Pois é então, Dona Fulique.

Vida da gente carece de mimo,

mão na cabeça,

bolo na mesa,

esse tipo bom de carinho.

Passa é depressa o tempo,

corrido, nem vê,

veloz que é,

deixa a gente com medo

assustado, olha no espelho:

mais velho, cansado

a gente pensa é: por quê?

Viver é apressado, quem está vivo,

está atrasado, tenho dito,

menos Dona Fulique,

como, não sei dizer.

Não corre o tempo para ela,

corre sim, na verdade,

para mim nem parece,

na minha cabeça não tem Dona Fulique mais velha,

ou mais moça,

sempre foi assim: avó.

Idos foram oitenta anos, que são

é muitos, parar para pensar,

pois que na minha memória

nem um dia envelheceu a senhora minha avó,

eu penso é: por quê?

De moleque eu fazia Dona Fulique

jogar jogo de bola,

quebrou até o dedinho, lembro bem,

nunca mais jogamos,

pedia também dois pães,

margarina,

leite,

chocolate, toda manhã,

Dona Fulique fazia

como fazia, que ficava

tão bom?

Perguntava para avó:

você me ama?

Pois sim, Diego, ela respondia,

errando meu nome, Gabriel,

rindo da confusão,

faz tanto tempo, que ela erra ainda,

eu não pergunto mais,

pergunta de menino bobo,

só penso assim:

eu amo a senhora, Dona Fulique.

De tempo apressado, a gente sempre corre,

fica cansado, não presta atenção,

cresce, vira homem, fica burro,

erra o caminho, perde o chão,

eu não esqueço, pois então,

chego na São João 59 – já mudou

de endereço, mas na memória

é o mesmo – e peço:

Dona Fulique, me faz um café,

me esquenta um pão?

E ela responde: você, hein, Diego,

não tem jeito, não!

Não tenho.

Não tenho tempo,

tenho pressa,

então vou lá tomar um café

ouvir uma reza,

porque vó, afinal,

é quase uma pausa, um descanso,

é a música cantada na voz de Bill Withers,

das mãos de vovó,

das mãos de vovó que me erguem cada vez

que eu caio,

das mãos de vovó que fazem um café

por demais de bom,

das mãos de vovó que seguram o tempo

e dizem: calma, meu filho, tem pressa assim, não.

E o tempo até para,

ouve, respeita,

que o tempo sabe o valor

de ter uma vó assim, por perto,

errando seu nome, chamando atenção.

Arre. O tempo para

como para na minha cabeça

a imagem de Dona Fulique

jogando bola para cima,

preparando meu par de pão.

Fica parado, assim,

fica parado, pois então,

que cada segundo que não passa

é um tempinho a mais

de Dona Fulique, Dona Cida,

Dona Maria, Donas de monte,

ficarem por aqui, pertinho.

Logo o tempo volta a passar,

avê, cruz, torço só que demore muito,

quero ouvir ainda vários:

Deus te abençoe!, de Dona Fulique,

pedir um café,

segurar sua mão.