Postal da Escola Preparatória de Cadetes do Ar

DE: BARBACENA

A gente gosta de chegar, mas a viagem é bonita.

Eu te digo que gostava é de voltar. Sexta numa semana cheia, quinta ou quarta pela sorte de dia santo. Pois sim, concordo, feriado tem é demais. Não reclamo, não. Pegava quinta, sexta, sábado-e-domingo, tudo num só. Bonito de ver. Mas então, bom era voltar. Prá casa. É verdade, ficava mais de tempo em Barbacena do que lá, mas ainda assim era voltar, por modo que a gente volta prá onde a gente sente falta, como um norte de dentro, daí dizer, como digo, que voltava para casa, quando casa mesmo, no papel passado, era Minas Gerais. Minas Gerais prá São Paulo, pela Fernão Dias, ah, isso que era bom. Dutra também dava, chegava, mas com ânsia, muita curva, tirava da beleza por conta de vômito que alguém sempre deixava no caminho. Fernão era a estrela, quase que me sentia amigo, agradecido pela estrada, querendo bater em suas costas e dizer: oh, meu irmão! Rindo.

Por vezes era ônibus, carro bom, grande, esticava as pernas e alongava as costas toda. Difícil era van, pequena e apertada. Deus me fez comprido nas pernas, você vê, Deus não pensou nas vans. Não me caibo, ia torto, com dor. Só que voltar era bom, daí que nem reclamava. Ah, um pouco no caminho, por conta da dor, mas pouquinho, mesmo. Lá sentava, depois das seis, logo ia sair. Telefonava prá mãe e dizia: vou indo. Ela respondia: vem com Deus. Bonito, você não acha? Parece poema. E indo, eu ia.

Nessa de ir, indo, eu te digo que ali eu era feliz. Estrada longa, haja lonjura, distância que não era pouca, não. Quilômetros? Ih, sei não, dava muitos, muitos vários. Em horas eu sei: dava oito. Tempo normal, se era motorista mais calminho, conversador, oito e trinta. Apressado chegava em sete e meia. Queria a gente é chegar logo, os meninos pediam: toca, motor! Toca corrido! Só que era estrada, ela que mandava na gente, Fernão Dias, parece capitão, ou coronel. Melhor inteiro em oito do que dividido em seis. Amém.

Tomava, por vezes, um remedim. Sim, é esse, Dramim, sim. Dormia feito pedra, acordava tonto em São Paulo. Pedra dorme? Pois é. Era rápido, piscava e o Uai já ficou lá atrás. De modo que nada daria prá contar pra você, mas tem, porque nem sempre dormia. Era bom, de um jeito bom diferente. Queria por que queria chegar, chegando queria mais uns minutinhos na estrada. Lá longe, olhava o relógio, chega logo, cacete, faltava hora demais ainda. Agora, indo prá Barbacena, ih: o oposto. Não chega, cacete. Chegava, mesmo assim. Tem prece que é inútil, a gente só faz de bobo. Enfim.

Mas te contava da volta. Saindo de Barbacena, passava por Lavras. Parava, uma só vez, gente com saudade só quer seguir. Posto caro, a gente parava. É, esse, conhece, né? Posto caro, tem em toda estrada. Era bom prá se aliviar, jogar água na cara, tomar uma coca gelada e um salgado superfaturado. Comer muito não era bom, a comida haveria de sair, depois, por onde? Pois é, no ônibus ainda vá lá. Mas e na van? Pois é, pois é. Daí que comia pouco, tomava um cafézim pela regra, voltava pro carro. Agora só parava na chegada, sim!

Seguia a gente pela estrada, tudo escuro. Caminhão pelo caminho, carro, gente indo e voltando. Que a estrada tem a história. A dela, e a de todo mundo, é quase uma só. A gente há de ir e há de vir, quanta gente não tá num carro pela noite louco prá chegar, louco de saudade ou doente de amor? Tanta gente praguejando de sono e raiva por ter que ir embora. Tanto caminhão carregando homem acostumado a viver assim, de longe, no movimento. Ah, que a estrada é também uma casa. É uma ponte. Deus não pensou nas vans, mas fez as estradas pessoalmente. Seguia a gente tudo também, dormindo, conversando, ouvindo música ou olhando pro relógio sem entender que diabos tava o tempo fazendo prá demorar tanto a passar. Passava!
Passava a gente, por Lavras, por Três Corações. Perto de Lambari. Terra de Edson, Pelé. Ah, Fernão! Homem bom que é você. Venha cá que te dou um abraço. Não, não, você não, digo, dou também, falava com Fernão. Ou a Fernão? Mulher seria? Deve de ser, nunca tinha pensado nisso, sentido faz. Talvez daí carregar tanta história e tanta paixão. A Fernão. Venha cá, minha irmã. É, coisa de louco, mesmo.

Passava Atibaia e aí já tinha ido é sete horas. Tava chegando, na porta. Guarulhos. A gente tá indo prá casa. Passava Guarulhos, entrava em São Paulo. Só mais um poquinho de nada e tava lá, na frente da Rodoviária. Tava lá um monte de carro, um monte de rosto com cara de sono, chegava depois da madrugada entrar. Mas tava é feliz, também, cada rosto. É feliz de saudade matada, morrida, único homicídio sem vítima.

Antes de descer do ônibus, vinha a voz do fundo: domingo, dez e meia, sem atraso, ou a gente vai deixar! Tá certo.

Descia, tava a mãe. Boa noite, como foi de viagem? Ah, eu só dizia: foi boa, foi boa. Imagina só contar tudo isso que te conto naquelas horas? Precisava, não. Tinha chegado. Tinha voltado. Ah, que bom mesmo, era a volta.
No domingo, as dez e meia, a gente até queria atrasar e ser deixado por lá, mesmo. Não podia. Entrava no carro, acenava para a mãe, para a moça de sorriso bonito com lágrimas molhando o rosto, para o pai, o irmão, acenava tchau. Era até logo. Que a gente havia de voltar. Ah, a gente havia. Ia triste, que na cabeça só pensava uma coisa única: que bom, mesmo, era voltar de Barbacena.