Copa
Copa
Confesso: não sinto tesão nenhum pela copa que começa hoje.
Como simpatizar com a Copa das Remoções? Como engolir as gravíssimas violações aos pressupostos mais básicos de um Estado de Direito que aconteceram, acontecem, e certamente acontecerão? Como fechar os olhos para o hiperfaturamento das obras? E acima de tudo: como não contestar a fragilidade do legado deixado por esta Copa do Mundo ao país? Como disse o amigo Max Sarmento, copa é que nem salsicha: você pode até adorar, mas sente nojo de como é feita. E o meu time é o povo brasileiro, e não a seleção (na qual, aliás, nos reconhecemos cada vez menos).
E olha que esperei por décadas, até com alguma ansiedade, pela experiência de uma copa no Brasil. Quase todo mundo já esqueceu, mas as negociações para a realização da Copa por aqui antecederam em muito a escolha do país na década passada. Desde os anos 90 sucessivos governos brasileiros ratificaram o interesse e assumiram compromissos nesse sentido. Sou um bocado pacheco e acompanhei tudo isso. Sonhava com a Copa no Brasil. O sonho desandou.
Aqueles que acusam os críticos desta triste Copa de viralatismo deveriam olhar para o lado e entender que o desânimo que tomou conta de parte da sociedade brasileira não é meramente fruto de manipulação e nem é desmotivado. O misto de galhofa e indiferença que se instalou entre nós não ecoa apenas os interesses de nossa mídia asquerosa. É um sinal veemente do descrédito alcançado pelas instituições públicas. E nesse sentido a percepção indica lucidez e merece reflexão. O relativo fracasso do país em transformar a copa num trampolim para a elevação dos níveis de vida das populações das cidades-sede deve ser imputado a todos os níveis da administração pública: estou de acordo com essa avaliação e em sintonia com esse sentimento.
Mas depreender daí que o governo federal — e o PT — devam ser considerados os principais responsáveis pelo fracasso é resvalar num simplismo medonho. Desde a formação da vontade política, passando pela indicação do país e pela assinatura dos contratos, e chegando na execução das obras e preparação para o evento, o projeto de uma copa brasileira teve caráter suprapartidário. Em se considerando com cuidado as atribuições e erros, vê-se que o governo federal talvez tenha sido dentre as forças políticas aquela que menos pecou. Cometeu erros sérios, é claro. A falta de um cálculo político mais preciso (os membros do governo não sabiam que a percepção coletiva sempre pune o nível federativo e sempre é mais leniente com os níveis estadual e municipal?), a ausência de projetos que compensassem as já previsíveis falhas na execução de obras públicas, a falta de um instrumento específico de controle para as licitações e a farra das construtoras que se seguiu devem em boa medida ser imputadas a este estrato. Para não falar da franca omissão governamental diante da repressão a ativistas, do parcial estado de exceção que ora nos acomete. Mas os níveis de incompetência mais severa e desoladora foram aqueles atingidos por administrações estaduais e municipais: principais responsáveis pela execução das obras e pelo planejamento das ações, de modo geral falharam miseravelmente nessas atribuições. E ademais, revelaram incrível falta de interesse social, sobretudo no caso dos removidos e afetados pelas obras. Pra mim o cálculo foi óbvio: prefeitos e governadores se deram conta de que poderiam falhar à vontade (e irrigar campanhas com contribuições de construtoras), já que a culpa seria depositada sobre as costas do governo federal. Ao que tudo indica este cálculo se revelou exitoso, para o prejuízo da sociedade brasileira como um todo.
Dito isso, me parece que boa parte da esquerda brasileira comete um erro gravíssimo de avaliação ao condenar in extremis a atual administração petista, assimilando-a de forma moralista e pouco refletida ao ramerrão da política nacional. Está grandemente iludido o esquerdista que assume a tese segundo a qual “o PT ficou igual a todos os outros partidos”. Pelamordedeus pessoal, acordem! O PT contemplou expectativas que foram bandeiras históricas das esquerdas brasileiras por gerações. Sem tempo e vontade de levantar uma lista de realizações notável pela extensão — os dados estão por aí para quem quiser procurar — não podemos nos esquecer que a administração petista foi uma das únicas em toda a história política nacional a NÃO RIFAR AS CLASSES TRABALHADORAS EM UM CONTEXTO DE CRISE. Essa defesa por si só indica um dos mais elevados patamares de justiça social ao qual podemos aspirar. Apenas certa miopia das esquerdas contemporâneas diante da imensa importância de uma empregabilidade ampla para o conjunto dos trabalhadores (e sobretudo para aqueles das classes C, D e E, que não contam com a colcha de proteção das classes médias tradicionais) explica uma falta de foco tão manifesta.
Diante das forças políticas que atuam em nosso país — e consideradas todas as questões que afetam direta ou indiretamente a vida da população — a diferença de qualidade do PT na gestão da coisa pública não é só manifesta e ampla: é escorchante. Os diversos grupos sociais entram nos cálculos políticos do PT de forma substancial e não instrumental, mesmo que distorções e equívocos aconteçam regularmente nas ações do partido — e que muitas dessas não sejam legitimamente imputáveis à famigerada governabilidade. O PT não pratica a governança cosmética que caracteriza seu principal adversário, cuja principal característica é simplesmente o não atendimento — e mascaramento descarado — das necessidades e aspirações das maiorias sociais. Acredito no interesse de muitas pautas emergentes na esquerda contemporânea, mas a relativa ausência de solidariedade diante do avanço social, econômico e simbólico das classes trabalhadoras (avanço que continua acontecendo durante o governo Dilma) me dá quase tanto nojo quanto as falhas do estado brasileiro na preparação para a Copa do Mundo! Não reconhecer a diversidade das posições subjetivas e se recusar a uma socialização mais ampla dos juízos pessoais é uma das atitudes que mais rendeu equívocos à esquerda. Minha sensibilidade pessoal foi ferida muitas vezes pelos governos federais do PT: mas não posso formular juízos que envolvem o coletivo sem dar peso aos diversos estratos que compõem a coletividade.
E assim: acho que não verei muitos jogos nessa Copa. Talvez nenhum. Mas tenho certeza de que votarei no partido mais bem-sucedido em elevar a qualidade de vida da população brasileira em seu conjunto. A avaliação mais abrangente indica que este partido continua sendo o PT. Que também continua sendo o partido que apresenta os canais mais significativos de diálogo com o conjunto das forças que compõem a sociedade brasileira.