A Criação em 7 Atos

Poeta de Gaveta nº22

I

Um dia estava o pai,
a mãe, irmã,
também uma cadelinha,
todos à beira da piscina
e eu, em silêncio,
vendo tudo, pequeno.

II

Outro dia,
eram dois com o pai,
cinco com a mãe,
com a irmã, a cadelinha,
o mundo dividido ao meio
ou quase ao meio,
e eu, em silêncio,
vendo, vivendo, lá e cá.

III

O pai foi para longe,
eram sete dias de mãe,
de irmã, sem a cadelinha
que não aguentou as separações,
da casa cada vez mais vazia
em que eu, em silêncio,
via, ouvia, pensava:
qual o próximo?

IV

Voltou para perto, o pai:
para dentro de mim e,
em mim, descansou o meu velho,
calado pela imortalidade,
calou meu silêncio sem chorar,
silêncio agora distante:
fui eu, o próximo, deixando
a mãe, a irmã
com o novo cãozinho em casa;
de longe, pensava:
falta.

V

A irmã trouxe boas novas:
virou mãe, também,
agora sua filha,
a menina dos meus olhos,
acalma;
mudou a ordem de tudo:
vó, mãe, tio, menina –
e o cãozinho,
e eu, bem longe, pensava:
que graça.

VI

Tornei a casa da mãe — avó –
cheia de gente, memórias,
vazia de Tempo;
beijei sua testa,
aninhei sua neta,
sorri para minha irmã
abracei meu cão e, satisfeito,
mais uma vez parti.

VII

Estou longe, de novo,
em silêncio — sempre — vendo;
lembrando do pai, da mãe, da irmã
e da cadelinha,
todos à beira da piscina,
Tempo que só não passa aqui,
no meu peito
que hoje, descansa.
Lá, a menina vê o pai
a mãe e o cãozinho,
todos à beira da piscina;
calo meu canto,
descanso,
enquanto ela, pequena,
admira com encanto
o Ato Primeiro.

I.