BARULHO LÁ FORA, SILÊNCIO AQUI DENTRO

24–8–17, sp


Hoje não tenho muitas palavras à disposição. Elas estão aqui, mas não querem sair, e eu não tenho energia suficiente para arrancá-las à força. Por isso é preciso aceitar esses dias com paciência e compreensão e abraçá-los como reorganização. Eles fazem parte do processo. Mas não se pode colocar sobre eles a culpa por todo o silêncio e nem usá-los como desculpa quando as palavras estiverem disponíveis, mas utilizá-las for muito doloroso.

Quando as palavras não vêm, é preciso atraí-las:

Ouvindo, olhando, sentindo o cheiro do asfalto molhado e do mijo lavado e do perfume e do suor. Vendo os carros e os homens e as mulheres. Lendo os livros. Escutando as vozes e os motores e o vento e as músicas. Sentindo o sabor doce do líquido quente do café-com-leite na boca, descendo pela garganta. A fumaça do cigarro dentro dos pulmões. Estar atento a tudo. A vida no metrô, nos ônibus, nas calçadas. A vida real. E fazer dela seu instrumento. Fazer dela a casa das suas palavras. Para que elas se sintam à vontade mesmo em meio ao caos e a loucura e a sujeira, como se estivessem diante da beleza, e te concedam mais uma dança.

Hoje elas não vieram. Comerei apressado as seis e irei para o Butantã e depois de, com sorte, aprender algo sobre as palavras de outras pessoas, entrarei no ônibus em meio a noite fria e levarei quarenta minutos para chegar em casa e cairei sobre a minha cama e fecharei os meus olhos.

Se elas não vierem amanhã, então eu terei que buscá-las.

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