Não há vagas.

Está um dia de calor. Um dia de calor não faz justiça. Um dia de calor infernal. Está um dia de inferno na terra. Não que eu não goste de calor — não era isso. Eu sempre adorei calor, mas eu sempre adorei o calor que eu sentia quando estava na Barra, sentado a beira mar, olhando as bundas nos biquínis. Bundas maravilhosas. Eu sempre adorei bundas maravilhosas. Hoje, não. Eu estou nesse camuflado infernal, com esse capacete infernal que parece martelar o topo do meu crânio com uma disposição que nenhum pedreiro no mundo teria. O fuzil parece pesar uns 100 quilos. O suor sempre desce da minha testa para a ponta do meu nariz, então eu assopro e vejo as gotículas voarem. É divertido. Mas continua um calor infernal, e isso não é divertido.

Faz três meses que fui enviado para cá, para Manaus. Desde que os portugueses filhos da puta resolveram agir como se tivessem colhões, tudo virou um caos. Eles invadiram nossa Amazônia, e agora cá estou eu procurando um deles para mostrar quem é que manda nisso aqui. Três meses. Ainda não encontramos nenhum deles. Nós não podemos sair sozinhos das áreas de segurança por, bem, questões de segurança. Só que eu não aguentava mais os mosquitos do acampamento e resolvi dar uma volta, passando furtivamente pela sentinela que, por um acaso, estava dormindo. Nada nunca acontece por aqui. Três meses e só vi uns mamíferos assustadores — os não-humanos, no caso -, e nada mais.

Ouvi um galho quebrando a uns 20 metros, seguido por vários passos. Puta que pariu. Será que é uma patrulha deles? Será que os portugueses finalmente resolveram se desacovardar? Mas bem na hora que eu estou sozinho? Que merda. Abaixei e continuei ouvindo. Os passos continuavam. Não pareciam os passos de uma patrulha. Tem uma coisa sobre patrulhas: elas devem ser silenciosas, furtivas, atentas. Mas nunca são. Geralmente contam com alguém assoviando, alguém contando piada, alguém viajando, alguém pensando em bundas. Eu era sempre o que estava pensando em bundas. Apesar de que os portugueses são tão fodidos que devem pensar em pau. Acho que no caso deles, alguém pensa em pau. Tanto faz. A questão é que patrulhas são barulhentas. Os passos pareciam fazer um esforço enorme para não serem ouvidos. Mas eram. Eles continuavam e não pareciam se afastar. Era um homem só. Seria um português sozinho? Ou seria alguém da minha unidade dando uma cagada fora de hora? Eu iria descobrir, de qualquer forma.

Levantei e corri na direção dos passos. Eles começaram a acelerar, também. Continuei me enfiando mata adentro, o que pode ser uma péssima ideia. Principalmente quando a mata é palco de uma guerra. Mas eu continuei me enfiando. E os passos também. Alguns segundos assim. Clack. Créque. Onomatopeias de galhos de quebrando. Um grito de dor de um homem. Eu continuei correndo. Correndo mais um pouco. E lá estava ele. Puta que pariu. Um português. Cá estamos nós. Eu, meu camuflado suado, o nariz pingando, o fuzil de 100 quilos, o capacete martelante; ali, no chão, o puto do português, com seu uniforme ridículo que parece feito por um alfaiate. Me tomou alguns segundo pensar no que fazer. Eu não esperava realmente encontrar o inimigo. Encontrei. Agora apontava meu fuzil para ele.

- Vou meter uma bala nessa sua bunda portuguesa e te mandar de volta pra casa num caixão — eu disse, me sentindo um herói. Eu estava mesmo decidido — após meus segundos de reflexão — a mandar o inimigo por encomenda expressa para o paraíso.

Ele estava lá, caído. As costas meio apoiadas numa árvore. Ouviu o que eu tinha a dizer. Eu queria que ele tivesse suplicado, demonstrado medo. É isso que os portugueses fazem. São uns medrosos do caralho. Mas ele não fez nada. Ficou me olhando.

- O que foi, seu merda? Não adianta ficar me olhando. Escolheu o país errado para enfiar essas suas botas imundas pela segunda vez — como é bom ser um herói.

Nada. Cuspiu no chão, então falou:

- Atire de uma vez, caralho! Gajo dos infernos. Não fará diferença nenhuma, vês? Não muda um puto.

Que merda. Eu não estava esperando isso. Ele deveria suplicar. Implorar. É isso que os portugueses fazem, não é? Por isso nós temos que acabar com esses filhos da puta.

- Não muda nada, garoto — ele obviamente tinha mais de 30 anos e eu tenho 19. — Tu e eu somos a mesma merda. Agora dê logo um tiro na minha cara e acabe com essa palhaçada.

Somos a mesma merda um caralho!

- Somos a mesma merda um caralho!-, eu disse. — Vocês invadiram meu país, querem roubar o que é do meu povo. Merecem mesmo morrer. Adeptos daquele ditador filho de uma puta. Vocês já vieram aqui e nos tiraram tudo, no começo. Querem fazer de novo. Foda-se, não sei por que estou tendo essa conversa. Vou mesmo enfiar uma bala nessa sua cara patética.

Ele sorriu. O filho da puta sorriu.

- Você acha mesmo que somos os grandes inimigos não é, garoto? Me digas, o que tu estas a fazer aqui? Por quê? Vamos lá. Conceda pelo menos essa cortesia a esse português filho de uma rapariga que já está morto de qualquer forma.

Filho da puta, mas tinha colhões.

Pensei. Por que eu estava lá?

- Pelo meu país. Pelo meu povo. Para proteger esse país de vocês, da sua raça imunda e covarde.

Estava lá no Cinema. Um dia antes de viajarmos para Manaus. Quem falava era o Coronel. O Coronel era um homem engraçado. Tinha ombros estreitos e olhos largos, ressaltados por um óculos minúsculo. O cabelo da frente da sua cabeça já tinha ido embora há muito tempo, mas os da parte de trás eram cheios e não davam sinais de fraqueza. Não media mais que um metro e sessenta e cinco. Seu uniforme era impecavelmente alinhado e cinturado, o que era bem cômico já que ele parecia um palito envelhecido. Só que o Coronel sabia falar. Então tudo isso era deixado de lado, porque o Coronel sabia muito bem como falar. Ele começou.

- Vocês, soldados, são a esperança de uma pátria que chora. Os protetores de um povo indefeso…

Nós estávamos indo para um lugar onde poderíamos levar um tiro a qualquer momento, assim, parecia uma boa ideia nos elogiar. Nós éramos mesmo a esperança. Os protetores. Porra, somos fodas para caralho.

- … o país precisa de vocês mais do que nunca. Os portugueses deram o passo final na sua maléfica estratégia de subjugar o Brasil aos seus domínios. Eles sonham desde que éramos colônia com esse dia. Não se pode confiar nos portugueses. Eles estão sob ordens de um Ditador e não hesitarão em fazer tudo que for possível para transformar nossa Pátria em seu novo quintal. São sujos. Matam e estupram inocentes. É com esse tipo de gente que estamos lidando. A escória. E para a escória, só há uma solução: o bem. Vocês, soldados, são o bem. Por isso, precisam ir até lá fazer o bem. Agora, os portugueses pisaram em nosso solo. Atravessaram a barreira geográfica. Nossas forças falharam em evita-los. Vocês não podem falhar. Não podemos mais falhar. A falha significará o fim dessa República como conhecemos. A falha significará o fim de suas famílias, de seus filhos, de seus pais, de suas mulheres e de seus maridos. Por isso, não tenham piedade. Se o coração de vocês vacilar, pensem naqueles que vocês amam. Tenham piedade por eles, não pelos portugueses.

Porra. O Coronel é foda. Nunca irá pisar no meio do campo de batalha, mas é foda. Está há três anos respondendo IPM, mas é foda. O Coronel é foda. Eu iria foder com aqueles portugueses.

- É por isso, seu merda. Por tudo isso que você vai levar um tiro nessa cara — completei.

Balançou a cabeça. Olhou para mim, abaixou os olhos e balançou a cabeça. Parecia triste. Aquela tristeza estava me abatendo. Mas por que caralhos eu estou me preocupando?, porra. Ele não falou nada.

Empunhei meu fuzil direito e coloquei o dedo no gatilho.

- Vocês não deveriam ter vindo para cá. É isso que vocês recebem. Vocês são imundos.

Continuava quieto. E eu não atirava. Ele ergueu os olhos e me encarou. Começou a falar:

- Ah, gajo. Sinto pena de ti. Sinceramente. Pensas mesmo que sou o grande inimigo, um demônio, um homem terrível. Diga, diga-me, gajo, tens família?

Sei lá eu por que, respondi.

- Tenho, porra. Uma noiva. E duas irmãs. Que porra você tem a ver com isso?

Sorriu, de novo.

- Uma noiva. Uma rapariga que tu amas. Adivinha só? Tenho uma mulher e duas filhas. Sou um demônio casado, gajo.

Ah, que bonito. Eu já sabia. O Coronel havia avisado. Sem piedade.

- O problema é seu. Ninguém mandou invadir o Brasil. Ninguém mandou seguir aquele Ditador filho de uma puta que governa seu país. É isso que vocês recebem por serem os cuzões que vocês são.

Ele continuava ali, sorrindo para mim.

- Tu viste como estava Portugal nos últimos anos? Viste? Ninguém tinha emprego. As pessoas passavam fome. Não sejas idiota. Eu faço a mesma coisa que você.

Agora ele me deixou realmente puto. Me comparando aos portugueses!

- Não ouse dizer que eu sou como vocês! Eu não defendo nenhuma ditadura. Eu defendo a liberdade. Defendo o meu povo.

- Certo, certo. Nós vivemos uma ditadura em Portugal. Mas foi a primeira vez em 10 anos que pudemos comprar comida sem nos preocuparmos com o dia de amanhã. Aquele Ditador é um louco, megalomaníaco. Só que ele nos salvou. Ele nos deu comida. Ele me deu um emprego de volta. Com o que me pagam no Exército, minha mulher e minhas filhas sobrevivem. Eu devo isso a elas. Eu devo isso ao meu povo, gajo.

Sem piedade.

- Você defende um assassino. Não tenho dó de vocês, portugueses.

O sorriso continuava ali. Só não havia alegria alguma.

- É verdade. Tu, não. Teus presidentes lideraram o boicote a Portugal. Por ações do Brasil, nós ficamos sem parceiros comerciais. Nós ficamos sem dinheiro. Sem nada. A liberdade, gajo, é linda. A miséria, não.

Filho da puta.

Eu tinha uns oito anos. Estava no aeroporto com a minha mãe. Viajaríamos para Espanha, passar as férias. Ela estava na fila do check-in e eu estava sentado em cima da mala, entediado. Como toda criança de oito anos numa fila. Foi quando eu vi uma TV passando Castelo Rá-Tim-Bum num café a uns 10 metros de distância. Eu adorava Castelo Rá-Tim-Bum. Eu adoro Castelo Rá-Tim-Bum. Saí correndo como toda criança de oito anos. Fiquei de frente para a TV, babando. Parecia um idiota. Exatamente como uma criança de oito anos. Até que começou a passar o comercial e eu me entediei de novo. Me virei para voltar para a minha mãe. Só que eu não fazia a menor ideia de onde ela estava. A distância até o check-in parecia um labirinto para mim. Fiquei desesperado e comecei a chorar.

Ele continuava sorrindo. Eu pressionei um pouco o gatilho, até acabar a folga. Um newton de pressão e tudo estaria resolvido. Aquele português estaria abraçando o capeta. Não conseguia, no entanto, pressionar até o fim. Minha mão tremia.

- Que dózinha. Isso é culpa de vocês. Tentaram nos passar a perna, tentaram impedir nossos negócios na Europa. Estão pagando o preço.

- É verdade. Portugal cometeu muitos erros, gajo. Muitos homens imbecis passaram pelo poder. Muitos homens deixaram nosso povo em ruinas. Mas e o teu presidente, gajo? Teu presidente é acusado de usar dinheiro público em esquemas de prostituição infantil. Teu presidente comendo criancinhas! Não nós, gajo. Teu presidente. E tu defendes esse filho da puta.

Nosso presidente era mesmo um filho da puta, só que eu não o defendia. Defendia o Brasil. O povo brasileiro.

Um homem que tinha lá pelos seus 20 anos se aproximou. Estava sorrindo. Perguntou O que que há, pequeno?, com um sotaque engraçado. Ele parecia um cara legal. Tinha um bigode engraçado. Eu disse que havia me perdido da minha mãe. Ele, então, abaixou e falou olhando para mim Ah, mas é isso? Tu sabes que os radares funcionam melhor no alto?, segurando-me pelas axilas (não uso sovaco até hoje) e me erguendo na altura dos seus ombros. Quando ele me levantou, a manga da sua blusa subiu e apareceu um desenho meio bobo de um barquinho de papel no seu pulso. Eu fiquei meio assustado na hora, mas ele falou Veja se encontras tua mãe, pequeno. E eu encontrei. Apontei para ela. Ele me colocou no chão, segurou minha mão e me levou até ela.

- Eu não defendo o presidente. Defendo o Brasil.

Sorriu. Agora era só tristeza, mesmo.

- E eu defendo Portugal, gajo.

Filho da puta. Filho da puta. Por que esse filho da puta continuava falando? Por que eu não coloquei uma bala na bunda dele assim que o vi e resolvi tudo isso? Por que eu estava hesitando, caralho? E por que estava tão calor nessa merda dessa floresta?

- Foda-se. Vocês invadiram meu país.

- Teu Exército tem o controle da Bolívia.

- A Bolívia era uma merda de uma ditadura, também. Nós os libertamos, caralho!

- Como vocês são bonzinhos. Deve ser bom ser herói, não é, gajo? Deve ser bom ser o herói e ter um inimigo agora, na sua frente. O mal. A maldade. Só um tiro e tudo se resolve não é, gajo? Um tiro e os problemas estão resolvidos. Tu salvaste teu país, gajo! Tu salvaste o mundo! O Brasil está a salvo! O povo brasileiro está em segurança.

Ele estava tirando sarro da minha cara. Fazendo piada com o meu país. Mas e se ele tivesse razão? Quer dizer, nós invadimos mesmo a Bolívia. Eles estão mais fodidos do que nunca. E o povo de lá? E a mulher e as filhas desse português?

- Nós não somos iguais. Você escolheu o lado errado. Essa é a nossa diferença.

Não sorria mais. Olhou-me por um longo tempo até que eu não aguentei mais e tive de desviar o olhar.

- Agora tu tens razão, gajo. O lado errado. Continuamos iguais, pois tu estás também no lado errado. Tu estás aqui, acreditando que luta pela tua nação, enquanto luta mesmo é pelo interesse dos teus governantes pervertidos.

- Você não faz o mesmo? Por um puto de um ditador?

Respirou fundo.

Quando chegamos perto, ela estava chorando. O rapaz continuava sorrindo. Ele sempre sorria. Disse que havia me encontrado perdido olhando para TV e que eu havia dito que ela era minha mãe. Minha mãe começou a agradecer e a me abraçar de uma forma estranha, mas eu estava feliz. Ela disse Nunca mais faça isso, meu amor!, mamãe quase morreu de desespero. Agradeceu mais uma vez o homem, que se virou e foi embora. Perguntei por que ele falava engraçado. Ela me disse que ele era português. Eu perguntei o que diabos (não dessa forma, eu era educado na época) era um português. Mamãe me explicou que era quem havia nascido em Portugal, pertinho da Espanha. Perguntei, então, se poderíamos ir lá, em Portugal, na casa do homem. Mamãe sorriu dizendo É claro, vamos sim, meu amor. Nunca fomos. O português pareceu legal para o eu-de-oito-anos

- Não, gajo. É pelo salário que vai alimentar a minha família. Quero mais é que aquele ditador, seu presidente e todos esses filhos da puta de um caralho se fodam. Defendo Portugal, gajo. Defendo minha família. Nós somos iguais, tu e eu. Ambos do lado errado. A diferença é que eu estou na ponta errada do fuzil.

Agora eu sorri.

- Então você, no meu lugar, atiraria?

- Muito provavelmente.

- Por quê? E todo esse papo de foda-se o ditador?

- Por que se eu não o fizesse, tu farias. Ou algum dos teus camaradas. Por que eu estou com merda até o nariz e agora tenho que nadar na merda. Isso tudo é uma merda, gajo. Uma grande, fétida e petrificada merda. Nós somos apenas parte dela.

O português tinha razão. Eu odiava admitir, mas ele tinha razão. O Coronel, no entanto… O Coronel havia dito. Nós éramos diferentes. Nós éramos o bem. Eles eram o mal. É assim que tem que ser. É assim. Não pode ser de outro jeito. Eles não podem ter razão. Eles têm que ser maus para que nós possamos ser bons.

Um, dois, três. Pressionei o gatilho até o fim. Todos os pássaros saíram voando como na cena de um filme. O sangue escorreu pelo seu peito. Abriu a boca num sorriso que logo ficou todo vermelho. Acenou com a cabeça. Parecia sincero. Fechou os olhos.

Não pode ser. Eu tenho que estar fazendo isso pelo motivo certo. Nós temos que ter razão. Eles são os caras maus. Eles são os inimigos. Nós temos que mata-los. Eles querem nos matar. Não pode ser diferente. Esse mundo tem que ter um herói. E o herói nesse momento sou eu.

Seu braço caiu ao lado do corpo e a manga do camuflado subiu. Lá estava a imagem meio boba de um barquinho de papel tatuada em seu pulso.

Um herói.

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