QUANDO O FESTIVAL SE VAI

restam suas palavras. 29–7–17, paraty

foto de Marina De Nadai

No ônibus, uma moça escrevia uma história em seu macbook, desafiando a náusea causada pelo movimento do automóvel para dar fôlego à Paloma, sua personagem. O destino do ônibus é Paraty, no final de semana da FLIP. A cidade histórica do Estado do Rio de Janeiro é inundada por vozes caladas e esperançosas de alguma forma de sucesso e autodescoberta do próprio talento. Inclusive o assento 34 do ônibus da Reunidas, em que eu me sentei.

De todos os passageiros, chuto com certa segurança que setenta porcento possui um .doc em seus computadores ou páginas manuscritas em suas gavetas, contendo histórias de suas autorias, que um dia sonharam com as páginas amareladas dos livros editados, mas hoje repousam esquecidas em forma de bytes ou sulfite desperdiçada. Noventa, digo.

Paraty reúne vozes que não ficaram esquecidas. As mesas reúnem os autores para que falem de suas experiências e opiniões sobre tudo. E nós ouvimos, atentos, tentando captar numa frase, numa vírgula, num descuido o segredo. O segredo que diferencia o autor de palavras do vendedor de peixes, o vencedor do pulitzer da moça do ônibus e sua história sobre a Paloma. Há nessa moça a disposição de vomitar e enjoar a fim de colocar em palavras o que nela se cria, sabe-se lá onde, seja na cabeça, no estômago, no fígado, no coração. Essa história me custou um macbook vomitado e uma troca de roupas em um banheiro de posto de beira de estrada, seria o prólogo, e seria um bom prólogo.

Mas é evento raro, para não dizer impossível, captar esse segredo. Primeiro, porque não é segredo, e não sendo segredo, e estando todas as pessoas atrás de um segredo, não veem nada um palmo a frente de seus narizes. Segundo, porque se olha para o lugar errado: o palco, quando se deve olhar para o espelho. Para fora. Para as janelas.

Os moradores de Paraty acompanham com seus olhos desinteressados no movimento e interessados nos clientes os turistas e seus livros e seus sonhos e desejos secretos de serem lidos e terem seus nomes na lista de autores convidados da FLIP do ano que vem. E esses olhos estão acostumados com o que veem, pois são os olhos que constroem todo o espetáculo. Quando a FLIP se vai e os turistas se vão e a moça volta para o ônibus e, inspirada, martela as teclas do macbook com a voz dos autores em sua cabeça, Paraty permanece aqui. E os olhos voltam ao seu dia-a-dia: ruas históricas e precárias e uma ou outra caminhada do príncipe de Orleans e Bragança no meio da tarde.

Se for capaz de olhar nesses olhos e encontrar palavras que os surpreendam e for capaz de compreender esses olhos, o que não será capaz de escrever?