PROIBIDO SENTAR NAS ESCADAS

23–6–17, sp, barra funda

A mãe brinca com a filha na escada, sentadas no primeiro degrau da plataforma de embarque. Nesse degrau estão vários brinquedos, pequenos bonecos que saltam, lutam, dançam, conversam, brigam, governam, voam, vivem a depender da vontade da menina.

Ela usa um casaco rosa e um gorro de lã que cobre metade do seu rosto, porque o frio é intenso e castiga o corpo, principalmente o dela, pequeno, frágil.

Está movimentado. Muitas pessoas querem subir ou descer através da escada, e a menina está em constante movimento de um canto para o outro de um canto para o outro, deixando a passagem livre. Às vezes a mãe tem que puxar, porque a menina está concentrada com seus brinquedos e aquele mundo só deles, criado dentro daquela cabecinha dentro daquele gorro de lã, e pede desculpas a quem passa. A mãe finge uma bronca, mas logo sorri. E a maior parte de quem passa por cima do mundo infantil da menina também sorri, e aqueles que não sorriem e estampam um desgosto no rosto devem ter perdido no meio do caminho algo muito importante, e o desgosto é a ausência dessa coisa que deve ficar dentro do peito da gente. Não são capazes de compreender a magnitude que há: uma pequena menina e seus brinquedinhos na escada.


O ônibus delas estaciona na plataforma, atrasado. O rapaz da empresa avisa o embarque imediato. A mãe se levanta e estica a mão para agarrar a filha. Ela não quer ir, aponta para a escada, os brinquedos. Mas está na hora. Recolhe seus brinquedos para dentro da bolsa e caminha ao lado da mãe, lutando para acompanhá-la com seus passos curtos.

Entram no ônibus e logo desaparecem atras das cortinas. Em alguns anos a menina desembarcará como uma mulher e subirá e descerá essa escada em passos apressados, talvez de dois em dois degraus. Ela irá para cima e depois voltará para baixo e não se lembrará que essa escada já foi caminho muito mais longo. Até dentro de si.