Todos os motoristas do vice-presidente

Sol no inverno levou à piada de que americanos mexem até no clima | Ronen Zvulun/Reuters
Texto de autoria de Gabriel Toueg, então correspondente em Israel, publicado originalmente no caderno Aliás de O Estado de S. Paulo em 14/3/2010

Os americanos vivem em um filme. A expressão não soa em português tão bem quanto em hebraico. Em Israel, dizer que alguém “vive em um filme” é sugerir que vive nas nuvens, fora da realidade. Dessa vez, a frase foi dita por uma policial israelense de origem russa, de 19 anos e aparentando três menos, servindo no período obrigatório de dois anos para as garotas no Exército de Israel. Diante dela desfilavam os carros da delegação do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, que visitou Jerusalém esta semana. E ela só viu uma pequena parte da “filmagem”. Eu vi muito mais.

Três horas antes de o Air Force 2 pousar no Aeroporto Internacional Ben Gurion, entre Jerusalém e Tel-Aviv, as “gravações” começaram. Não era filme, mas poderia ser. De forma ostensiva, homens do FBI, do Shin Bet israelense, da polícia local e mais uma porção de agentes engravatados e bem armados desfilavam debaixo do forte e surpreendente sol do inverno local. Ficou a piada de que até o clima os norte-americanos ajustam de acordo com sua necessidade. Cuidar da segurança de um vice-presidente em uma região em conflito dese ser mais fácil sem chuva e longe do frio.

Segurança é a palavra-chave. Tudo é checado: pessoas, carros, mochilas, documentos, números, placas de veículos. E certamente também foi checada a ficha completa de quem, como eu, participou como figurante, dirigindo um dos 40 carros da comitiva ou circulando no hotel pomposo e com vista para a Cidade Velha em que sempre se hospedam os líderes norte-americanos.

Ainda no aeroporto, a revelação de um funcionário da Embaixada dos Estados Unidos que já cuidou da visita de mais de uma dezena de líderes norte-americanos a Israel: “Se você está espantado, isso é só um terço do tamanho da produção preparada para o Bush”. Da visita de Bush filho, em 2008, além das duas horas de antecedência e checagens detalhadas para entrar em cada coletiva de imprensa e evento, eu me lembro dos congestionamentos em Jerusalém. A cidade, já intransitável em dias comuns, virou um caos, e o ex-presidente republicano virou a desculpa perfeita de todos os atrasos daqueles dias.

A maior cena de ação na visita de Biden foi a da viagem entre o aeroporto e o hotel em Jerusalém. No caminho, 130 quilômetros por hora, medida que Mr. e Mrs. Biden não entenderiam. Para eles, seriam 80 milhas horárias. Sinais vermelhos. Contramão. Ruas fechadas. Curiosos. Israelenses impacientes pelo trânsito interrompido horas antes de o avião pousar. Policiais e soldados em cada cruzamento. No caminho, a segurança é, de novo, a palavra-chave. Carros do Serviço Secreto norte-americano faziam manobras ao redor do veículo que levava o casal Biden. Em viaturas, os policiais de farda azul-clara lideravam e fechavam a comitiva, depois de registrar tudo que podiam em fotos digitais. Motos de uma unidade especial da polícia israelense disparavam em velocidades que não cabem nos ponteiros, depois reduziam, avançavam e paravam.

No hotel, durante os dias de Biden, houve um entra e sai de seguranças, o tempo todo, com sua pose e seus fones de ouvido característicos. E de motoristas, todos os motoristas do vice-presidente. E, de repente, Tony Blair, o enviado especial da ONU para o Oriente Médio, passa pelo lobby, segura a porta para uma hóspede desavisada e embarca em um carro, que sai em disparada com escolta. Logo mais, um embaixador repete o script. A cada encontro, cada reunião oficial, cada visita, as cenas são as mesmas. A polícia fecha as ruas. Os pedestres são parados nas esquinas. Curiosos esticam o pescoço e turistas alongam os braços, munidos de câmeras digitais, para guardar alguma lembrança. Há tensão e curiosidade.

Seguindo os procedimentos, os motoristas embarcam nos carrões, fecham os vidros fumês, regulam o ar-condicionado, desligam o rádio, ligam o motor, apertam o cinto de segurança e engatam. E esperam. De repente, um auê organizado. Seguranças cercando a figura da vez, todos pulam para dentro dos veículos, que saem em alta velocidade.

Mr. Biden só parte de dentro da garagem do hotel. Não passeia pelo lobby jamais. Se alguém perguntar onde fica seu quarto, ninguém sabe, ninguém viu. A garagem, aliás, tem policiais e soldados respirando a fumaça acumulada, guardando todos os acessos, e proibindo qualquer pessoa de se aproximar dos veículos.

O vice-presidente já foi embora. Na volta do aeroporto, batendo um papo cheio de perguntas de um fuzileiro cuja função exclusiva era a de carregar a bagagem do casal Biden, vejo o verde e amarelo das bandeiras brasileiras na acentuada subida a Jerusalém. Israel recebe neste domingo, com bem menos pompa e circunstância, a primeira visita de um presidente brasileiro em seus 62 anos de história. Lula tentará ensinar a ginga brasileira em negociações de paz. Será o primeiro líder do país em visita oficial a Israel em mais de 130 anos. D. Pedro II esteve na Terra Santa. Era 1876.

Gabriel Toueg é jornalista brasileiro em Israel. Durante uma semana, foi motorista de um dos carros da delegação de Joe Biden

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