NÓS ATRAVESSAMOS A PONTE VERDE

Conto ilustrado por Marina Marques De Nadai

A idéia.

Tudo começou por causa do Julio. Eu devia ter 10 anos e ele, 11. Éramos muito amigos e passávamos todos os finais de semana juntos, porque a mãe dele era vizinha do meu pai e sexta-feira eu ia para lá. Eventualmente ela deixou de ser vizinha para passar a morar com o meu pai, mas isso foi depois, bem depois, quando meu pai finalmente percebeu as intenções. De sexta a domingo, o Julio e eu ficávamos juntos, fazendo seja lá o que nós fôssemos capazes de inventar. Eu gostava de criar cenários e interpretar grandes figuras, como um policial herói, um piloto de corridas ou um lutador daqueles que passavam nos programas da madrugada, em lutas encenadas.

Ele aceitava minhas ideias e passávamos horas naquilo. Às vezes saíamos e encontrávamos os outros meninos. Eram amigos do Júlio, o que me causava uma espécie de inveja, ciúmes e ansiedade. Todos esses amigos eram dois ou três anos mais velhos que nós e falavam diferente, andavam diferente, usavam roupas diferentes. Nesse dia, encontramos três. Paulo, o mais velho, que fumava e usava um brinco esquisito; Elias, irmão mais novo do Paulo, mas que tomava as decisões; e o Jeferson, primo dos dois, mais baixo que eu e que o Julio, sem um dos dentes da frente e muito, muito magrinho, com um senso de grandeza bastante curioso sobre si.

Tínhamos acabado de sair da casa do meu pai quando encontramos os três. Eles começaram a falar sobre um rio para onde eles estavam indo. O Julio disse que conhecia o rio e que ninguém ia até lá, porque era perigoso e um menino havia caído da ponte, sem que ninguém nunca mais encontrasse. Eu prestava atenção, com medo, enquanto eles riam. Paulo pitava o cigarro. Elias disse: a gente vai lá. Tudo que eu queria era que o Julio dissesse não. Eu queria muito que ele simplesmente falasse que não iria, porque se ele falasse que ia, eu iria também. E foi o que ele disse: então a gente vai também, então. Ninguém me perguntou nada e eu também não disse coisa alguma. Ficou combinado que depois do almoço nos encontraríamos na rua de baixo e iríamos para lá.

Almoçamos juntos na casa do meu pai, que não fez o almoço, mas pagou o suficiente para que fosse uma boa refeição. Papai era um homem grande, desatento, generoso e cansado. Eu ia para lá nos finais de semana para ficarmos juntos, mas a verdade é que quase não passávamos muito tempo só nós dois. Ele não achava ruim, me dava um beijo quando me via, fazia algumas brincadeiras, comprava comida e deixava que eu brincasse o quanto quisesse. Era o paraíso. Durante o almoço eu estava quieto e ele quis saber o que era. Disse que não era nada, mas era medo. Julio riu. Meu pai era desatento, mas não era burro. Sabia que faríamos algo que não deveríamos fazer. Insistiu. Eu disse que não era nada, de novo, e o Julio parou de rir. De repente, sem que esperássemos, papai falou: vocês que não me inventem de ir naquele rio aqui perto. Não fazia ideia de como ele tinha descoberto, o que tinha um bom motivo, já que ele não havia descoberto. Continuou: o seu Jaime ali do mercadinho me falou que a molecada está toda indo para lá esses dias, porque inventaram que um imbecil caiu da ponte e sumiu, e ninguém nunca mais achou. Falam que quem vai lá pode ver o menino vagando pela ponte. Pronto, era tudo o que eu precisava. Um rio perigoso, uma ponte e uma alma. Eu estava aterrorizado e papai, no alto da sua atenção, não percebeu quando eu perdi toda a cor do meu rosto e fiquei praticamente transparente. Julio não deu um pio. Por fim, ele reforçou: não quero saber de você se enfiando nesses lugares. Respondi um “tá bom” meio molenga, ainda com muito medo para formular uma frase mais elaborada. Pensando bem, talvez meu pai tivesse um sorriso sacana na cara, como quem está aprontando uma para cima do filho.

Terminamos de comer e logo papai foi para o quarto dormir um pouco, enquanto Julio e eu não trocávamos nenhuma palavra. Olhei pela janela da sala e vi os três meninos passando e indo para a rua de baixo. Julio me olhou e eu falei que eles já estavam indo. “Então vamos, então”, e com um erro gramatical ele estabeleceu que nós seguiríamos com a ideia de irmos ao rio. Levantei e fui atrás deles para a rua.


O caminho.

Dos quatro, o que mais falava era o Elias. Não calava a boca um minuto. Paulo estava sempre em silêncio, pitando o seu cigarro, andando meio desconfiado, como se soubesse de algo que ninguém mais sabia. Jeferson cortava o Elias no meio das histórias que ele contava, para contar vantagem: qualquer coisa dita, ele tinha feito melhor, ou conhecia alguém que fez melhor. Naquele momento ele estava dizendo que tinha brigado com quatro meninos mais velhos da escola, ao mesmo tempo. Eu duvidei, porque ele era mirradinho e com certeza levaria uma surra de qualquer pessoa com a mínima coordenação motora, mas ele falava com tanta certeza e convicção que eu fiquei com medo de discordar. Já o Julio, bem, o Julio parecia estar sempre a vontade, em qualquer lugar. Ele ouvia as histórias, opinava, ria, concordava, como se conhecesse e entendesse de tudo. Talvez ele conhecesse e entendesse, mesmo. Eu só ficava quieto, ouvindo admirado com como eles pareciam tão seguros de si. Julio era meu melhor amigo, então a admiração era antiga. Agora, dos outros, o Paulo é que me chamava a atenção. Ele raramente abria a boca, mas estava sempre lá, consciente de tudo, com o seu cigarro e o seu olhar de interrogação.

Estávamos caminhando, com o passo acelerado pela excitação, medo e ansiosidade de fazer algo proibído e periogoso. Foi Elias quem contou: o moleque escorregou na ponte que passava pelo rio e ficou pendurado, e ele foi até lá com um amigo, mas esse amigo não teve coragem de andar pela ponte para ajudar o moleque. Ele ficou pendurado, implorando por ajuda, gritando, tentando subir de volta. Ele gritou tanto que perdeu a voz e começou a chorar. O amigo virou as costas e saiu correndo, ouvindo pela última vez o choro que vinha da ponte, antes da mão se soltar e o corpo cair num baque único lá embaixo, em cima das pedras e das águas.

- Eu passo nessa ponte sem medo!, disse Jeferson.

Nós quatro viramos os olhares para ele, que continuou:

- Eu passo, e se eu fosse com esse moleque, eu iria até lá e jogaria ele da ponte, só para ver como seria ele caindo.

No seu rosto havia um sorriso esquisito e desdentado e uma autoconfiança genunuína, que não combinava com o seu corpo. Julio deu risada e tirou sarro do Jeferson, dizendo que ele não iria coisa nenhuma, que ia ser o primeiro a voltar correndo, deixando o corajoso menino bastante irritado e esbravejando palavrões. Terminando sua história, Elias disse:

- Falaram que a polícia foi lá, mas não achou o corpo. Ninguém achou. Mas o menino aparece na ponte todos os dias, e todo mundo consegue ouvir o seu choro lá por perto, e dizem que o amigo dele nunca mais conseguiu dormir, porque é só ele fechar os olhos que ele ouve o choro e os grito e o som do corpo caindo nas pedras, por isso ele ficou louco.

Ficamos nos entreolhando, até que o Paulo segurou o cigarro com a mão direita e falou, bem tranquilo:

- E quem é esse amigo, Elias? Você conhece?

O irmão dele respondeu que não, que ninguém conhecia. Que ele tinha sumido.

- Sim, Elias, ninguém conhece. Porque tudo isso é uma puta idiotice. Ningúém caiu de ponte porra nenhuma e ninguém ouve choro nenhum. Paulo falava como se ensinasse um grupo de crianças coisas óbvias, como dois mais dois, ou a cor do céu, ou o barulho que os animais fazem.

Jeferson ia começar com suas invenções, mas Elias cortou e quis saber por que o irmão estava lá, se não acreditava nas histórias.

- Por que, Elias, eu sou seu irmão mais velho e se você acabar se matando por causa disso sou eu que vou levar a culpa. Então prefiro ir até lá do que deixar você se matar sozinho. Pelo menos eu ainda vou poder rir.

O mais novo xingou o mais velho, que só deu risada, e ele riu também. Jeferson começou a falar sobre como ele tinha ido à praia uma vez e como o mar estava revolto e como as ondas eram grandes e como todo mundo se afogou, menos ele. Julio não se importava. E eu estava com o coração mais tranquilo, pois se Paulo tinha dito que era mentira, deveria ser mentira, já que ele era o mais velho e quem é mais velho as vezes sabe das coisas. Quando a gente quer acreditar, qualquer coisa é verdade, mas o medo não nos deixa não pensar na possibilidade: e se?

Com toda essa conversa nós já tínhamos descido treze ruas e atravessávamos o pasto, cujo fim dava para um matagal, e dentro do matagal estava o tal rio.

A ponte verde.

Paulo foi na frente dentro do matagal, abrindo espaço para o resto de nós. Jeferson ficou no meio, porque era o menor, assim não tinha chance de se perder. Eu tinha ficado por último e isso estava me aterrorizando, e, mesmo sem eu dizer nada, Julio disse que ficaria no meu lugar. Não agradeci, mas fiquei imensamente grato.

Não tinha nada demais entre as folhas, só insetos e grama e bichos e galhos e cheiro de mato pisado. Encontramos uma trilha pelo chão que seguiu por alguns metros, um caminho. Esse caminho terminava num chão de terra batido por muitos pés que passaram por ali, acabando com toda a grama. Era uma das pontas da ponte.

Naquele momento, a ponte me parecia enorme. Uns vinte, trinta metros. Tentando lembrar, hoje, não sei dizer. Ainda me parece. Mas não deveria ter, no máximo cinco metros de comprimento. Também me parecia muito, muito alta. O suficiente para cair para sempre. Agora, tenho certeza que não: a altura não passava de três metros. Lá embaixo não tinha um rio, era só um amontoado de pedras cheias de plantas por cima, com um ou dois filetes de água. Isso não tornava as coisas melhores: cair da ponte era morte certa. Ela era feita de concreto, bem grossa e larga o suficiente para duas pessoas passarem lado a lado, mas com cuidado. Tinha várias rachaduras e trincas, toda tomada pelo musgo verde. Parecia pintada, só que por um pintor ruim, cheia de falhas e com uma mão só de tinta verde de baixa qualidade.

Parado uns dois passos antes da ponte, Paulo disse: e então? Elias ficou em silêncio. Julio chegou mais perto para olhar, mas não mais perto que Paulo. O mais velho de nós perguntou para Jeferson se ele não queria passar primeiro, já que tinha tanta coragem. O magricela gaguejou uma desculpa, que não, que não sabia se a ponte aguentaria o seu peso, o que era ridículo para alguém que não passava dos quarenta e cinco quilos.

Acendendo um novo cigarro, Paulo revirou os olhos. Tudo nele estava calmo, como se não estivéssemos diante de um monstro esverdeado, gigantesco e mortal. Eu até hoje não sei o motivo, mas quando Julio começou a falar, eu sabia que ele diria que ia atravessar, e então eu, num ato de gratidão e respeito — eu acho -, falei antes:

- Eu vou passar.

Todos me olharam. Eu não tinha aberto a boca até aquele momento. Eles tinham nos olhos uma espécie de espanto e incredulidade, menos Paulo, que parecia orgulhoso e divertido. Ele me dizia, sem falar nada: boa, garoto, você realmente tem algum colhão. Fiquei envaidecido, por pouco tempo. Logo a vaidade deu lugar ao medo e eu me senti a criança mais estúpida de todo o bairro ou cidade ou estado ou país ou planeta ou universo, mesmo sem saber, naquele momento, do que realmente se trata o universo. Era óbvio que eu ia morrer.

Ali não havia mais recuo. O Elias disse que iríamos um atrás do outro, quando o primeiro chegasse no meio, o segundo saíria, e assim por diante. Para não fazer peso demais, justificou. Fiquei a um palmo da ponte. Coloquei o pé esquerdo, sem saber que era o do azar. Depois o pé direito. Tudo bem até ali. Pé esquerdo, pé direito. Andar é algo bem simples depois que você aprende lá pelos doze meses de vida, mas naquele momento me parecia uma tarefa muito complexa e eu a executava com tamanha dificuldade. Pé esquerdo, pé direito. Eu devia ter dado uns sete passos, andado quase dois metros, quando aconteceu.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Foi um grito muito alto. Meu coração disparou e minhas pernas tremeram. Eu virei para trás e me desequilibrei, caindo de bunda no concreto. Meu corpo pendeu para o lado e eu me agarrei na ponte, deixando minhas pernas no vazio, enquanto meu tronco estava parcialmente em cima do musgo verde. Meus braços estavam arranhados e meu peito ardia.

Olhei para eles. Jeferson dava risada. Muita risada. Ele tinha gritado. Assim que ouvi, imediatamente pensei no menino da história. O susto me fez virar, perder o equilíbrio e quase cair da ponte. Eu estava ali, pendurado, enquanto o Jeferson ria. Paulo soltou um CARALHO, assustado. Elias estava com os olhos vidrados, sem dizer uma palavra. Por uns dois ou três segundos, um silêncio estarrecedor. Eu pendurado, eles olhando, o Jeferson já tinha parado de rir.

Então o Julio começou a correr em cima da ponte e o Paulo veio atrás dele. Eles me puxaram pela camiseta para cima da ponte, me deixando totalmente apoiado e seguro. A ponte não tremeu nem ruiu. Ela era bem resistente, no fim das contas. Perguntaram se eu estava bem. Não respondi, não conseguia. Sentia o choro subindo e fiz o meu máximo para engolir. Ouvimos o Elias gritar seu filho da puta, e viramos para olhar. Ele já estava em cima do Jeferson, que estava caído com as costas na terra, tendo o rosto esmurrado. O valentão não conseguiu dizer nem fazer nada. Foi o Paulo quem separou os dois, enquanto eu e o Julio ainda estávamos na ponte. Chega, chega, garotas, disse Paulo, puxando Elias de cima do Jeferson, que limpava o rosto e se levantava, fingindo que não tinha levado uma surra na frente de todo mundo, mantendo na cara um sorrisinho falso e forçado, com um dente que faltaria mesmo se ele o tivesse antes de ser socado.

O rio.

Depois que o Paulo apartou a briga, que é um jeito de chamar o que aconteceu, mas não o jeito certo, pois foi uma surra, já que uma briga requer que os dois batam, e o Jeferson só apanhou, nós cinco terminamos de atravessar a ponte. Ninguém deu um pio na travessia.

Caminhamos mais uns minutos até chegarmos no nosso destino. Era um barranco. Lá embaixo supostamente estava o rio. Quando olhamos para baixo, o silêncio não era de medo, era de decepção compartilhada. Tudo que havia era um cano grosso e cinza e rachado vazando água, e essa água corria entre os barrancos por uns pedregulhos. Não dava um metro de largura. Não dava trinta centímetros de profundidade. Não era um rio. Era um vazamento. Aquilo não era nada demais, era só um caso de incompetência dos responsáveis pelo encanamento da cidade. Nós não sabíamos disso, óbvio, mas ficamos bastante desapontados com o que estávamos vendo.

O clima foi quebrado com uma gargalhada. Com as mãos na barriga, o Paulo se contorcia de rir. Ele estava rindo daquele suposto rio, rindo de todas as histórias sobre o garoto afogado, de todo o mistério envolvido em um filete de água que corria entre barro e pedra. Nós começamos a rir também.

Se o meu pai soubesse do que se tratava o tal rio, ele ficaria muito bravo, porque além de eu corrido risco de morrer, ainda tinha corrido risco de morrer por algo totalmente estúpido. Ou talvez ele soubesse de tudo, afinal.

Decidimos, por fim, voltar. O Jeferson com a cara toda vermelha, o Paulo satisfeito com seu cigarro, eu ainda meio trêmulo, o Elias desapontado por ter acreditado nas histórias e o Julio contente por ter ido até lá, de qualquer forma.

Em casa.

Atravessamos a ponte no sentido de volta, dessa vez o Jeferson na frente, com medo de alguém fazer a mesma coisa que ele fez, o que não aconteceu. Foi mais tranquilo, mas eu não olhei para baixo em nenhum momento e respirei aliviado quando chegamos do outro lado. Passamos pelos matos, pelo pasto, e subimos as treze ruas.

Eu fui seguindo ao lado do Paulo, que me perguntou no caminho:

- Você tá bem, garoto?

Acenei com a cabeça e com um ahãm. Ele sorriu sem mostrar os dentes. Pitou o cigarro e continuou:

- O que aconteceu lá, não fica bravo, não. Foi só uma brincadeira idiota.

Automaticamente eu disse que não estava bravo, e eu não estava, mesmo. Estava um pouco amedrontado, mas não bravo. Nós chegamos na rua dos três e eles se despediram. O Jeferson não falou nada para mim. Com um até mais, garoto, o Paulo deu um tapa no meu ombro e eu me senti bem. Bem, porque ele entendia alguma coisa que nós não entendíamos, e ele me entendia e me respeitava, porque eu quase caí da ponte, mas não chorei e não fiquei bravo, se é que isso conta para algo.

Em frente de casa, me despedi do Julio. Ele foi o primeiro a correr quando eu escorreguei. Não falamos nada sobre isso, não comentamos, e ele sabia o mesmo que eu: que eu estava grato, que ele havia salvo a minha vida, e que ele jamais pediria qualquer coisa em troca, porque eu faria o mesmo. Ele foi para a sua casa.

Entrei pela porta e meu pai estava na sala, com um jornal no peito, deitado no sofá, dormindo. Acordou com o ranger da madeira. Olhou para mim, e eu estava imundo, com a camiseta toda suja de musgo e terra e um pouco de sangue dos arranhões. Deu um sorriso, um oi, filho, e fechou os olhos novamente. Não tinha percebido nada. Ali, fiquei bravo. Sobreviver é um feito em tanto.

Fim.