O intelectual das baquetas


Max Roach: em conversa no Macksound Plaza, em 2000, não quis saber de papo de baterista . Com ele, ao invés dos solos virtuosos surgiram peças conceituais de percussão. Foto de 1947 por William Gottlieb/Library of Congress via Flickr

Os anos de 1999 e 2000 foram especiais para os brasileiros aficcionados em jazz. Pode-se dizer que foram anos únicos para aqueles que têm simpatia por um solo de bateria. Naquela virada do milênio, o extinto Free Jazz Festival trouxe duas lendas para se apresentarem no país: Roy Haynes e Max Roach. Ambos haviam iniciado a carreira em clubes do Harlem nos 1940s, em Nova York, tocando nas sessões rítmicas do Bebop ao lado de Charlie Parker, Coleman Hawkins e Dizzie Gillespie. Eram, e ainda são, representantes máximos do nascimento da bateria moderna.

Dividindo as glórias com outros bateristas, como Kenny Clarke e Art Blakey, Haynes e Roach introduziram novas técnicas que tornavam o agrupamento de pratos e tambores em um instrumento mais versátil, que se distanciava da marcação grave e pesada que faziam os ritmistas da era das big-bands. As inovações abriram caminho para que novos estilos mais arrojados surgissem dentro do jazz, como o Cool e o Hard-bop, eventualmente o Free Jazz.

Max Roach morreu no dia 15 de agosto de 2007, aos 83 anos, em Nova York. Haynes continua em atividade, completou 91 anos, e se tornou o último grande músico da era do Bebop ainda vivo. Quando estiveram no Brasil, tive a oportunidade de entrevistá-los. Eu era um estudante de jornalismo com aspirações a baterista e a visita dos mestres era a chance de unir as duas coisas. As entrevistas foram concedidas a uma revista especializada para percussionistas, a Batera (já extinta).

Haynes, que veio em 1999, resistiu em me receber. Após uma certa insistência de minha parte, avisou através da assessora de imprensa que poderia falar por alguns minutos comigo em seu quarto de hotel em São Paulo. Era uma noite de sábado e o veterano da bateria não se mostrou muito receptivo: a TV permaneceu ligada e ele me disse que não era preciso fechar a porta do quarto. Sua resposta à minha primeira pergunta mostrou que o papo não seria dos mais fáceis. Pedi a ele que analisasse quais as diferenças entre seu estilo em um disco que gravara em 1959 com o saxofonista Sonny Rolins e com o das sessões que fizera com o guitarrista Pat Metheny, já na década de 90. “Meu estilo não mudou nada, sempre fui moderno”, disparou sem pestanejar. Nos minutos que se seguiram, Haynes enumerou uma série de discos com sua participação que considerava inovadores. Eu conhecia poucos, tive que admitir, ao que ele emendou. “Você não conhece nada de música.”

Exatamente um ano depois, me sentei numa mesa do restaurante do Macksound Plaza para entrevistar Max Roach. O encontro foi marcado sem intermediação de assessores. No dia anterior, poucas horas antes de seu show, liguei diretamente em seu quarto de hotel. Ele disse que não haveria problema algum em falar com uma revista dedicada a bateristas.

Mas embora eu estivesse ávido para extrair dele algumas técnicas ou segredos que pudessem saciar os leitores , Roach não falou coisa alguma sobre pratos, marcas de tambores e outros detalhes constantemente revisados nas publicações dirigidas.

Roach estava empenhado em dizer que o importante de sua carreira fora ter estudado música a fundo. Lembrou que estivera na Manhattan Scholl of Music, conceituada faculdade de música nova-iorquina onde se formara em composição. Eu lhe perguntei como se sentiu quando se tornou um dos primeiros bateristas a liderar conjuntos de jazz; seus quartetos e quintetos revelaram diversos músicos jovens, como o trompetista Clifford Brow. A resposta foi bastante ilustrativa: bons bateristas são bons pianistas e compositores. Era seu caso. No entanto, ao contrário de Haynes, ele não aceitava com facilidade a pecha de moderno. “Antes de mim, Kenny Clarke já estava fazendo tudo aquilo”, disse sobre as inovações técnicas.

A modéstia ofuscava toda a diferença entre Roach e seus companheiros bateristas. Com ele, ao invés dos solos virtuosos surgiram peças conceituais de percussão. Até seus últimos shows, não deixou de apresentar o famoso “Mr Hi-hat”, quando utilizava apenas uma das peças da bateria (o hi-hat) e dela extraia uma infinidade de sons.

Nos anos 70, formou o M Boom, grupo de percussão que misturava peças sinfônicas com bateria. Como definiu um documentário sobre os artistas da gravadora Blue Note, Max Roach era “o intelectual” entre seus pares.

Durante a entrevista, Roach colocou suas concepções ‘iconoclastas’ para o instrumento em uma perspectiva bem mais ampla. Disse que elas surgiam como fruto da liberdade proporcionada pelo jazz.

Fez uma observação que me lembro com clareza cristalina. “A divisão racial era terrível, mas por outro lado quando se estava no Harlem havia uma criatividade e liberdade incríveis.”

Nascido na Carolina do Norte e crescido no Harlem, Roach se tornou um música engajado na luta contra a discriminação racial. Foi parceiro de Martin Luther King e Malcom X nas mobilizações, e compôs peças musicais com fundo político, como “We insist — Freedom Now”.

Quando contei a um colega jornalista o aperto que passara na entrevista com Roy Haynes, ele mencionou que o veterano compartilhava algumas idéias de Miles Davis e não ia muito com a cara de jornalistas brancos. Eu, sinceramente, não havia cogitado a possibilidade. Mas fazia todo sentido após a entrevista com Max Roach. No fundo, como um novato com uma missão, eu buscava dicas sobre técnicas de bateria, suas músicas e instrumentos favoritos. Mas aos pais da bateria moderna, isso parecia apenas secundário.

PS: Uma versão deste texto foi publicada no caderno EU&Fim de Semana do Valor Econômico em Agosto de 2007

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