SOB A BANDEIRA DO BRASIL DORME A POESIA INGÊNUA E SENTIMENTAL

Pátio da Bandeira da Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar

30–8–17, sp


Olhasse pela janela e visse que o sol estava na posição mais alta e iluminando o máximo possível, com todo seu calor pelo concreto, não era preciso perguntar nem ter dúvida: era hora da parada diária, em que os corpos se perfilam ao longo do pátio ensolarado e a corneta toca suas instruções e a bandeira sobe o mastro e o bumbo ressoa no momento que os pés direitos tocam o solo quente.

Ouvi a corneta e acelerei o passo, sentindo a farda se desarrumar nas costas, saindo das calças, e segurando o bibico enquanto corria para que não voasse e caísse no chão imundo. O pátio já estava movimentado. Desci correndo e passei pelo lado de uma rodinha formada por oito pessoas.

Diminuí o passo para olhar, e não consegui ver por sobre os ombros. Cheguei mais perto. Ali no meio estava um cachorro deitado sob o sol, a cabeça sobre as patas cruzadas e os olhos fechados. Os oito encaravam a cena em silêncio. Agora nove, que eu me aproximei sem dizer nada e também fiquei olhando o cachorro. O décimo passou e perguntou o que a gente estava olhando, e um de nós respondeu, por todos, sem tirar os olhos do cachorro:

Olha esse cachorro.

E o décimo olhou e logo seu rosto assumiu a mesma expressão que o resto de nós.

Puta vida boa, ele disse antes da corneta tocar mais uma vez, fazendo com que nós fossemos para nossos lugares, bem ao tempo de ouvir o grito: terceiro esquadrão entrando em forma.

E ali permaneceu o cachorro, deitado com a cabeça sobre suas patas cruzadas. A corneta tocou de novo, e as mãos direitas se alinharam às têmporas, em continência a bandeira que subia o mastro lentamente, enquanto o cachorro dormia ao lado do poste de metal, recebendo as honrarias. Ao toque de ordinário, marche, e irrompida a marcha e tocado o bumbo ao pé direito, a cabeça do cachorro se ergueu: era marrom, o fucinho médio-longo, o pelo baixo, as sobrancelhas peludas e quase grisalhas. Bum, bum, bum, ecoando pelo pátio quente e ensolarado, o suor manchando de azul escuro as costas da farda, as gotas escorrendo pelos rostos barbeados, e a cabeça do cachorro levantada, as patas ainda cruzadas, observando a tropa que ali em frente marchava. Bum, bum, bum, íamos passando, e mantive meus olhos no cachorro, e quem estava ao meu lado também, eu sei, e ele me olhou por um instante, e nos encaramos, então ele apoiou a cabeça sobre as patas e fechou seus olhos, e eu senti inveja daquele cachorro.

Permaneceu de olhos fechados enquanto os três esquadrões passaram e enquanto o pátio era esvaziado, e ali permaneceu dormindo ao lado do mastro da bandeira enquanto descíamos para o rancho, famintos e cansados. Os cachorros daqui vivem melhor que a gente, falou o que estava ao meu lado na marcha enquanto descíamos, e eu concordei. Vivem melhor que a gente. Deitados sob o sol forte, dormindo à meio-dia. Quando ele me encarou, eu quase perdi o passo, porque me constrangi de sua natureza. De ser quem era, pela necessidade de ser quem era, e me causou grande comoção encará-lo enquanto eu vestia aquela farda azul e aquele bibico azul e aquela calça azul e aquele sapato preto engraxado refletindo a luz do sol, pela fantasia de quem eu não era. Vivem melhor que a gente, repeti, olhando por cima o que teríamos de almoço, anos antes de saber quem era Friedrich Schiller.

E passou um rapaz de calça jeans e camiseta em direção ao hospital, através do pátio da bandeira, depois de ter esperado o desfile da tropa, e viu aquele cachorro, e estalou os dedos e assobiou, e o cachorro veio para perto dele, e ele fez carinho em sua cabeça peluda, e o cachorro se afastou e agora se deitou na sombra, com a cabeça sobre as patas cruzadas, e o rapaz seguiu seu caminho subindo a rampa com o cheiro de cachorro na mão, sem pensar em nada, porque ele se sentia livre. E nós não.