Páscoa, Renascimento, Emilio O., et e cetera…

Sim é um mistério como essas coisas aqui embaixo vão juntas, te convido a me acompanhar na topografia da mente, onde faço essa costura.

O Emílio O. é um que se encaixa perfeitamente no que a Hannah Arendt chamou de “Banalidade do Mal”. O mal é banal e é cometido por gente de alma medíocre, gente que, como ele, justifica que a corrupção já estava lá, e tendo poder, influência e contatos nada fez pra mudar o quadro. Ao contrário disso, pragmático e cínico, como a arrogância de sua postura revela, o transformou num modelo de gestão, e o pôs a serviço de quem pagasse por seus serviços bancários ou rendesse mais aos seus interesses estratégicos. Encontrou o par perfeito no seu Amigo e sua empresa política.

O meu bom amigo Deilson Anomal acrescentou uma critica construtiva, que me fez elaborar minha colocação, ele disse:

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“Só não concordo com a comparação porque Eichmann era um “serviçal” às ordens do sistema. Um homem sem atitude. Um reles cumpridor de ordens sem nenhuma condição moral e ética para dizer:

“NÃO. NÃO FAREI ISSO”.

“ENTÃO VAIS MORRER”.

“CONTINUO DIZENDO QUE NÃO FAREI ISSO”.

E Emílio ET caterva não têm nada de Eichmann.

São impositivos. Mas sem caráter. Sem escrúpulos. Venderiam os filhos, (como ele vendeu) se fosse por um bom dinheiro.

Daí, embora pareça (e nesse ponto eu concordo contigo) banalidade do mal, porque de fato é o que é, não é a mesma banalidade percebida pela Hannah Arendt.

É outra. A meu ver, muito mais grave.”

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Concordo plenamente, por isso noutro post disse que a associação ORCRIM Empreiteira com a ORCRIM Partido Político é algo pior e de outro nível que qualquer Máfia Cosa Nostra. Pela sua abrangência, influencia social e “legalidade” operacional é algo que se assemelha aos maiores governos que se tornaram criminosos mundo afora, dentro da legalidade de sua lógica interna, mas que no caos de nosso país tem uma característica que não conseguimos definir. Nosso governo real, a sociedade Limitada entre os exploradores da sociedade total, compostos do governo político e do empresariado predatório, é uma coisa conhecida, que estamos com surpresa e sobressalto constante passando a entender que se deformou ao ponto de se tornar danosa à sociedade, quase uma deformidade fatal.

O Emilio O. apresenta um argumento em que o mal institucional é o status quo sob o qual ele não tinha escolha senão trabalhar com a coisa posta. Dizendo isso ele oferece a presunção oculta de que o mal é enfim a coisa comum, dado posto, sob o qual temos que operar pragmaticamente, senão o mundo não funciona como queremos.

É uma continuação da crença de que o homem é o predador do homem, de que quando vence o mais forte ou o mais preparado a coisa toda está justificada pela própria natureza das “coisas como elas são”. Junto disso vai posto de que ele como empresa e empresário (assim como presume o Lula como político) se tornou “grande demais pra quebrar” já que conhece “como as coisas funcionam de fato” e já que soube inteligentemente trabalhar para vencer nesse mundo cão. Uma moral de resultados… Toda uma estrutura de crenças que serve a um “patrão” oculto, o mal do mundo, e deflete a responsabilidade pessoal e moral das escolhas terminais e de risco “mortal”, do tipo:

“NÃO, NÃO FAREI ISSO”.

“ENTÃO VAIS MORRER”.

“CONTINUO DIZENDO QUE NÃO FAREI ISSO”.

Apresentar a presunção oculta de que o mal é banal, ainda que num argumento solerte pra defender a própria vida, ou seus privilégios, é a “normose” e suma safadeza daquele que não pretende morrer nunca, sequer simbolicamente numa confissão honesta para se transformar como pessoa. Essa é uma característica do ego que levada as ultimas consequências cria grande sofrimento, e numa pessoa com grande poder cria catástrofes.

Brasileiros nunca fomos muito bons em comparar medidas tomadas e efeitos resultantes. Nunca guiamos nossas ações executivas, legislativas, judiciárias e econômicas por dados comparáveis entre si e ao longo do tempo. Também parece que nossa memória tanto da historia nacional como da mundial não nos serve de muita coisa, por isso não reconhecemos facilmente a catástrofe em que nos metemos com estes que estamos tentando julgar e que nos governavam tanto aberta como ocultamente.

A dificuldade advém da nossa visão nebulosa da cadeia de eventos e relações que estamos tentando traçar. Pela dimensão e trabalho de ocultamento já seria tarefa complexa, manipulada pelos próprios que tem o maior interesse que o julgamento dos fatos lhes seja generoso é praticamente impossivel. O jogo como está armado os beneficia, sempre.

Acima de toda manipulação e confusão temos que reconhecer que a dimensão do crime contra a sociedade que é demonstrada pela historicidade, com seus agentes já claramente conhecidos e pelas suas ações já bem levantadas, tem contornos de uma tragédia comparável aos maiores crimes sociopolíticos de todos os tempos. Ainda que tenham uma feição nova, por não serem crimes de guerra, são de uma destrutividade próxima, a qual apesar de não termos elementos claros para aferir não diminuem sua gravidade e devastação. São crimes de REALPOLITIK, da política como guerra.

A sutileza ladina do crime, e seu enraizamento na normalidade da vida e das instituições e pessoas comuns, deveria nos fazer ainda mais exigentes no que tange a sua delimitação e enquadramento.

Uma exigência de responsabilidade (accountability) pessoal e integral pelos atos, compatível com a liberdade de realiza-los e de moralmente avalia-los não pode ser imposta top down, mas que tem que vir da sociedade inteira, cansada de tanta cortina de fumaça e de deslizamento de culpabilidade. Esta teria que ser uma mudança de atitude cultural, por parte de cada um de nós. A nitidez da ação moral correta e da responsabilidade sobre os atos não pode ser banalizada sob um pensar “pragmático”, e falso, de que é assim que as coisas são, o mal graça e com ele temos que conviver. Esse é o caminho certo para um buraco perene.

A mesma operação psicológica que faz um Emilio O., ou um Lula (ou qualquer um de nós), para se manter como um ego integrado, como um sujeito coerente, é que o mal é algo fora de mim sobre o qual eu não tenho poder ou responsabilidade. Talvez seja a crença oculta, subconsciente, de que no fim esse mundo é mesmo do capeta (personificação do mal), e que ele é o comandante supremo sob o qual eu tenho que trabalhar. Falo isso simbolicamente, mas a estrutura de crença que leva uma pessoa a se deformar psicológica e moralmente, ao ponto de se esquivar de responsabilidades pessoais é exatamente essa esquizofrenia de um sujeito oculto na ação, um poder sob o qual eu não tenho escolha senão me curvar e sob o qual operar. Eu não acredito na maldade como uma coisa intrínseca do ser humano, penso nela como uma deformação psicológica que passa pelo tipo de patologia de crença espiritual (psicologica e moral) que tentei delinear acima. E é contra essa patologia moral que temos que trabalhar, a responsabilidade é de quem faz. Que quem faz responda, repare, conserte, compense, redima, expie…

Acredito que a confissão completa, acompanhada do reconhecimento da falha é algo que pode começar a redenção do homem, e ser o inicio de um caminho de retorno e de cura. Essas hoje parecem noções fora de época, ultrapassadas, e nos parecem tingidas de perseguições inquisitoriais. Mas a redenção completa do homem passa pelo reconhecimento de seu poder absoluto diante das situações, e da vitalidade e da necessidade de relações positivas e humanas com os outros, seus pares na sociedade em que vive, na qual desempenha suas ações. É nesta sociedade que se reconhecem o seu nome, onde se conquistam os seus títulos e tudo que se é como pessoa. A confissão completa, ainda que intima, é uma rendição à própria essencialidade da alma, e das nossas relações com o mundo, se feita com integridade e verdade pode levar a redenção, ao renascimento, e se essa for uma experiência coletiva poderia levar ao rejuvenescer (Jovi, Júpiter, Jeová de novo) nas relações de uma sociedade cansada e agrilhoada a capitães do “mal”.

A política instaurada como realpolitik é tratada como guerra entre facções de interesses, ou para colocar um aspecto de batalha moral, uma guerra de ideologias conflitantes. A instauração desse modo de fazer política aqui no Brasil talvez tenha acontecido de um modo não claramente percebido, com o crescimento político da esquerda, devido as estratégias implícitas ao seu ideário. Aqui o movimento foi “soft”, Paz e Amor e amistoso, com a chegada ao poder por meio do processo eleitoral. Nada haveria de errado nisso se o objetivo não fosse se manter continuadamente no poder, impedindo a alternância democrática, por meios não democráticos. O que já era uma tendência, a corrupção não regrada e sujeita a interesses caóticos, se tornou um modelo de governo com objetivos coordenados e centralizados, numa extensão que acredito seja bastante nova em nosso planeta. Nossa capacidade de entender fica reduzida pois não reconhecemos o modelo de guerra da realpolitik como sendo nocivo, nem vemos claramente os interesses que estão por trás da afinidade e coordenação de mentes pragmáticas e resistentes. Também não conhecemos modos de cercar e diminuir esse processo deletério, pois ele se dá em camadas muito profundas de nosso tecido social, e não se reduz apenas a pessoas especificas, mas se ancora em todo um modelo cultural, e numa estrutura sociológica que tem raízes no passado de escravidão e de exclusão social, bem como num controle de elites fazendárias e fazendeiras, com uma identidade nacional voltada para o exterior.

Ainda que por nossos padrões atuais fosse socialmente injusto, o que antes era aparentemente estável se desestabilizou, e tinha que se desestabilizar mesmo. O que poderia ser classificado como a ultima geração dos senhores de engenho, uma casta nunca desafiada se viu cada vez mais definida e enquadrada por uma esquerda ideológica. A proto-direita dominante e complacente em sua posição, que foi em nossa história recente positiva e politicamente sacudida pela ascensão da esquerda ideológica, a qual tinha um modelo estratégico e uma compreensão mais elaborada das relações de poder, e um mapa para atingi-lo.

O que ocorre é que o processo guerreiro subjacente às nossas relações políticas atuais, infectadas pelo modelo antagonista e guerreiro, tem socialmente, em prazo mais estendido o mesmo o custo erosivo e estúpido equivalente ao despejar de bombas nesta ou naquela localidade, mas se dá de modo muito mais difícil de aferir, pois é microscópico, estendido no tempo, o que o faz aparentemente “normal”.

Não é uma crise aguda, mas dentro de um modelo econômico é um processo continuado de redução de investimento e crescimento, gerando uma depressão cronica e costumeira aonde só podemos sobreviver pelo improviso, regredindo a processos mais ineficientes, simples, arcaicos. Dentro de um modelo espiritual e moral entretanto as possibilidades se expandem infinitamente. Me refiro a “espiritual” como um espaço liberto de todos os parâmetros e limitações materiais, inclusive às limitações da mente investida neste o naquele modelo mental, me refiro a “moral” como uma visão estruturada que inclua o beneficio de toda vida nesse planeta, vida que é um investimento de bilhões de anos num processo magnifico e que nos colocou aqui e agora. Para mim é claro que a aferição dessa erosão, desse consumo de vitalidade, e do problema do nosso investimento coletivo nesse modelo especifico de sociedade que tentamos até aqui, só pode dar por um processo imaginativo, pois os números, os argumentos, o legalismo, e nossa presunção do costumeiro e do correto, as vezes mais enganam e escondem que revelam.

O aprendizado imaginativo que compara o que foi, com o que poderia ter sido, tem que extrapolar os limites do jogo traçado pelas leis, nesse caso dominadas pelos acusados, e tem a exigência do ideal sobre o real, do sonho sobre o concreto, do desejado sobre o que foi conquistado. Por isso é necessária a criação de um quadro muito mais amplo para tratar de nossa doença, ou de nossas dificuldades fatais como sociedade democrática, justa e prospera.

É inegável que pela destruição de valor gerada pela corrupção concentrada de nível atômico que atingimos, permitida pelo quadro de relações sociais que estabelecemos, não só paramos no tempo, como possivelmente regredimos a um estágio anterior, ou ainda, nos condena a não encontramos o tempo e o espaço em que realmente desejamos viver.

Não vou me concentrar no mais grave, que é a instalação do processo guerreiro nas relações entre as pessoas e nos instrumentos de analise de nossa vida brasileira, esse diagnóstico necessita de tratados e talvez só o tempo vá revelar os seus contornos e nocividade. Aqui só consigo apontar para as doenças de “pele” superficiais e distribuídas por quase todo o corpo que hoje habitamos como sociedade. Não que esse corpo, com essa forma seja o ideal, provavelmente precisamos abandona-lo em toda sua arquitetura para migrar para algo realmente novo e vivo. Mas por exemplo, quando olhamos as cidades, em todo local o que se vê são sinais de decadência patentes na falta de manutenção de prédios de negócios fechados, na qualidade e peso decrescente dos produtos, nas infra estruturas insuficientes e mal cuidadas. É uma erosão microscópica que se torna costumeira, que vem devagar e parece algo natural, mas que eventualmente leva a um desabastecimento critico de algum produto essencial, a um sistema de saúde falido e sem recursos, a uma previdencia social sem futuro, a uma barreira rompida que causa uma tragédia ecológica, a um presidio cheio de pré-psicopatas armados que vira um caldeirão de sangue. Essas coisas não são banais, nem corriqueiras, são a decorrência de nosso “business as usual” Brasileiro, que necessita urgentemente de mudança. O modelo todo está com problemas profundos, isso no mundo inteiro, mas nossa casa é nossa responsabilidade.

O processo deletério de destruição de riqueza e de roubo de potencial, por má aplicação, má administração, roubo, lavagem de dinheiro, é a destruição odiosa de nossa nação por gente que apresenta o “mal” como uma coisa natural, por gente que magneticamente se coloca no centro de um poder que não tem a capacidade de controlar e de direcionar ou que se o faz é em proveito próprio e dos seus, num modelo centralizador ultrapassado, sequestrável, piramidal, de foco econômico e monetário. E nesse caso talvez ninguém tenha essa capacidade individual, só uma democracia real pode permitir que nosso máximo potencial coletivo seja atingido, que novos caminhos sejam encontrados, e nossa vitalidade e criatividade não sejam drenadas por ralos negros de estupidez e obtusidade, por má intenção criminosa ou meras ignorância e incompetência. Nosso sonho tem que ir muito além da camisa de força que nos coloca a serviço de um processo que está nos matando e matando o planeta, nosso Brasil ainda pode ser uma estrela brilhante no meio de um mundo humano que está perdido e sem rumo. A gente precisa olhar muito além, mais fundo, e abrir nossos corações e mentes para um pulo corajoso, criativo. Precisamos juntos criar algo novo e inusitado, mas ao mesmo tempo promissor, humano. Chega de ficar na mão de gente pequena, chega de ser gente pequena, precisamos todos crescer como pessoas e deixar de nos curvar à banalidade do mal.

Que esta Páscoa nos inspire a coragem um renascer pleno, num mundo novo de nossa criação inteligente. Prosperidade e Felicidade para todos.

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