O tema de 2015, foi feeding the planet, energy for life (em tradução livre, "alimentar o planeta, energia para a vida").

Crianças se divertindo com os jogos

Cada país teve seu pavilhão para difundir ideias e debates sobre como promover um futuro sustentável. O Brasil, riquíssimo em sua cultura, fauna e flora, será o maior exportador de alimentos do mundo na próxima década, e teve uma participação incrível. Dentre todas as diversas obras e vídeos do pavilhão, a equipe da Manifesto Games preparou 5 jogos (disponíveis em português, inglês e italiano) que abordavam os seguintes temas:

  • Agricultura familiar
  • Agricultura empresarial
  • Sustentabilidade
  • Segurança Alimentar
  • Mapa da Produção Brasileira

Correu tudo bem com a produção, mas era necessário ir ao pavilhão para entender melhor como a mesa interativa funcionaria e realizar quaisquer ajustes necessários. Dio mio! Ma che devo fare ora?

Com pouco mais de 2 meses me dei o desafio de aprender italiano o mais rápido possível, tipo um crash course (não, não, um curso rápido…). A ideia do texto é compartilhar o caminho que trilhei e que ainda sigo nessa prazerosa atividade que é aprender um novo idioma.


Duolingo

Um dos gigantes da atualidade, o Duolingo foi o salvador da pátria (italiana) — apenas ele foi o suficiente para sobreviver. A sua proposta é um pouco diferente do que você lê e escuta por aí: a ideia é aprender da maneira mais simples possível, mas através de exemplos, repetições e frases que façam sentido.

Aprender que maçã é mela e que garoto é ragazzo, não é o suficiente. Bom mesmo é aprender que il ragazzo mangia la mela (o menino come a maçã). Parece muito simples, mas quando você treina frases completas todos os dias, lendo, escrevendo, ouvindo e até mesmo falando (o app reconhece), em pouquíssimo tempo as coisas soam bem mais naturais. Em 60 dias de práticas diárias (de no máximo 20 minutos), foi possível sair da estaca zero até o necessário para saber qual ônibus vai para o centro, que metrô usar para ir ao local de trabalho, quanto custa essa pizza (muito importante!), e por aí vai.

Speaky

Uma ideia não muito inovadora, mas com uma execução espetacular. A proposta do Speaky é a de juntar aprendizes de idiomas diferentes, mas com um detalhe importante: todos os usuários devem informar qual é o seu idioma nativo (ou quais idiomas você é fluente). Com isso, o programa junta, por exemplo, alguém que saiba falar Português e queira aprender Italiano com alguém que saiba falar Italiano e queira falar Português. E pronto! O Speaky é basicamente uma rede social com um chat.

Falar com um estranho e quebrar o gelo usando um idioma é uma prática incrível. É nesse ato que você sai da teoria e dos livros pra colocar a cabeça pra funcionar e ter uma conversação. É a partir desse momento que as coisas ficam interessantes. Você acha que não consegue escrever ou falar, sente como se voltasse a ter 5 anos de idade em que mal sabia falar… mas é isso mesmo! Estamos aprendendo tudo de novo, levamos minutos para escrever uma boa frase, passamos um bom tempo tentando nos lembrar de como se escreve "toalha", como se pronuncia "amicizia", e nessa volta à época de criança que temos o maior aprendizado.

No geral, sempre combinei com os amigos do Speaky de falar um dia em italiano e outro em inglês ou português — em geral, todos concordavam com isso, e todos saíam aprendendo.

Rádios

Assim como o Speaky, um desafio muito grande e de grande aprendizado! Pela internet, temos acesso a centenas de milhares de rádios online, do Brasil ao Japão. E não é diferente com a Itália — há rádios de todos os tipos, e as minhas favoritas são as de notícias. É muito difícil de entender, tanto por ser um idioma novo para mim, quanto pelos italianos falarem rápido, mas dia após dia, palavra após palavra, o aprendizado vem como por osmose.

Livros

Coloquei como quarto item, mas na verdade tive a primeira experiência em ler um livro italiano lá em Milão. Livros são uma ótima forma de praticar um idioma novo porque tudo tem contexto, obviamente. Você precisa ler histórias completas, entender os personagens, descobrir o que significam os novos verbos, adjetivos e substantivos, enfim… tem que colocar a cabeça pra pensar e ter paciência de buscar novos significados no dicionário e no google tradutor. A dica fica em começar com livros voltados para o público infantil ou adolescente (e manter a seriedade enquanto os lê na rua, ônibus ou avião). Comecei com o Diário de um Banana, e serviu como uma aula completa de todo o básico da língua italiana em 2 horas! Compartilhei essa experiência no fórum do Duolingo, e uma usuária falou que as crianças dela adoravam.

Diario di una Schiappa

Neste ano, parti para a série Star Wars. É um salto muito grande (comecei lendo 2 páginas em meia hora), mas está rendendo bons frutos!

La Minaccia Fantasma

E aí, como foi?

No final das contas, deu tudo certo! Quando viajei e estive por lá, tive a felicidade de conseguir entender as coisas mais importantes e ainda fazer perguntas simples aos habitantes. Sim, saber inglês abre portas para todos os cantos do mundo e não é difícil encontrar um falante para ajudar com alguma coisa, mas aprender o idioma nativo foi uma experiência que me ensinou bastante sobre a cultura italiana e um desafio que nunca vou esquecer. Tanto que, desde que comecei a estudar no Duolingo, não parei um só dia.

Outra mensagem que eu queria passar: valorize o esforço de quem fala um idioma diferente de seu país natal! Não importa o sotaque e o nível de fluência em se escrever ou falar inglês, italiano, ou qualquer outra língua — o fato de você conseguir se comunicar é um grande feito! Vejo muitos casos de pessoas que tiveram toda a estrutura para aprender inglês desde pequeno, e essas mesmas pessoas tiram sarro de quem não tem o mesmo domínio que elas. Para esses casos, é necessário exercitar a empatia e incentivar ainda mais o aprendizado!

E aí, como será?

Faz mais de um ano em que fiz essa viagem, mas continuo estudando até hoje. Confesso que parei de usar o Speaky, mas continuo praticando no Duolingo todos os dias e lendo jornais e livros. Nesse processo, me apaixonei pelo idioma e pela cultura italiana, e continuarei investindo nesse aprendizado por muitos anos!

E você, não sabe falar italiano? Francês, espanhol, inglês? Quer aprender? Tá esperando o quê? :)