UM TESTEMUNHO OCULAR

11–4–17

Ele entra no metrô sem muita pressa, no relógio ainda há tempo de sobra e isso já é uma raridade, porque relógio é patrão severo. Então caminha com calma e até se dá ao luxo de esperar o segundo trem chegar, mais vazio, que o primeiro está lotado. Não tem lugar para sentar no segundo, mas tem um espaço ao lado da porta para se escorar, e ele se escora ali, olhando para fora, pelo vidro.

Gente pra caralho, ele pensa, vendo a cidade passar lá fora, tão veloz, imóvel no concreto e móvel na sua gente. Cheia de carros e pessoas e pressa. Relógio é patrão severo. Vai atravessando SP com Led Zeppelin nos fones, dando um tom dramaticamente bonito à rotina paulistana, na progressão de Stairway to Heaven e na intensidade de Immigrant Song. Grande pra caralho, pensa.

Tem muito cinza e muito colorido e trânsito embaixo dos trilhos. E uma moça esperando para atravessar a avenida, mascando chiclete, óculos escuros, cabelo solto, salto na mão, chinelo no pé, distraída. Que cena bonita, pensa. Cuidado com o bandido, moça. E depois um homem dormindo no chão, e um cachorro andando atrás de uns moleques, com seu rabo abanando, todo contente. E mais uma estação, onde um homem de terno entra apressado seguido de um rapaz tranquilo com o cabelo rosa, e na próxima uma mulher de braços tatuados e batom vermelho na boca passa pela porta.

Segue o metrô. Sentido Corinthians-Itaquera. Lá fora, parque, prédios, casebres. Desce a mulher. Depois o homem de terno e então o rapaz de cabelo rosa. Tanta gente diferente no mesmo caminho e sentido, tudo por R$3,80. Que que cada um vai fazer agora?, se pergunta. Trabalhar, beber, se drogar, treinar, foder, descansar, estudar, vadiar, estar vivo, talvez. E depois entrar no metrô no sentido contrário para voltar de onde veio por novos três reais e 80 centavos. História pra caralho, pensa.

Chega na sua estação. Desce as escadas. Olha para o relógio: tem tempo de sobra. Que sorte! 15 minutos de viagem e um testemunho de uma fração de milhões de vidas. Todos os dias. Menos quando está atrasado, que aí tem que correr, e correndo é difícil de olhar para os lados.