Brasileiro não gosta de coisa boa
Nível de transpiração: 3
O próprio brasileiro parece não ter noção do quanto o seu país é plural, multicultural e “diferentão”. Exercemos por natureza um carisma e até certo espanto do mundo, pelo simples fato de sermos brasileiros. O Brasil é avesso à tudo, imaginemos hipoteticamente se o país fosse uma ave, pousada em uma grande arvore frutífera em meio às outras aves do planeta — todas em tons pastéis, cinzas ou negros — o Brasil por sua vez, reluziria suas muitas cores de Papagaio do papo roxo, ou quem sabe de Saíra-sete-cores.

Nelson Rodrigues já alertava há muitos anos atrás sobre o complexo de “vira-lata”, ou já que falamos de aves, “complexo do abutre” isso é, uma inferioridade em face do resto do mundo, na que o brasileiro voluntariamente se coloca; é quase como um narcisismo às avessas. Convenhamos que a história não ajuda muito em termos cívicos ou nacionais, a autoestima brasileira é baixa mesmo ante todas aquelas aves escuras.
Devemos prestar atenção para a “imagem” que guardamos de algo, os grandes conceitos estereotipados. Já que nem sempre uma verdade psicológica quer dizer uma “verdade real”. A música é um bom exemplo, pois quantos já não ouviram que “brasileiro não gosta de coisa boa”, como não? O país é berço e viu reverberar vozes como as de Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Caetano, Cazuza, Milton e Elis. Tal afirmação não seria prudente, muito menos justa.
Utilizo-me então, de um termo especialmente alcunhado para referir-se às artes: o mainstream. Não é correto, nem ético tomar o gosto musical predominante como se fosse o geral/absoluto; seria um bocado superficial além de generalista, já que não seriam considerados critérios locais, sociais, etários, comerciais, etc.

Seguramente são inúmeros os lares brasileiros onde se ouve musica de qualidade; parece que não, porque isto nem sempre se encontra à disposição da audiência em rádios ou canais diversos. Assuntos que exaltam o Brasil estão “fora de moda”, ainda não foram inseridos, ou já não interessam ao ciclo vicioso (ou virtuoso) do mainstream. A fotografia documental talvez seja um dos poucos escaparates, onde a pura beleza nacional se vê retratada; os referenciais históricos permitem que o mainstream compactue com a simplicidade e o natural.
Agora voltando ao exemplo da música, não há motivos para desespero ela ainda não foi extinta, persiste porém o perigo é eminente. Considero que “qualidade” seja um quesito difícil de definir, entretanto leia-se “boa”, àquela que enaltece alguns valores, não somente os comerciais. Uma musica que seja socialmente comprometida através por exemplo, de uma mensagem de “mudança”; contendo harmonia, letra e melodia bem trabalhada. Esta “boa musica”, que continua sim sendo produzida, voa quietinha, a selva assim ensinou. Ela é como algumas aves brasileiras ameaçadas, que ainda resistem nas matas silvestres como a Arara azul ou o Chorozinho-do-papo-preto.

