Tudo o que eu queria era dormir

Dormir era a parte mais prazerosa e mais torturante do dia. Eu passava todos os momentos pensando quando teria uma nova oportunidade de dormir, e isso não é apenas um modo de falar. Quando eu via uma chance, eu aproveitava: encostava em um armário, em uma parede, em uma mesa e fechava os olhos por alguns poucos minutos, quando muito. Eu só queria me desligar.

A noite, porém, era o momento realmente relevante. Éramos mais de 180 em um mesmo galpão gigante, cheio de camas e armários, e pensar que um simples apagar de luzes ia fazer com que todo mundo calasse a própria boca é pura estupidez. Às 22h eu estava, quase sempre, já na minha cama. Estar lá era uma meta pessoal, uma obrigação comigo mesmo. Tudo o que eu queria era dormir o máximo de horas possíveis; esse era meu objetivo. Apagar, desligar o cérebro era o meu momento de paz, de privacidade. Era o meu prazer. Mas nunca gratuito. A ideia de que logo acordaria para mais um dia da rotina, num par de horas, já era o suficiente para fazer minha cabeça funcionar duas vezes além da velocidade normal, assim como meu coração. Aflição. Fechava os olhos, então.

As vozes continuavam lá, e eu não conseguia dormir. Sentia o corpo ceder, a mente diminuir gradualmente seu ritmo, mas algo se mantinha em alerta, em sentinela. Sabendo que uma voz viria direto em minha direção. E ela surgia, quase sempre dos mesmos filhos das putas. Então meu coração disparava e toda falsa tranquilidade se esvaia em irritação. O tempo estava passando, e eu sabia disso. As vozes iam diminuindo, se calando, sendo substituídas por cochichos e deus sabe como eu odeio cochichos! Eles são piores que as vozes em tom normal, porque tentam não se fazerem ouvir, mas mesmo assim eu os ouço e essa incompetência me deixa num estado de nervoso ridículo. Eles me enfureciam mais que qualquer conversa desmedida e sem disfarce. Dava um nó no meu estômago. Queria levantar e mandar todos a merda, “CALEM A PORRA DA BOCA, CARALHO!”, mas eu nunca levantei. Olhava ao redor e via meus colegas dormindo, os que já haviam calado a porra da boca, caralho, e isso me fazia sentir uma inveja daquela capacidade. De adormecer como se respira. Se ao menos eu fosse capaz!, tudo seria mais tolerável. De repente, as vozes sumiam e tudo escurecia de uma só vez. Eu dormia. O estado de alerta, no entanto, continuava lá. Eu sabia que algo viria. Pareciam questões de segundos para que, então, o despertador berrasse no meu ouvido uma música que eu costumava adorar e passava a odiar. Nunca conseguia estar completamente relaxado. Assim começava tudo de novo com a pergunta:

- Quando é que eu vou dormir de novo?

Depois de três anos eu notei que não é possível viver o resto da vida assim sem enlouquecer.