Mega Man Legacy Collection e preservação de games

Recentemente comecei a jogar Mega Man Legacy Collection (presente da minha namorada ❤), uma coleção dos seis clássicos do NES, no PS4. E notei algo que me fascinou: esse jogo não só é uma carta de amor ao material fonte, mas é uma cápsula do tempo, uma relíquia de outra era dos videogames perfeitamente preservada. Isso me fez pensar sobre uma questão importante: a preservação de games, uma mídia intrinsecamente interativa e totalmente presa a um determinado tempo e um determinado hardware. Deixa eu explicar melhor: um determinado jogo (de console, ao menos) é lançado e, desconsiderando a atual onda de remasters e remakes, é correspondente àquele console. É uma mídia ligada a uma máquina específica, de um tempo específico. Como preservar isso para daqui há, digamos, 20 anos, uma pessoa consiga ter acesso fácil e indolor àquilo que é fundamentalmente ligado a uma tecnologia passada?

Acredito que uma das respostas está no jeito em que Mega Man Legacy Collection foi elaborado.

Mega Man 1 rodando no PS4.

Mega Man Legacy Collection é um excelente jogo; uma coleção dos seis primeiros jogos da série — todos do NES. Ele mostra que a Capcom não esqueceu completamente do blue bomber como achávamos, e mais do que isso, o jogo é simplesmente uma carta de amor à série. Além dos jogos, a compilação tem MUITOS extras, como challenge modes (que apresentam partes de várias fases dos jogos remixadas entre si, às vezes com algum objetivo específico e geralmente bem difíceis), uma gigantesca galeria de artes, opções de escolha entre a versão ocidental e a japonesa dos jogos (lá conhecido como Rockman), filtros de imagem pra simular TV de tubo, entre outras coisas. Porém, o que eu acho mais fascinante — e o que me motivou a escrever este artigo — é o fato de que os jogos são representações PERFEITAS das versões de NES. E quero dizer perfeitas — coisas como slowdowns quando há vários inimigos na tela, a presença daquela barra no canto esquerdo da tela (que tem a ver com a limitada memória de vídeo que o console tinha e o jeito que ele renderizava os objetos na tela), tudo rodando exatamente idêntico ao material original. O estúdio responsável pelo port, chamado Digital Eclipse, é especializado em preservação de games, e a paixão e respeito pelo material fonte é aparente.

As dificuldades em preservar games

Um pedaço da história do Game Boy. Fonte: http://goo.gl/ED6iPz

A questão de preservação de games é complicada, uma vez que existem vários impedimentos logísticos, tecnológicos e legais que complicam a vida daqueles que buscam imortalizar esse meio.

Como explicitado por este excelente artigo do Gamasutra, "alguns acreditam que não faz sentido preservar games, argumentado que estes são entretenimento de curto prazo, enquanto outros discordam completamente disso, acreditando que a indústria está dentro de uma crise de preservação."

Iniciativas de preservação, físicas e digitais, não faltam; mas costumam ser pequenas, regionais, e independentes. E como jogos são muito particulares à sua época de lançamento quanto à plataforma de hardware, serviços, licenças, e suporte, muitas vezes — e especialmente em jogos mais modernos, com muitos componentes online — quando sua vida útil é declarada como terminada pela distribuidora, os jogos se tornam inutilizados. Ou então, devido a licenças expiradas, alguns jogos são vendidos com tiragens muito pequenas, ou somem de lojas — como o recente caso de jogos licenciados pela Marvel (como Marvel vs. Capcom 3 e Deadpool) sumindo da Xbox Live e PlayStation Network. Além disso, até mesmo a criação de remakes (uma prática muito comum, principalmente na atual geração de consoles) fica muito complicada — quando não impossível — pois, muitas vezes, materiais como documentos de design, protótipos e assets são perdidos por causa do tempo, desorganização dos estúdios ou dissolução dos mesmos.

Uma vez que consoles "morrem" (ou seja, deixam de ser fabricados e de receber suporte), surge mais um obstáculo na preservação de jogos e hardware; uns recorrem a emulação e pirataria como meios de preservação, mas isso apresenta um óbvio problema do ponto de vista legal, o que deslegitima um pouco o propósito da conservação. O sensacional Jim Sterling traz esse assunto à tona em um vídeo recente.

Porém, há grupos — muitas vezes pequenos, mas muito dedicados — que se empenham em tomar medidas de preservação nas próprias mãos, como o estabelecimento de servidores independentes para jogos online desativados, e grupos de discussão e comunidades de suporte de consoles que já saíram de linha. É um trabalho de amor, no qual muitas vezes é usado o dinheiro do próprio bolso, e muito tempo, de modo a se manter experiências queridas pelos usuários; e tudo isso, com fins não comerciais. Ainda assim, tais grupos às vezes encontram resistência de detentores de copyright.

No entanto, alguns acontecimentos recentes apresentam uma luz no fim do túnel.

Recentes vitórias para os preservacionistas

Fonte: https://goo.gl/zikkfp

Nos últimos dois anos, algumas decisões judiciais foram determinantes para ajudar aqueles que se dedicam apaixonadamente a preservar a mídia que tanto gostam.

Fundações de proteção de direitos digitais, como a EFF (Electronic Frontier Foundation, fundação abarcada com doações de empresas-membro), vêm lutando para proteger aqueles que, do próprio bolso e sem fins lucrativos, buscam reativar certas funcionalidades e certos jogos de modo a preservá-los. Apesar de forte objeção da ESA (Electronic Software Association, dona da E3 e composta por lobistas das maiores publishers do mercado), sob o argumento de que tais iniciativas por parte de preservacionistas seriam uma porta aberta para a pirataria, uma vitória em especial dá legitimidade para estes seguirem em frente e ajudem a manter viva uma parte da história dos games que de outro modo seria perdida.

Em outubro de 2015, uma decisão da U.S. Library of Congress garantiu uma exceção ao controverso DMCA (Digital Millenium Copyright Act), permitindo que usuários entusiastas, museus e bibliotecas restaurem a funcionalidade de jogos online por meio de servidores amadores. Apesar de ser limitada a jogos que perderam suas funcionalidades online (e não a todo tipo de jogo) e — como esperado — enfrentar objeção da ESA, isso é uma vitória para os grupos entusiastas e um importante passo para o estabelecimento de uma cultura de preservação nessa mídia. É uma pequena, mas determinante decisão, se quisermos manter registros históricos comparáveis a livros e filmes.

Conclusão

A questão de conservação de games é algo complicado, sob vários pontos de vista. Esta é uma mídia muito efêmera, e isso torna difícil estabelecer uma cultura de preservação, já que involve muitas partes com muitas responsabilidades diferentes e questões judiciais complicadas. Porém, certas decisões legais recentes tendem a facilitar iniciativas de fãs apaixonados e instituições de apoio.

De resto, resta às grandes distribuidoras se ligarem na importância dessa questão e tomarem atitudes como a que a Capcom tomou no desenvolvimento de Mega Man Legacy Collection, criando uma verdadeira cápsula do tempo, e um relato histórico impecável.