M.D.N

Saudade da Copa.

Eu estou bem cansado, sabe? Fisicamente, também, mas nem tanto por isso. Meu corpo aguenta bem; range, dói, às vezes vacila, mas, no geral, aguenta bem. Dá conta do recado. O cansaço que derruba é na cabeça, mesmo. Um pouco pelo peito, vez ou outra desce até o estômago. Fome. Fico num estado letárgico, incapaz de agir, de pensar. Uma boa noite de sono resolveria um cansaço físico, resolveria, sim. Durmo muito e nada resolve. Continuo invariavelmente cansado. Acordo e desço pelo elevador, dou um sorriso cansado para o porteiro. Compro um café e fico o encarando sem nem vê-lo, até lembrar que está ali para, então, desistir de tomá-lo porque já esfriou e agora está horrível. Talvez o café me ajudasse a recobrar o ânimo, o fôlego!, mas eu nunca tomo, então nunca ajuda. Fico matutando sobre o que fazer. Quando chego em casa, ligo a TV. Mas não está passando nada demais: Jornal-alguma-coisa. Homem agride esposa. Esposa agride o filho. Menor esfaqueia homem. Homem agride esposa. Esposa de político desvia verba da merenda. Menor esfaqueia esposa. Desligo a TV. Eu leria um livro, tem dezenas deles espalhados pelo apartamento. Só que eu estou muito cansado para ler um livro. Deito no sofá, as obrigações se acumulando e eu sem fazer nada. Cansado demais para fazer qualquer coisa. Queria mesmo é ligar a TV de novo e que lá estivesse passando um jogo da Copa. Que saudade da Copa.

Na Copa eu não estava cansado. Estava cansado fisicamente, dormia pouco. Acordava tarde. Naquele dia, eu não estava cansado. Acordei às 10 horas, talvez um pouco mais, certamente não era menos, tenho certeza de que o 10 estava no relógio. Levantei primeiro e fui até a cozinha usando não mais que uma cueca. Procurei nos armários por alguns segundos até achar o pó e o filtro de café. Coloquei o suporte na garrafa, o filtro no suporte, o pó no filtro. A água na caneca e a caneca no fogo. Enquanto esperava a física fazer seu trabalho, ouvi os passos. Bem lentos, sem ritmo. Passos de quem diz “não tenho certeza se quero mesmo continuar andando”. Continuaram. Ela apareceu na cozinha vestindo seu pijama: uma calça larga de moletom e uma camiseta rasgada de um personagem amarelo antigo de desenho animado. O rosto inchado, os olhos quase fechados, o cabelo bagunçado formando um topete. Eu estava apoiado com a bunda na pia e ela veio na minha direção, estendendo os abraços e me abraçando. A cabeça pousou no meu peito, que ergui pelo queixo, beijando sua testa. Pousou de novo. Ficamos abraçados, a água esquentando. Quando começou a ferver e eu soltei um dos braços, senti seu peso sobre mim: estava dormindo em pé. “Ei”, sussurrei. “Ei, a água tá fervendo”. Abriu os olhos com preguiça, soltou-se de mim e se apoiou na pia, ao meu lado. Joguei a água fervente sobre o pó de café. Era só esperar até coar. Ela respirou fundo com os olhos ainda fechados, virou o rosto para mim bem lentamente, abriu os olhos enquanto abria um sorrisinho. “Adoro cheiro de café”. Concordei. Recebi um beijo. Concordar é quase sempre um bom negócio, pensei. O café já tinha terminado de coar, então joguei o filtro no lixo, coloquei o suporte na pia e servi duas canecas pela metade: uma preta, uma branca. Peguei a preta, ela ficou com a branca. Fui para o sofá e sentei, esperando que ela me acompanhasse. Não acompanhou. Ouvi da cozinha “Quero alguma coisa para doce comer. Tapioca doce. Você quer, também?”. Queria, mas disse que não. “Não, nem você. Vai demorar muito pra fazer. Vem logo pra cá”. Reclamou sobre alguma coisa. “Mas eu quero alguma coisa doce. Vou fazer torrada com nutella. E nem fale nada que vai demorar”. “Vai demorar”, respondi. “Chato”. Não demorou tanto assim. Ela logo veio com quatro pães: dois para ela, dois para mim. Eu comeria três. Talvez os quatro. Concordar e dividir é quase sempre um bom negócio, pensei. Recebi outro beijo, dessa vez sem nem falar nada. Um bom negócio, é sim. Ainda não eram 11 horas, mas quase. Não tinha jogo naquele horário, então não ligamos a TV. Ficamos conversando e rindo em voz alta e nos encarando e rindo em silêncio e planejando e sonhando de mãos dadas e caçoando e amando em silêncio. Fizemos isso durante muito, muito tempo. Não que tivéssemos percebido: 15 minutos, não mais que isso!, nós diríamos sobre o tempo que ficamos no sofá. As canecas estavam no chão: a minha, com um dedo de café gelado — eu sempre deixo um dedo de café na caneca -, a dela, vazia. O prato das torradas estava ao lado, nenhuma torrada, alguns farelos. Eu estava com as pernas pra fora do sofá, deitado em seu colo. Com o pé, empurrei a cortina da janela para o lado. “Caralho!”. Assustada, ela perguntou “Que que foi, meu Deus?”. Apontei lá pra fora “Tá escurecendo”. Quis saber as horas e olhei no relógio: passavam das seis da tarde. O relógio biológico também avisou, sentia fome. Ela também. “Porra. Tô com fome”, deixou claro em palavras. As opções eram tapioca e mais pão com nutella. Decidimos sair comprar na padaria da esquina. Com a TV ainda desligada, nos levantamos e fomos atrás de comida.

Agora não só de cuecas, mas de bermuda e camiseta com buracos de traça na manga, com um chinelo dois números menor que o meu pé, escolhia os salgadinhos. Ainda com a calça do pijama, sem a camiseta do desenho animado e dessa vez usando sutiã, ela foi na geladeira de doces. Então, decidíamos se comeríamos lá ou no apartamento. Eu odeio tomar essas pequenas decisões do dia-a-dia. São armadilhas. Parecem simples, mas um passo em falso e pronto, você entrou num vórtice sucessivo de situações ruins. Por isso, “Tanto faz”. Ela me encarou com cara de “cacete, como sempre”. “Vamos comer aqui, então”, e enquanto ela dizia isso, eu vi na TV da padaria que o jogo entre Alemanha e Gana estava começando. “Em casa, vamos ver em casa”, falei. “Puta que pariu, você sempre faz isso!”. Não era verdade. Eu geralmente seguia a regra do Concordar e Dividir. Mas nesse caso, eu queria ver o jogo em casa. De cueca. Isso fez com que ela ficasse puta comigo. Sorri. Minha reação é sempre essa: sorrir. Levei um empurrão no peito como recompensa. Preferia os beijos de Concordar e Dividir. Sorri, de novo. Pagamos e fomos embora, ela em silêncio, eu também. No apartamento, sentamos no sofá e ligamos a TV. Os salgadinhos da padaria estavam muito bons. Ela comia sem falar nada e olhava fixamente o jogo. Perguntou “Para quem você está torcendo?”. Eu conhecia aquela história. “Para Gana”. Tirando os olhos da TV para me encarar, disse “Então eu estou torcendo para Alemanha”. Sorri. Ela continuou me encarando. “Eu também, espertona”. Levei um chute seguido de um “Filho da puta”. Era um bom sinal: estava passando a raiva. Enquanto ela me xingasse, era um bom sinal. O silêncio que me enlouquecia. Não que eu não ficasse em silêncio, sempre fico. Mas não por esse motivo. Fico para pensar, para criar, para contemplar. Ela ficava para dissimular uma raiva e aumentá-la em segredo. Falando, dissolvia. Tudo ficaria bem.

Eu não estava prestando atenção no jogo. Fiquei olhando enquanto ela assistia. Comemorei o gol da Alemanha, ela não. Tentei segurar sua mão por duas vezes, não deixou. Estava ficando cansado da brincadeira. Na terceira, quando ela tirou a mão, segurei seu pulso e puxei para perto de mim, trazendo com ele seu braço, seu tronco, suas pernas, tudo para cima do meu corpo. Com o outro braço, abracei-a. Seus olhos me encararam, a boca fechada fingindo braveza. Não estava mais brava. O tremor no canto dos olhos denunciava tudo. Desistiu de fingir e sorriu. Recebeu um beijo. Concordar e Dividir — e Recompensar. Já não tinha mais pijama, desenho animado, chinelo, cueca. Quanto ao jogo, a Alemanha ganhou. Mas não vimos o final.

Naquele dia ainda brigamos. Feio. Não lembro o motivo. No momento pareceu bem sério, mas se eu não consigo lembrar, provavelmente não deve ter sido. As brigas têm isso: parecem grande coisa na hora e, então, passa um tempo que nos fazer pensar “mas que bobeira brigar por essa bobagem!”. No meu caso, nem lembro qual era a bobagem. Pouco importa, também. Aquele foi um bonito dia, do começo até perto do seu fim. Um dia em que eu não estava cansado.

Hoje, estou. Tenho estado assim há um bom tempo. Sempre cansado. Não deixo um dedo de café: é sempre o copo cheio. A preguiça não me permite ir comprar pão, nem nutella, nem nada. Vou no máximo até a padaria da esquina — outra esquina, outra padaria — e sempre decido comer por lá, mesmo. Não decido outra coisa porque ai seria uma daquelas decisões do dia-a-dia. Prefiro assim, rotina. O problema é que essa rotina está me deixando muito, muitíssimo cansado. Eu preciso mesmo descansar. Eu preciso mesmo deitar no sofá, tomar um café, concordar, dividir, ligar a TV e encontrar por acaso um jogo da Copa. Viu só? Eu fingi que sentia saudade da Copa. Só para falar sobre você. Estou cansado de fingir, também.