Nota sobre ela

Ou como a chuva canta canções de amor

Aquela era uma noite chuvosa.

Não por fora. Por dentro. Uma noite chuvosa encerrada no breu que há em mim. Ainda assim, havia algo bom. Nas gostas que respingavam ousadas e pesadas sobre a minha superfície, notei a melodia doce daquela velha música acústica e improvisada que, ora ou outra, eu chamava de amor.

Era o meu amor por ela. Ele cintilava na ponta de cada pequena gota, ecoava em coro no cair da chuva e se espalhava por todo meu eu. Me abraçava, sim, e me mantinha aquecido contra a tempestade.

Não. A bem da verdade, penso que ele era a tempestade. Não havia outra explicação: ele era tudo, estava em tudo, fazia-se em tudo, assim como aquele seu sorriso solto que lembra um longo e interminável verão. Era aquele amor lento e gostoso, como o crepitar da fogueira, que ao som da chuva não se poupava em cantar esperança, em inspirar cuidado e em construir abraços encharcados de segurança.

No fim das contas, era uma noite chuvosa. E tudo em que eu podia pensar — a minha alma sorridente testemunha — , fosse para trás ou para a frente, era no meu amor por ela.