O ócio do cotidiano rende boas histórias

Num desses dias em que seu cérebro está recheado de lembretes amarelos como post-it para te lembrar de todas as coisas que você tem que fazer, a vida lhe dá de presente um bloqueio criativo. Você resolve acender um cigarro, tomar uma xícara de café, respirar fundo. Nada. Sai na janela, olha pro casal de vizinho que insistentemente sentam todos os dias na calçada da sua casa e bloqueiam — o raio! — da passagem. Seu cachorro invade a casa: “Saí Malu!!!!” Não vem nada. Nem um palavra sequer.

Uma de suas amigas está tomando café ao meio dia, com o recém-admitido-de-volta namorado. A outra, está limpando o quarto. Você pede mentalmente que ela limpe o seu também, e consegue um sorriso honesto de si. Sua playlist só toca música feliz demais. Você não quer. Só quer uma que te inspire a escrever. Que seja sobre felicidade, amor, solidão, depressão. Só alguma coisa que provoque algo dentro de você.

O dia lá fora não está bonito. Nublado. Ótimo! Nem o dia consegue despertar qualquer sentimento. Nublado é que há de mais indiferente nos climas. Você se sente cinza. E os post-it’s agora são vermelhos: você está sem tempo.

Você começa a arrancar os post-it do dia e colocá-los em outra categoria: podem ser feitos outro dia. Não preciso limpar a mesa hoje, não vou usá-la. Também dá pra lavar esse tênis amanhã, eu uso chinelo hoje. Parece que vai chover, vou deixar a calça em cima da cadeira. É verdade, a gente deixa as coisas pra amanhã, ou pro futuro. Às vezes a gente joga elas num cantinho sem luz da mente. Não dá pra ser realista ignorando isso.

As roupas no varal ainda estão molhadas. O cachorro ainda tem comida. Os vizinhos já saíram da porta. O camelódromo abaixou o som. A playlist entrou numa dimensão incrivelmente otimista, com letras sobre estrelas brilhando e tudo mais. Uma amiga está no quarto. A outra também. A casa fica silenciosa. Você se completa.

E como uma lâmpada acende, uma bactéria evolui, um coração para, um sorriso se forma, um segundo se torna dois: você se sente inspirada.

  • Por Mariana Tirelli
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