Cozinha

Sempre curtiu botar a mão na massa. Viajava pelos mais diversos caminhos gustativos. Abria um vinho, sujava a cozinha toda. Era farinha até nos cabelos… uma explosão de descobertas a cada garfada.

Cozinhava porque sim. Porque gostava, porque queria, porque distraía. Sem medida, sem receita, sem macete. Seguindo a intuição e a boa mão herdada dos antepassados bons de garfo e paladar.

Vez ou outra, dividia a cozinha e as garfadas com quem queria. Acontece que nem toda a gente tá disposta a embarcar e entender que especificadamente naquilo, pra aproveitar, tem que se lambuzar.

— Tá faltando sal, uma pitada e resolve. Na verdade… acho que o tempero também não tá dos melhores. Já tentou fazer de outro jeito? Às vezes é a panela. Aumenta esse fogo! Servindo em prato de vidro? E a porcelana? Pensando bem… vai ver a mão que não é boa.

E foi assim que os ânimos ferveram a ponto de cozer uma porção inteirinha de nhoque. Pimenta malagueta perdia feio na vermelhidão das bochechas coradas de raiva.

Opa, peraí! Na minha cozinha quem manda sou eu, Mamacita. Até divido o prato com quem se dispõe a descobrir comigo novos sabores, mas esse fogão… ah, esse fogão deixa que eu piloto.