NA BOCA DO ESTÔMAGO

Acusado, julgado, sentenciado.

(um conto)

O garoto nunca gostou de ir em festas com a família. Passava alguns minutos e ele já queria ir embora, mas ninguém se importava com os seus apelos, então ele continuava lá, de cara emburrada, largado em uma cadeira, enquanto os adultos se divertiam e riam e não davam a menor bola para o seu sofrimento. Tinha pedido para ficar em casa dessa vez, mas não foi atendido. Teve que ir. O filho da Carminha estará lá, disse a mãe, como argumento para tranquilizá-lo. O filho da Carminha era dois anos mais velho que ele, e uma vez eles jogaram vídeo-game juntos e o rapaz tinha sido agradável, gentil. A festa poderia não ser tão ruim assim.

Chegaram lá e o garoto ficou encabulado de ter que cumprimentar todos os parentes e amigos dos pais. Eles faziam perguntas desagradáveis e faziam comentários maldosos sobre ele. Sobre suas espinhas, sobre o seu cabelo, sobre o seu jeito. Faziam esses comentários rindo, como se fosse tudo uma grande brincadeira, mas ele era o centro da piada e ele não achava a menor graça. Sentia vergonha e queria estar o mais longe possível dali. Sentou-se, triste e irritado.

Um pouco mais tarde chegou a Carminha, com seu filho, Luis. Luis cumprimentou a todos, dando risada, beijinhos e apertos de mão. Sabia o que estava fazendo. As mulheres o abraçavam e os homens davam tapinhas gentis em seu rosto. Passou pelo garoto sem dizer nada, nem ao menos um oi. A euforia que o garoto sentiu ao vê-los chegar se transformou em tristeza. A mãe e o filho se sentaram, e poucos depois o rapaz se levantou para ir cumprimentar dois amigos de sua idade. Não demorou muito para saírem do salão, os três juntos. O garoto sentia inveja, sentado à mesa junto com a família.

A mãe sabia que o filho não estava bem. Perguntou para ele por que não ia ficar com o Luis. O garoto não respondeu. Insistiu. Ele disse que não queria. A mãe, então, falou com Carminha, e a mulher disse que era claro que ele podia ir ficar com o Luis, que ele estava lá fora com os amigos. O garoto sentiu o rosto queimar de vergonha e sentiu raiva da mãe. Levantou-se sem dizer nada e foi até lá fora.

Luis estava sentado com os dois amigos, distantes da porta. Os três fumavam um mesmo cigarro, que passava de mão em mão. O garoto ao ver a cena ficou sem reação, olhando para os três. Ao perceber que ele estava lá, Luis se levantou e o chamou. O garoto ficou contente com o convite. Mas Luis o chamou para deixar uma coisa muito clara: você não vai falar nada para a sua mãe sobre isso, beleza? O garoto fez que sim com a cabeça. Luis não se contentou. Se você falar alguma coisa, eu vou te arrebentar, beleza? O garoto fez que sim, novamente, assustado. Os quatro ficaram em silêncio. O garoto não esperava aquilo. Logo os amigos voltaram a conversar e o garoto ficou ali, ao lado, olhando. Virou-se para ir embora quando Luis perguntou onde ele estava indo. No banheiro, respondeu. O rapaz reforçou o aviso: não é para falar nada, depois você volta aqui, não vai pra lá senão eles vão achar que eu te mandei vazar. Concordou com a cabeça e entrou no salão.

Não queria ir ao banheiro de verdade, mas foi. A ameaça fez efeito. Não queria voltar à mesa e ter que responder perguntas. Poderia dizer algo errado. Foi até o banheiro, olhou-se no espelho. Era novo, o rosto cheio de espinhas, o cabelo esquisito. Uma criança. Lavou a cara, secou com papel toalha, que se desfez na sua mão. Teria que voltar lá fora, mas não queria. Queria ir para casa. Queria ir para casa, para o seu quarto. Queria ir para casa, para o seu quarto, fechar a porta, chamar o cachorro para subir na cama, apagar a luz e ficar em silêncio, onde ninguém o notaria, ninguém o incomodaria, ninguém faria troça da sua aparência ou do seu jeito. Onde nenhum adulto faria piada com ele, como se fossem bons amigos, sabendo que aquilo o machucava, mas sem se importar, pois, afinal, ele era apenas um garoto. Não podia ir para casa. Saiu do banheiro, entristecido.

Chegou lá fora e os três estavam no mesmo lugar. Luis o encarou. Você foi lá falar pra sua mãe, né? Ele respondeu que não. Eu sei que você foi, disse Luis. Eu sei que você foi, porque você é um filhinho de mamãe chorão. O garoto insistia que não. O Bruninho viu você indo lá, disse, apontando com a cabeça para um dos amigos, um rapaz baixinho, com uns fios de barba no rosto ensebado e as unhas roídas nos dedos cheios de calos. Era desagradável olhar para aquele rapaz. O tal do Bruninho se levantou do banco e disse: é, eu vi você indo lá. Ele insistiu que não, não foi, só foi no banheiro. O segundo amigo não falava nada, só ria. Luis voltou a falar: se você não foi, então prova. O garoto não sabia como provar algo que não tinha feito. Era impossível. Ele não foi até lá, ele não disse nada, e não tinha como provar nada disso, porque ele não tinha feito. Então tá bom, disse o Luis. Eu sei que você foi, mas se você não foi, você vai ter que provar. O garoto apenas repetia que não tinha ido, sentindo os olhos aguarem. Você foi lá dedurar a gente, agora você vai ter que pagar por isso, Luis continuou. A gente deixa você ficar aqui, mas você vai ter que levar um soco de cada um de nós porque nos dedurou, sentenciou. O garoto estava entrando em desespero. Ele não tinha feito nada, ele não tinha dito nada, e ele iria apanhar sem poder fazer nada, porque ele era menor, mais novo, e não tinha a quem recorrer. Pediu desculpas, e esse foi o seu erro. Imediatamente Luis falou: viu!, eu sabia que você tinha falado, tá pedindo desculpas por que falou. O garoto queria chorar. Bruninho, por ordem de Luis, segurou os braços do garoto atrás do corpo, e o filho da Carminha disse que daria um soco no seu estômago para ele ficar esperto. Tomou distância. O garoto repetia que não tinha feito nada, nada, não tinha falado nada. Luis respondeu que ele deveria ser homem e aceitar aquilo sem chorar. O segundo amigo, que até agora estava em silêncio, se manifestou: qual é, Luis, deixa o moleque! O filho da Carminha deu risada. Porra, Matheus, tá com dó dele agora? Enquanto isso, o garoto sentia a garganta secar, com os braços dolorosamente presos atrás do corpo por Bruninho. O soco viria. Luis começou a se mover para frente. O garoto fechou os olhos. Era questão de tempo. Ele aceitaria o soco por algo que não fez. Já podia sentir antecipadamente a pressão que o punho fechado exerceria sobre seu estômago, e a dor era quase palpável. Não, não aceitaria esse soco. Em desespero, se debateu, e Bruninho, que não era forte, assustou-se e o soltou. Luis hesitou ao ver o garoto se livrar e diminuiu o passo. Assim que sentiu que estava livre, o garoto correu, sem olhar para trás, para dentro. Os três ficaram olhando, sem fazer nada. Por fim, Matheus disse: aí, imbecil, parabéns, agora o moleque vai falar essa merda pra sua mãe e a gente tá fodido. Os outros dois se entreolhavam, nervosos.


Lá dentro, o garoto se sentou, em silêncio. A mãe já havia bebido bastante, o pai estava entretido em uma conversa com os outros homens da mesa. Ficou de braços cruzados, encarando um copo vazio à sua frente. Quem veio falar com ele foi a Carminha. Queria saber se tinha encontrado o Luis. Sentiu vontade de dizer o que havia acontecido. Sentiu vontade de dizer que o filho dela era um cretino que iria agredi-lo sem motivo algum, e ainda estava fumando escondido, como o perfeito marginal cretino que ele era. Queria dizer que o filho dela era uma criatura maldosa e escrota que não merecia a atenção e carinho que recebia de todos. Sentiu vontade de chorar. Mas não disse nada. Apenas acenou que não com a cabeça, e a Carminha se deu por satisfeita. Por mais que quisesse, não era capaz de ser um filho da puta.

Não demorou muito até que o Luis voltasse para a mesa. Encarou o garoto sentado, com o rosto sério e braços cruzados. O garoto sustentou o olhar enquanto pôde, e quando não aguentava mais, viu o rapaz ceder primeiro, sentindo-se vitorioso pela primeira vez. Luis se sentou virado para o outro lado, e ele pôde notar o medo que o rapaz sentia enquanto a mãe se aproximava.

Ele não havia dito nada, mas naquele momento sentiu-se extremamente satisfeito consigo mesmo e experimentou pela primeira vez uma espécie de vitória.