Up from Eden — Ken Wilber

POLIS E PRAXIS

Recortado de Up from Eden, de Ken Wilber

[Já existe uma tradução de Ary Raynsford dessa mesma obra que recomendo, essa tradução não é a dele mas uma que fiz diretamente do texto original e pode conter algumas incompatibilidades de termos com as traduções da teoria integral para o português, naturalmente busquei manter a coerência, e tambem fornecer algum contexto para os que desconhecem a Abordagem Integral. O livro Up from Eden é de uma fase mais antiga do autor, e trata principalmente de uma visão psicológica que foi tratada como Psicologia Transpessoal, não obstante ao meu ver oferece uma visão bastante útil, aqui nesse recorte, da relação entre polis e uma pratica pessoal produtiva e concomitante com o ambiente de interação. O capitulo do texto recortado segue por mais 18 páginas no tema.]

A relação típica dos [N.doT. — níveis conscienciais dos] uroboros alimentares (1) envolve o alimento. A relação típica dos [N.doT. — que estão nos níveis conscienciais do] corpo-tifonico envolve emoção-sexualidade. Estas, no entanto, são relações que são compartilhadas, em um grau ou outro, com o resto da natureza — isto é, são capacidades sub-humanas [N.doT. — ainda não propriamente humanas]. Mas a relação típica do membership self [N.doT. — o nível consciencial de um “eu” de adesão, pertencimento] envolve a comunicação verbal. E foi o surgimento da participação verbal e da comunicação intersubjetiva (através da linguagem) que permitiu e constituiu a existência do que os gregos elogiariam (identificaram) como Polis. Polis foi a primeira arena da relação verdadeiramente humana, a relação encontrada em nenhum outro lugar na natureza, a relação que especificamente definiu a nova espécie de Homo Sapiens. Não é de admirar que as duas definições mais famosas do homem sejam: “O homem é o animal simbólico” (Cassirer), e, “O homem é o animal da Polis (Aristóteles).

Agora, eu uso “polis”, que é a palavra grega para cidade-estado, em seu sentido original e idealista, como sendo uma comunidade humana compartilhada, e uma comunidade baseada na comunicação sem restrições (através da linguagem). No melhor sentido, Polis é simplesmente a arena da interação participativa (membership), uma forma superior de unidade baseada na troca de símbolos transcendentes. Você e eu estamos agora trocando ideias (embora unilateralmente devido ao meio de impressão, é melhor imaginar que estamos falando de tudo isso), e essa troca é um ato de comunicação verbal e de compartilhamento intersubjetivo completamente além das capacidades subumanas do resto da natureza e das capacidades sub-humanas de nossos próprios organismos. Polis, então, é a arena do membership self [N.doT — do eu interativo e participativo, membro da comunidade]

Agora a atividade em polis é chamada Praxis. Praxis significa, no sentido estrito, “prática”. Mas, como tradicionalmente usado, por Aristóteles, a praxis é muito mais do que isso; ela é o comportamento moral intencional, iluminado, perseguido na companhia da polis. É uma atividade significativa e concomitante, não baseada em carências e desejos sub-humanos, mas baseada no reconhecimento humano mútuo e na comunicação sem restrições. Além de se envolver em alimentação urobórica e sexo tifônico, [N.doT. — níveis ainda não humanos, níveis proto-humanos, níveis básicos daonde pode emergir o Humano como um holon mais complexo], nossa vida como indivíduos verdadeiramente humanos é uma vida de prática social e atividade social, uma vida que nos leva além do corpo animal e nos introduz em uma comunidade humana compartilhada de símbolos, discursos, objetivos e ideais. Só posso tornar-me verdadeiramente humano na polis, ou comunidade simbólica [N.doT. — de interagentes humanos], e só posso exercer minha humanidade na práxis, no engajamento social e no compartilhamento com outros comunicadores. E tudo isso é tornado possível pela linguagem (2), que permite a troca intersubjetiva de idéias, de modo que quando você e eu realmente nos comunicamos, você e eu literalmente entramos na psique do outro em uma partilha de entendimento. A arena dessa partilha é a polis; O exercício dessa partilha é a práxis. É uma vergonha que a polis tenha sido degradada para significar “política” e praxis para significar “moralismo” — eles realmente contêm idéias muito mais nobres do que tudo isso.

Para Aristóteles, a práxis, ou atividade social iluminada e moral não deve ser confundida com techne, ou atividade tecnológica. Ambos dependem da mentalidade racional e linguística, mas, além disso, eles são radicalmente diferentes. A razão é básica e profunda: o techne trata da manipulação de níveis sub-humanos, de bens materiais, de natureza, de produção de alimentos, de investigações empíricas (sensoriais animais), de inovações tecnológicas, etc. Mas a práxis trata da interação humana e da troca de entendimentos compartilhados. Não é o uso da mente para sondar a natureza, mas o uso da mente para encontrar outra mente. Techne é o nivel 3/4 assaltando o nivel 1/2. Praxis é o exercício de nível 3/4 em comunhão com outro nível 3/4: humano a humano, não humano a subumano. E, como disse Habermas, a catástrofe dos tempos modernos (e da moderna teoria sociológica e psicológica) é que a práxis foi reduzida a techne.

Agora, a consciência polis, ou consciência de pertencimento, transcende (mas inclui) as necessidades e características dos estágios sub-humanos (1/2) que a precederam na evolução. Com a polis-práxis, a consciência assume suas primeiras características verdadeiramente humanas e se mostra mais do que (mas não separada) das leis da física, biologia, natureza, planta e animal. A mente de adesão e participação, desde o momento em que começava a transcender o corpo, foi introduzida em um reino inteiramente novo e “super-orgânico”, cujas leis são escritas com símbolos diferentes da física e da biologia. O homem já não vivia apenas no mundo da natureza, mas também no mundo da cultura, não mais apenas pelos instintos, mas também na aprendizagem verbal, não mais a natureza, mas a história, um domínio inteiramente mais elevado, o da polis, e possuía leis inteiramente mais elevadas, as da práxis social.

(1) Toda a teoria integral se baseia em níveis holonicos que vão do básico ao complexo, mas que são interdependentes para existir, e que pressupõe uma relação orgânica e integrada para um funcionamento sadio (não patológico).

(2) Pela abordagem de redes até pode-se criticar que a linguagem simbólica não seja exatamente o elemento único e final da comunicação humanizante — mas inequivocamente esta é um elemento entre outros de suma importância nesse processo da vida sócio-politica-humana.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.