Dê o play e deixe pra lá.

Sobre um personagem, um conselho e um amigo.

Cruj, Cruj, Cruj, tchau.

Se hoje, em um mundo conscientizado e politizado, já é difícil de uma criança fora dos padrões se identificar com algo na televisão, imagina em 1999. Lá estava eu, uma criança gorda, sem tribo, com poucos amigos e não muito popular nos lugares que freqüentava (a escola). De segunda a sexta eu assistia ao único programa da tv que conversava comigo, TV Cruj, onde um grupo de pré-adolescente (“Ultra-Jovens!”) invadiam o sinal de uma grande rede de tv para reivindicar seus direitos e transmitir desenhos da Disney. Aquilo era meu sonho!

Tudo que eu queria era fazer parte daquela turma. E entre os principais, tinha um gordinho, um pouco mais velho que os demais, mais calado na dele mas que tinha um dos papéis mais fundamentais naquilo tudo: Macaco, o responsável por dar o Play. Ele me representava lá. Seus comentários engraçados e pontuais refletiam o papel que eu queria ocupar entre meus amigos. Se eu não conseguia ser o protagonista, que eu fosse pelo menos necessário.

Até que veio a má notícia: o Macaco deixaria o programa. Sobre a premissa de que seus pais se mudariam de cidade, meu personagem preferido simplesmente não apareceria mais. Foi demais para o pequeno Guito de 99. Sofri, chorei. Não era possível que eles simplesmente o deixariam ir embora assim. Será que aconteceria comigo também? Meu pai, vendo meu desespero infantil, me deu um dos poucos conselhos que me lembro até hoje:

“Às vezes, quando as pessoas crescem, elas precisam deixar algumas coisas que gostam para trás”. TOSCANO, Pedro. 1999.

Até hoje não sei se ele estava justificando a saída do personagem ou se estava falando sobre meu próprio crescimento.

Pula para o futuro presente.

Há alguns anos perdi um amigo. Não foi morte, não foi briga. Ele deliberadamente escolheu que eu não fizesse mais parte de sua vida. Alguma coisa em mim o incomodava tanto ao ponto dele me excluir simplesmente. Sei que você pode estar pensando que algo aconteceu, algo tem que ter acontecido. Eu penso a mesma coisa, mas continuo na ignorância.

Já perguntei pra várias pessoas ligadas a ele o que teria acontecido, mas recebi respostas vagas, indiretas, nada que realmente me sanasse a dúvida ou me confortasse. Quando a gente faz merda, a gente se conforma. “Me fudi mas sou culpado”, o sentimento de impotência, de não poder mudar o passado, de ver algo escorrendo pelos dedos incomoda pra caralho, mas pelo menos é algo palpável. A dúvida, pelo contrário, corrói. Você repassa cada passo, revive cada momento para ver onde que errou e ofendeu a ponto de algo tão extremo.

“Porra! Pelo menos me deixa um bilhete, quando tiver saindo da minha vida, saca? Deixa uma carta explicando por que me deixou pra eu não ficar remoendo uma vida inteira achando que eu sou o culpado.” LOBATO, Pedro. 2014.

Mas a verdade é que quando você cresce, você precisa deixar algumas coisas para trás. A mudança não vem sozinha, quando você se livra de algo, precisa abrir mão de muitas outras coisas que estão diretamente relacionadas àquilo na sua cabeça. Esse pensamento me conforta. Talvez a culpa não seja minha, talvez eu só fizesse parte de um contexto que precisava ficar para trás. E isso acontece quando as pessoas crescem.

Ou talvez não, talvez eu fosse só um incômodo mesmo e que a parte que ele queria deixar pra trás era justamente eu estar em sua vida. Nunca saberei realmente. Não vou ir confrontá-lo tão cedo, muito mais por medo do que por orgulho. Deixei meu orgulho pra trás há um tempo já, junto com tantas outras coisas ruins que me tornavam uma pessoa pior. Quem sabe um dia eu seja alguém melhor o suficiente.

Ps. Hoje o ator que fazia o Macaco(Caíque Benigno) é DJ de rappers brasileiros como Projota e Rashid, respeitadíssimo na cena nacional.

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