A cerimônia começaria em quatro horas. O salão, como é de se supor, já estava pronto há um dia, coisa da família do noivo, viciada em organização. Mas estava vazio, porque as pessoas costumam, pela regra, chegar depois da hora, não tão antes da hora, salvo alguns parentes inconvenientes que não só chegam muito mais cedo como saem também muito mais tarde. Porém, nenhum deles havia dado as caras, então o salão estava vazio. Trata-se de um casamento, falamos de um noivo, há também uma noiva. É num salão, pois nem o noivo nem a noiva são religiosos e apesar da beleza da cerimônia na Santa Igreja, não havia muito sentido em perturbar Deus com essas questões, principalmente quando não se crê Nele. Melhor assim, pensou Deus — ao menos é o que imaginamos -, aprecio o bom-senso. Voltando ao salão: estava vazio como quando falamos que o bar está vazio, mas que sempre tem uns gatos pingados, tão poucos que parecem nada, principalmente para quem precisa deles para faturar. No salão, tinha um gato pingado. O noivo. Sentado no primeiro degrau da escada do palco em que o Estado, através de um representante, celebraria a união dele com sua futura-esposa. Já estava com seu terno, a gravata borboleta, o sapato, o cabelo penteado com uma mecha castanho-claro caindo sobre o rosto, um cigarro na mão e outras nove bitucas amassadas dentro do cinzeiro. Não é preciso dizer, mas pelo sim, pelo não, deixamos claro que ele estava nervoso. Em pânico. Um psiquiatra que acompanhava essa história disse que ele apresentava sinais iniciais de um surto psicótico — mas adiantamos: foram só os iniciais. Amava sua futura-esposa, amava sim, sem dúvida, que coisa, é claro que amo! Nos últimos oito anos tinha tido certeza: amo, tenho-dito, e não há o que eu ame mais. Mas estava nervoso. Em pânico. A garganta seca, um tremelique na perna esquerda, piscando rapidamente, respirando afobado. E fumando dez cigarros seguidos, acendendo um no outro. Nem bem sabia o porquê de tanto nervosismo. Só não conseguia controlar. Não parecia uma ideia tão ruim assim entrar no carro, ir para o aeroporto e comprar a primeira passagem para Istambul, só de ida. É claro que é uma péssima ideia, não é preciso nos dizer, mas a questão é que a ele não parece tão má ideia assim. A ideia não prosperou muito, porque enquanto pensava nisso ouviu a porta dupla principal do salão se abrir. A figura que entrava era grande, bem grande, um homenzarrão. Um homenzarrão acorcundado pela idade, de cabeça branca e farta de cabelos enrolados. Vinha num passo cadenciado, um sim, um não, apoiado em sua bengala. Pareciam passos de dança de um velho tango manquitola, executados pelo senhor de terno. No rosto a eterna expressão de emputecimento contínuo marcada pela testa enrugada e as sobrancelhas arqueadas. Maravilha, pensou num tom um tanto quanto irônico o noivo. Tratou logo de apagar o cigarro e sem saber onde enfiar o cinzeiro, sentou em cima, arrependendo-se tão logo o fez ao lembrar que já usava a roupa com que se tornaria o esposo da sua futura-esposa.

“Me dá um cigarro, garoto”, disse o senhor ao se achegar e se sentar, não sem alguma dificuldade. Tentando disfarçar, o noivo respondeu “Mas que cigarro, seu Benjamin, que eu não fumo? Ora essa, cigarro, mas que cigarro?”, adicionando ao fim uma risadinha forçada daquelas que se veem em filmes quando o personagem tenta disfarçar uma mentira e ninguém nota na ficção, mas na vida real é tão notável quanto a diferença entre branco e preto, seco e molhado. Seu Benjamin era bem real. “Pare de história, porra, que eu estou velho mas não morto. Sinto o cheiro de cigarro a quilômetros”. Sabendo-se derrotado, o noivo desistiu e pegou o maço do bolso do paletó com dez cigarros restantes. Puxou dois, um para ele, um para o sogro, e os acendeu em seguida com o isqueiro amarelo de estimação. “Onde está o cinzeiro?”, questionou o velho, fazendo aparecer no rosto do noivo uma genuína vergonha que só aumentou enquanto ele se levantava e tirava debaixo de si o depósito de cinzas e bitucas. Com um Puta que pariu sussurrado, seu Benjamin não comentou sobre a cena. O noivo pensou em perguntar da insuficiência pulmonar, mas ele não estava exatamente em posição de questionar alguém. Depois de três tragadas em silêncio, o velho bateu a bengala no joelho do noivo e perguntou “Então, garoto, o que você pensa que está fazendo? Está nervoso?”. Ele, o noivo, havia aprendido que não se deve demonstrar medo e fraqueza ante o predador, portanto negou, é claro que não, eu, nervoso, imagina, só vim checar o salão. “Você não fuma, garoto. E fumou meio maço. É melhor você estar nervoso, ou essa bengala vai pelo mesmo caminho que esse cinzeiro já percorreu”. A vergonha voltou. Estava com medo e, afinal, para o inferno com a sabedoria popular. “Eu estou me cagando de nervoso, seu Benjamin. Não sei o que acontece, não me leve a mal, pelo amor de Deus, porque eu amo sua filha e não há o que eu ame mais, sem dúvida. Só que hoje passei o dia com o estômago embrulhado, uma sensação de urgência. Não sei o que fazer, seu Benjamin”, terminando com um trago longo no cigarro seguido de uma tosse engasgada. As sobrancelhas do velho se arquearam ainda mais e os olhos cor de mel — assustadoramente idênticos ao da futura-esposa — ficaram com duas pupilas minúsculas, como de um animal selvagem tranquilo e pronto para destroçar sua presa. “Ouça bem, garoto, que eu vou te falar sobre nervosismo. Ouça bem. E me dê mais um cigarro.”

“Há cinquenta e quatro anos atrás, eu estava numa rodoviária me sentindo extremamente nervoso. Nós nos conhecemos pela internet e” — nesse momento, o noivo deu uma risadinha jocosa, respondida com um leve movimento sugestivo da bengala, que causou o efeito esperado no rapaz — “continuando, nos conhecemos pela internet e eu iria pela primeira vez até a casa dela. Eu era um garoto, nem vinte anos. Nunca tinha visto aquela mulher e já era completamente maluco por ela. Naquele momento, porém, eu não queria vê-la. Eu queria é fugir para bem longe. Porque eu estava nervoso e não sabia explicar os motivos. Sabia, na verdade. Eu sabia que quando eu abrisse a boca eu poderia estragar tudo e então ela perceberia o engano que havia cometido ao aceitar me encontrar na sua própria casa e sairia correndo, nunca mais falaria comigo. Isso era inaceitável. Inconcebível. Que eu faria se ela percebesse o boçal que eu era? Mas, mesmo assim, eu queria vê-la. Talvez eu fosse capaz de enganá-la e convencê-la de que eu valia a pena. Era um risco a ser corrido. Eu não fumava nessa época, mas se eu fumasse certamente teria sido mais de um maço nesse dilema. Assim eu entrei no táxi e disse Rua Pedro Teobaldo, 16, por favor, fazendo o taxista rir e dizer Há-há!, Pedro Teobaldo, esse é um nome engraçado, com o que eu concordei, porque nessa época sempre se concordava com os taxistas, mesmo aqueles que acham que o governo militar deveria voltar ou que o melhor era estatizar o país inteiro” — o noivo interrompeu de novo, dizendo “Desculpa, seu Benjamin, mas o senhor realmente lembra o endereço até hoje? É que faz tanto tempo”. Com os olhos revirando, seu Benjamin acertou a bengala na canela do rapaz, que grunhiu um Ai, caralho, isso dói! “Mas que caralho, é claro que não lembro, olha a minha idade, garoto. Pedro Teobaldo não deve nem ser uma rua, ou é, tanto faz. Só ouça a maldita história e não me interrompa de novo, antes que eu faça uma lavagem intestinal com madeira da melhor qualidade em você”. Não interrompeu de novo. “Continuando. No táxi, eu tremia um pouco. A garganta seca. Tinha planejado bastante coisa para dizer a ela, mas tudo parecia estupido. Torcia para o táxi demorar, atrasar o confronto. Não o confronto, o encontro. Não demorou e, assim que chegou, eu me sentia paralisado. Paguei e não esperei pelo troco. Falei o número do apartamento — não, não lembro a porra do número, tá bem?, tire esse sorrisinho idiota da cara — e o meu nome. Ouvi o porteiro dizer Oi, o Benjamin está aqui, anh, tudo bem, até mais, então, e então olhar para mim e dizer Pode subir, ela está esperando, com uma cumplicidade gentil. Ela estava me esperando. Não sei o nome do porteiro, talvez seja Paulo, e eu gostei muito do Paulo naquele momento. Fiquei um pouco mais tranquilo, eu sentia que poderia dar certo. A tranquilidade, porém, não durou muito. Porque eu entrei no elevador, apertei o três — não comente — e instantaneamente meu cérebro se apagou. Talvez eu não soubesse nem meu nome naquela hora. Eu era um caos por dentro. Vestido numa carcaça pálida e mal vestida. Ela não iria nem abrir a porta depois de me ver pelo olho mágico. Ela arranjaria uma desculpa. Minha mãe ligou, minha tia veio jogar buraco, meu cachorro Eustáquio precisa ir ao veterinário — ela tinha medo de cachorro na época, o que tornaria a desculpa ainda pior. Ela nunca me receberia. E eu não poderia culpá-la. A porta do elevador abriu e eu me arrastei para fora. Parei na frente da porta do apartamento. Minha mão estava suada e eu me sentia estupido. Imbecil. O mais estupido imbecil de toda a face da terra e, quiçá, em todo o sistema solar se no sistema solar houver mais gente que a gente. Fiquei hesitando em bater ou não. Passei uns segundos assim, até que ergui a mão. Quando fui bater, ela abriu, e nesse momento eu seria ainda mais estupido e mais imbecil. Não fosse ela. Não fosse ela me olhar, sorrir e dizer Oi, Benjamin. Não fosse a mãe dela não ligar, a tia não vir para jogar buraco, não fosse o Eustáquio não precisar de um veterinário. Não fosse isso, eu sairia correndo. Mas foi. E quando eu olhei para ela naquela hora, eu tinha certeza absoluta de toda a minha imbecilidade, mas eu não me importava, porque eu estava lá, ela estava lá, e pro inferno com o resto. Continuava sem saber o que falar e continuava fazendo coisas de pateta, mas o que eu sentia no estômago não era mais nervoso. Era algo bem maior.

“E você acha que acabou, mas não acabou. Porque foi assim que as coisas continuaram. Eu continuei ficando nervoso todas as outras trinta e três vezes que fui da rodoviária para casa dela — sim, com certeza trinta e três, nem todas de táxi já que ela me ensinou qual ônibus pegar. Até ela me convidar para conhecer seus pais, e aí não teve Oi, Benjamin que resolvesse, eu fiquei nervoso o tempo todo até o pai dela dar uns tapinhas no meu ombro e sorrir para mim. Um dia eu recebi uma proposta de emprego longe daqui, em Istambul” — o rapaz arregalou os olhos e disse “Sério? Eu pensei em…”, mas resolveu ficar quieto pelo seu próprio bem — “pois então, em Istambul. Ela disse para eu aceitar. Eu pensei bem, ela disse que tudo ficaria bem. E eu aceitei. E tudo ficou mal. E foram seis anos assim. Seis anos de nervosismo. O trabalho dela aqui, o meu lá, era impossível. E, assim sendo, acabou. Por seis anos. Antes de voltar, eu pesquisei a vida dela. Estava namorando um zé-qualquer que talvez fosse uma boa pessoa, mas eu simplesmente era obrigado a odiá-lo. Tinha perdido o medo de cachorro e até adotado um, cujo nome não era Eustáquio, mas Rex e eu só conseguia pensar que o nome com certeza tinha sido dado pelo zé-qualquer, porque ela jamais seria tão previsível assim. Aquele nome me deu uma motivação. Ela não podia realmente estar com um cara que chama o cachorro de Rex. Eu chamaria de Eustáquio e ela adoraria a porra do nome. Fiquei nervoso e passei todas as horas de voo assim. Cheguei aqui e fiquei esperando pela minha bagagem, até descobrir que havia sido extraviada. Isso aumentou o nervosismo, que agora também partilhava da raiva. E raiva pede álcool. E nessa época eu já fumava, culpa dos italianos que conheci na Turquia. Malditos italianos, aqueles caras eram gente boa. Meu pulmão discorda, claro, mas eram gente boa. Enfim. Fui até o quiosque do aeroporto, pedi um conhaque e tomei puro. O conhaque dissolve um pouco da raiva, faz parte da sua composição química. Assim como o cigarro que peguei do bolso e saí para área aberta para fumá-lo. Quando finalmente consegui acender por causa do vento, ouvi Oi, Benjamin, atrás de mim. Virei com o cigarro pendendo da boca e o isqueiro na mão para encontrá-la ali, o cabelo mais curto, um pouco mais gordinha, com o mesmo sorriso da primeira vez num rosto mais forte, mais vivo. Ela perguntou Agora você fuma?, sempre achei que você ficaria sexy fumando, apesar de odiar o cheiro. Ri. Mas não ri de nervoso. Ela estava ali e, como sempre, eu não sentia mais nervosismo embolando o estômago. Era algo bem maior. Fome, também. Mas era algo maior inclusive que a fome. Felicidade. Perguntei o que ela estava fazendo lá e ela, sem vergonha alguma, disse que havia visto uma foto minha Por aí, nas palavras dela, e eu falava na legenda que estaria voltando naquele dia. Eu tenho certeza de que não falei em lugar algum da internet quando voltaria, mas tanto faz. Concordei. Eu perguntei do zé-qualquer e ela me mandou calar a boca. Calei, não sem antes perguntar quem havia dado o nome para o cachorro. Ela revirou os olhos. Bufou. Por fim, respondeu: foi ele. Eu sabia. Eustáquio era muito melhor.

“Foi assim que eu percebi a origem de todo o nervosismo. E a cura. E mesmo sem nunca saber explicar pelo que me sentia nervoso, eu sabia pelo que. Era por ela. E estar ao lado dela de novo era um pontinho confortável de calmaria em toda a merda que continuava voando por todo lado no resto da vida, da minha vida, da vida de todo mundo. Eu me senti nervoso quando ela entrou na sala de cirurgia no dia do parto da menina que hoje será sua esposa. Depois de muitas horas, vi as duas, ela com minha filha no colo, e soube que agora o que eu sentia na boca do estômago estava multiplicado por dois. Tanto o nervosismo quanto o que vem depois. E eu aceitei isso. E eu abracei isso. E eu amei isso durante todos os anos em que tivemos juntos. E quando ela se foi, algo de mim foi junto. É meio ridículo um homem na minha idade falar essas coisas, mas veja só que beleza ser velho: você pode falar coisas ridículas para homens da sua idade que, curiosamente, pelo fato de você ser velho, são aceitáveis. Por isso digo. Passo a maior parte do tempo nervoso, estou um pouco agora, e isso só melhora quando vejo minha filha. Quando vejo que minha filha sorri e diz Oi, amor, ao te ver, porque eu vejo também sua mãe. Às vezes, quando tenho sorte, ela aparece nos meus sonhos. Acordo tranquilo e geralmente o dia depois disso é um bom dia, que só fico nervoso lá pelas nove da noite, de novo. Eu vivo nervoso, garoto. Se eu consegui com meio pulmão, você também consegue. E é melhor conseguir. Porque é da minha filha que estamos falando aqui”, terminou seu Benjamin, e sua testa parecia até menos enrugada. Só parecia, apenas impressão.

O noivo sorriu e mesmo com a reação irritada do sogro, abraçou o velho por um tempo considerado constrangedor por nós que vemos de fora. Ao se soltar, perguntou para seu Benjamin o que queria mesmo saber “E no dia do casamento de vocês, como o senhor se sentiu?”. Pela primeira vez no dia, seu Benjamin sorriu. Deu dois tapinhas no ombro do rapaz. “Não sei, nós nunca nos casamos oficialmente. Quem vai me dizer é você”.

Estava no altar, de costas para o Estado através de seu representante, de frente para os convidados — os familiares mais próximos de ambos os lados, mais os bons amigos e não mais que os bons amigos, que são a melhor espécie de familiares. Todo o nervosismo se potencializou. Pensava que ela não entraria, que ela não viria, que ela havia desistido, que o cachorro idoso, Eustáquio Neto — filho de Eustáquio Júnior, neto de Eustáquio, o Primeiro -, havia resolvido enfartar bem agora, que ela havia notado com considerável atraso e, confessemos, um senso de oportunidade bem pouco apurado, que ele era mesmo um idiota de marca maior. Sentia vontade de chorar e gritar e, por isso, tinha ainda mais vontade de gritar, pela sua fraqueza emocional. Até que ela entrou. E ele realmente chorou algumas gotas que limpou com as costas da mão, rindo meio atrapalhado. Ela entrou com seu vestido curto e seu cabelo solto e seu sorriso aberto e seus olhos amarelo cor de mel — ele diz hoje em dia que eles brilhavam, mas ninguém, nem nós, chegou a ver, o que não quer dizer que não é verdade — ao lado do senhor alto e acorcundado de bengala que imprimia um ritmo divertido ao desfile. Subiram as escadas e o senhor entregou sua filha ao noivo, que tomou suas mãos — não tremia mais. Respondeu o gesto com a cabeça do seu Benjamin com um sorriso sincero. Não estava mais nervoso. Era algo bem maior. Viraram-se de frente para o Estado através do seu representante que celebraria a união. Nesse momento, uma criança daquelas que todos acham graça da espontaneidade mas agradecem por não serem as responsáveis se levantou, apontou para o noivo e gritou “A bunda dele tá toda suja!”, fazendo com que a mãe o puxasse pelo braço com um legítimo Cala a boca, enquanto corava pelo constrangimento tão bem conhecido por todos que um dia tiveram a brilhante ideia de se tornarem pais. Todos riram, até o Estado, pois havia notado antes a sujeira mas era polido demais para dizer qualquer coisa. E seu Benjamin, o primeiro conhecedor dessa piada.

Horas mais tarde, o salão estava quase vazio, de novo. A mesma coisa do começo da história. O noivo, agora esposo, estava sentado no mesmo degrau, olhando a futura-esposa, agora esposa, conversar com sua amiga mais próxima, descalça com os pés sobre a mesa, um copo de vinho na mão. Despertou ao sentir as bengaladas nas costelas, dando espaço para que seu Benjamin se sentasse ao seu lado. Ficaram em silêncio. Os dois sem paletó. As mangas das camisas dobradas. O noivo, agora esposo, falou “seu Benjamin, elas são parecidas?”. O velho olhou sem entender muito bem, só fazendo Hum?, sem abrir a boca. “Ela e a mãe, são parecidas?”. Seu Benjamin soltou o ar lentamente. Olhou para a filha ali, dona de si, dona do mundo, um ponto de calmaria no meio de um salão pós-apocalíptico, e respondeu “Idênticas, meu filho”. Era a primeira vez que o velho chamava o noivo, já sabidamente agora esposo, de algo que não fosse garoto. Deixou o rapaz feliz. “E o senhor tem alguma dica para mim?”, perguntou se divertindo. Virando o rosto para o rapaz, seu Benjamin sorriu igual o porteiro que talvez se chame Paulo fez e, como quem aconselha um menino perdido da mãe, disse com toda a cumplicidade do mundo: “Compre muitos calmantes”.