O dedo corria pelo papel da revista, seguindo as palavras antes que elas pudessem escapar, e a boca pronunciava em silêncio o que estava escrito. A mão era cheia de pintinhas marrons e manchas, e a pele era fina, com aspecto plástico, parecida com o papel da revista, e no pulso ossudo um relógio prata pendia com o peso de suas horas.

Sentou-se no assento preferencial e colocou a mochila entre as pernas, a revista no colo, e na sua cabeça estava um chapéu cor de palha com uma fita preta ao seu redor, e seu nariz vermelho segurava os óculos de armação dourada e redonda. O cabelo curto que aparecia do chapéu era todo branco, recém cortado, e nas suas orelhas de lóbulos grandes e frouxos pendiam os fones brancos.

Abriu a revista para continuar lendo a matéria e procurou com a ponta do dedo onde parou. Encontrou. Era uma revista em inglês, na página seguinte havia uma propaganda de um livro: was not his day to die. A matéria estava toda marcada com caneta. Ele voltou a ler, a boca pronunciando as palavras, o dedo as perseguindo. Tirou do bolso a caneta azul e marcou uma frase, a linha torta e trêmula ao movimento da idade e do metrô, subindo e descendo. Continuou lendo, os olhos atentos, esbranquiçados, o dedo tremendo, a boca falando mais alto as palavras lidas.

Uma moça entrou e parou a sua frente, segurando a barra de metal. Olhou para a revista, para ele, depois voltou a encarar a porta, desinteressada.

Pegou o celular do bolso e pesquisou uma palavra no dicionário do iPhone com capinha azul: deferred: diferido; to defer: diferir, protelar, aceder, atrasar, postergar. Anotou ao lado da palavra, na margem: atrasado?, com uma caligrafia quase infantil, e guardou o celular.

O metrô seguia veloz pelos trilhos, mas não tão veloz quanto os dedos, os olhos, os lábios, a música desconhecida que tocava nos fones. Velozes, dependendo do observador.