O Estagiário do Capeta — Parte 1

Alcindo chegou cedo, estava empolgado em seu primeiro dia de estágio no setor de influências do DME (departamento de maldades encomendadas), a oportunidade de trabalhar diretamente com o capeta daria um up incrível em seu currículo, além da possibilidade de iniciar uma carreira promissora na área.

Depois de assinar toda a documentação necessária com o RH, tirar a foto para o crachá, criar o e-mail corporativo lá no T.I, receber o celular do responsável pela segurança patrimonial, integração com o técnico de segurança, 60 slides sobre o código de conduta, missão, visão, valores, blá blá blá… 4 horas se passaram até que Alcindo, finalmente chegou ao seu posto de trabalho.

- Bom dia sr. Lúcifer!

- Bom dia? Sabe que horas são? Bom dia é o cacete estagiário, tenha um péssimo dia! Qual o seu nome?

- Err… obrigado chefe, o senhor também! Meu nome é Alcindo.

- Quem tem chefe é índio e eu detesto que me chamem de senhor.

Seu 1° dia não poderia ter começado melhor!

- Pode me chamar de Luci.

-Tá!

- Ou boss.

- Tá!

- Vem você já perdeu tempo demais, vamos trabalhar. Alcindo, precisamos dar continuidade em um traba… peraí, Alcindo é um nome bem feio né? Deus que me livre, hahaha… Você vai precisar de um apelido aqui.

- Pode ser Batman? Meus pais me chamam de Batman, me fantasiei de Batman em uma festa de Hallowen na 1ª série e…

- Ridículo. É um apelido idiota. Além do mais, essa sua carinha está mais para Robin. Vou te chamar de Samantha, com th.

- Mas boss, eu sou homem. Samanta é um nome feminino.

- É Samantha com th. Sami para os íntimos.

-Tá!

- Sami, seguinte, o Leonel esse gordinho nerd dono da loja de gibis, acabou de fazer um pacto com a gente e já nos passou o primeiro job.

- Job?

Alcindo olhava o monitor com cara de estagiário em seu primeiro dia de empresa.

- É, job. Trabalho, tarefa, missão…

- Tá!

- Ele foi aceito no pacto por que demonstrou grande potencial de maldade, ele adora RPG e invoca os piores seres malignos sempre que possível durante os jogos para ajudá-lo nas missões. O primeiro job nos pareceu um pouco aquém de todo o seu potencial maligno, mas temos que atender ao pedido, ele deve evoluir com o passar do tempo.

- E o que ele pediu boss?

- Me chame de Luci Boss. Acho que gosto mais.

- Tá!

- Tá o quê?

- Tá bom, vou chamá-lo de Luci Boss!

- Porra, então fala direito.

- Desculpe Luci.

- Luci Boss.

- Desculpe Luci Boss.

- Odeio que me peçam desculpas, eu jamais perdoo alguém.

- Descul… foi mal Luci Boss.

- Ir mal é bom, precisamos ir mal sempre.

- Tá!

- PORRA Sami!!!

- Tá bom Luci Boss, não me desculpe.

- Enfim, o Leonel tem inveja de um cliente que frequenta a sua loja de gibis, o Samuel.

- Inveja é bom né, Luci Boss?

- No nosso setor é ótimo. Esse cliente, o Samuel, é professor da SmartFit, todo saradão, loiro, faz sucesso com as garotas, tem um canal no Youtube onde faz comida vegetariana e vai à missa todo domingo.

- Certo.

- Certo o cacete, isso está muito errado. Leonel quer que o Samuel sofra, ele tem uma vida perfeita.

- Certo.

- Certo Sami? Ele tem uma vida perfeita. O que está certo nisso?

- Verdade, nada certo isso. O que faremos? Acidente de carro deixando ele tetraplégico? Assalto a mão armada com um tiro deixando ele tetraplégico? Vamos derrubar uns alteres em cima dele na academia deixando ele tetraplégico?

- Calma Sami, ninguém vai ficar tetraplégico. Leonel quer que ele se desvirtue da vida saudável, coma um monte de baboseiras e engorde muito, só pra sofrer com aqueles problemas de colesterol, pressão alta, bullying, etc.

- Que bosta de pedido Luci Boss. Temos mesmo que atender isso?

- É, eu te disse que o potencial de maldade do Leonel parecia maior nos RPGs. Mas agora o pacto foi aprovado, ele até furou o dedo pra nos entregar um pouco de sangue. Temos que atender.

- Bom, pra começar tá valendo, o que eu preciso fazer?

- Influenciá-lo a comer junk food. Muito. Descontroladamente. Quase tanto quanto o Leonel.

- Moleza!

- Então vai lá sabichão. E me traga um Samuel com 90% de chances de infarto fulminante, sedentário e com baixa autoestima.

- Tá!

- Tá, é o CARALHO!

- Desculpa.

- Vaza daqui Sami.

Alcindo chegou à superfície querendo resolver a situação rapidamente, queria logo tirar esse job dá lista de pendências e pegar outros maiores, verdadeiramente maus. Seu disfarce era de uma menina da periferia, pobre, órfã de pai e mãe, que vendia brigadeiros feitos pela irmã mais velha para ajudar a pagar o barraco onde viviam e terem onde morar.

- Moço, compra um brigadeiro pra me ajudar?!

Disse Alcindo na pele da pequena Sofia enquanto Samuel caminhava em direção ao seu Fiat Moby vermelho, saindo da academia após um turno de “trabalho”.

- Vixi lindinha… eu não como doces.

- Me ajuda, não tenho pai nem mãe, minha irmã vende o corpo e faz esses brigadeiros pra mim vender e termos onde morar…

O constrangimento e a vontade de se ver livre de Sofia impediu que Samuel negasse o pedido.

- Me vê dois, por favor.

Foi fácil demais! Alcindo já comemorava o início da fase obesa de Samuel enquanto recebia o pagamento e entregava os brigadeiros.

- Pode ficar um para você e o outro você dá para sua irmã. Vocês certamente vendem todos eles e ficam só na vontade de comê-los. Mas não abusem, isso apesar de parecer delicioso, não é nada saudável, a taxa de açúcar e gordura saturada é altíssima.

Lúcifer, que monitorava tudo ao vivo via webhell, ria muito de seu novo pupilo. Ele tinha muito que aprender ainda.

Alcindo, frustrado, ligou para Lúcifer enquanto comia um brigadeiro:

- Luci Boss… Nhac… Chomp, chomp… Não deu certo. Chomp.

- Eu vi animal, eu monitoro tudo daqui.

- E agora? Nhac… Chomp, chomp.

- Se vira!

- É meu primeiro dia boss, me dá uma dica, chomp.

- Boss não, é Luci Boss. E para de falar de boca cheia, é nojento.

- Tá. E a dica?

- Doces não devem ser o ponto fraco do Samuel. Tenta bacon!

- Ele é vegetariano Luci Boss, no canal dele do Youtube ele até faz propaganda do bacon de soja lá do João Gordo.

- Tem razão, não vai rolar. Então McDonald´s e KFC, também podemos descartar.

- É.

- Tenta pizza. Pizza é infalível.

- Ele faz as próprias pizzas, prepara massas integrais que parecem ótimas! Vi no Youtube dele. Brócolis e espinafre são os sabores preferidos dele e…

- Puta cara chato!

- Eu meio que gosto dele!

- Falei que tava mais pra Robin do que Batman.

- Hihi…

- Esse job é um pouco mais complexo do que imaginei, vamos ter que estudar melhor esse caso.

- Vamos fazer um brainstorming Luci Boss?

- Sim.

- Fiz vários na faculdade, você vai ver, tenho ideias geniais, meus professores….

- Vai pra casa que já passou do seu horário, agora tem essa merda de lei de estágio que só permite 6 horas de trabalho por dia.

- Nem vi a hora passar. Guardei o outro brigadeiro pra você! Vou passar ai pra te entregar Luci Boss.

- Come isso e vai pra casa, até você chegar com o calor que faz aqui isso já derreteu. Amanhã a gente se fala.

- Até amanhã então! Nhac… Chomp, chomp.

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