Problematizando um pouco a política: “LEMBRE-SE: FOI VOCÊ QUEM VOTOU NO TEMER”

Essa frase está sendo usada bastante ultimamente, especialmente agora com o fim do processo de impeachment onde os grupos alinhados com os partidos de esquerda estão saindo às ruas para para pedir a saída do Michel Temer, o presidente oficial a partir de agora.
Antes de tudo precisamos entender qual o papel de um vice-presidente. Segundo a Constituição Federal, Capitulo II, Seção I, Artigo 79:
“Art. 79. Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente.
Parágrafo único. O Vice-Presidente da República, além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar, auxiliará o Presidente, sempre que por ele convocado para missões especiais.”
Quando o Temer tava falando sobre vice decorativo ele não estava brincando! Na prática o Vice-Presidente serve literalmente para substituir a presidente em situações onde ela não pode estar presente.
Antes do golpe militar de 64 nós tinhamos uma votação direta para presidente E para vice-presidente, o problema é que muitas vezes acontecia do vice-presidente ser de um partido de oposição do presidente, o que causava (e causou agora) problemas na estabilidade do governo. A partir da constituição de 88 a eleição de um presidente importa junto o vice-presidente registrado.
Como agora sabemos que o vice-presidente, em teoria, deve ser alguém alinhado com com a presidente, por que a ex-presidente Dilma resolveu escolher o Michel Temer para seu vice, sendo que ele é do PSDB que nunca foi alinhado com os valores do PT?
Simples: estabilidade política. Um presidente por si só não consegue governar sem ter o Congresso colaborando. Ele pode ter as ideias que vão tornar o Brasil a próxima potência a dominar o planeta, se o Congresso não apoiar, nada feito. E como o PMDB tem o maior número de políticos no Congresso, é uma escolha fácil, dada a instabilidade que o governo Dilma vinha sofrendo no final de 2014 (lembrando que ele estava com ela desde 2010). Mas isso ainda dá muito assunto.
Bla bla bla whiskas sachê. O que isso tem a ver com o voto no Temer?
Durante o processo do impeachment o PSDB resolveu romper com o governo, coisa que já vinha sendo esperada desde o vazamento da carta que foi até antes do Eduardo Cunha, então presidente do Congresso, aceitar o pedido de impeachment.
Com isso nós temos aquela instabilidade que acontecia antes da década de 60 e que era pra acabar com o fim da eleição direta para vice-presidente.
Agora vamos pra parte que interessa: por que a frase “Lembre-se: foi você quem votou no Temer” é uma besteira que não deveria ser dita por alguém que se interessa minimamente por política?
Quando nós votamos em uma eleição nós não votamos no político A ou no político B, nós votamos em planos de governo. Isso, é claro, só se aplica para cargos maiores na hierarquia política como Presidente, Governadores e (as vezes) prefeitos. Deputados Federais, Estaduais e Vereadores são eleitos, na maioria das vezes, pela pessoa que são, não pelo plano de governo que apresentam.
Fica claro de ver isso quando não vemos muitas (sub) celebridades concorrendo à esses cargos (acho que só me lembro do Silvio Santos) mas para os outros cargos chove de ex-BBB e famosos de 15 minutos.
Voltando pra eleição de 2014, a Dilma não foi eleita com 54 milhões de votos válidos, mas o plano de governo dela foi eleito com 54 milhões de votos válidos. Mais de 50% da população votante achou que aquele plano era melhor que os outros apresentados.
Não vou falar da legitimidade do processo de impeachment, isso é irrelevante por agora.
Agora que a Dilma foi “impichada”, o Temer assumiu e começou a fazer reformas bastante drásticas em relação com o plano de governo apresentado anteriormente (pra não dizer que são o oposto).
Recapitulando mais de 50% dos votos foram para o Plano de Governo A. O atual presidente está executando o Plano de Governo B. Isso parece errado, certo? Quem votou no Plano de Governo A não queria o Plano de Governo B.
Só que tem outro porém que vejo passar despercebido pelas pessoas que não votaram no Plano de Governo A: elas votaram no Plano de Governo C!
Ou seja: 50% mais votou no Plano de Governo A, 50% menos votou no Plano de Governo C (D, E, F, …) e o plano que realmente está sendo executado é o Plano de Governo B!
Ou seja, atualmente temos um presidente implantando um plano de governado que não foi votado por absolutamente ninguém. Não tem nem o apoio de quem votou pró-Dilma e nem o apoio de quem votou pró-Aécio (levando em conta os 2 que ficaram no segundo turno).
Esse é o verdadeiro golpe contra a democracia. Não é tirar um presidente eleito, não é deixar ele com direitos políticos, é aceitar um plano de governo que nenhum brasileiro aprovou.
Foi erro da ex-presidente? Sem dúvida nenhuma. Ela deveria ter escolhido um vice-presidente realmente alinhado com o plano de governo dela, que não romperia numa crise iminente.
Mas acima disso, é um erro de toda a população que está aceitando isso como um processo democrático. Provavelmente passaremos os próximos 2 anos com um governo indireto e muitos vão agradecer só porque “os petralhas não estão mais no poder”.
É assim que os políticos começam a tirar o poder do povo, criando a ilusão de que é melhor pra ele.
Isso é o que Noam Chomsky (filósofo, escritor, linguista e ativista político) norte-americano chama de Estratégias de Manipulação da Opinião Pública.
Uma delas, “Criar problemas e depois oferecer soluções”, retrata exatamente a situação que vivemos no Brasil hoje:
“Valer-se de crises econômicas para fazer retroceder os avanços conquistados nas leis trabalhistas e promover o desmantelamento dos serviços públicos de assistência aos mais pobres.”
Texto na íntegra aqui: https://hypescience.com/chomsky-e-as-dez-estrategias-para-…/)
Por fim, por que não devemos falar “LEMBRE-SE: FOI VOCÊ QUEM VOTOU NO TEMER”? Porque ninguém vota em políticos e sim em planos de governos. E o plano de governo Temer não foi eleito por ninguém, nem por quem votou em Dilma e nem por quem não votou nela.
Estamos todos pagando o pato enquanto nossas liberdades estão sendo ceifadas por um (plano de) governo golpista.