Acordei, olhei pra fora e vi o dia explodindo num sol imenso. Tudo brilhava, era inverno e a grama ainda estava molhada. Era sábado, e não haveria de ir pro trabalho. A casa onde morava era amarela, de madeira, muito bem cuidada. Um belo gramado com rosas em seu entorno, um baixo muro de pedras e árvores na calçada moldava a frente da casa.

Pensei no que iria fazer durante o dia. Sai do quarto que dava direto para o corredor. O chão vermelho da cera passada no dia anterior deixou minhas meias brancas manchadas. A casa não era das maiores, mas muito aconchegante. De frente para o quarto ficava a despensa, junto com a área de serviço. Fui até a cozinha e esquentei água para o café, e fiquei pensando ainda no que iria fazer.

Coloquei a roupa para lavar, liguei o computador e deixei tocando qualquer coisa no som. A água ferveu, o café foi feito. Notei como se fosse a primeira vez o anel que usava. Era verde, com o contorno dourado, como todo anel. No meio, havia um símbolo como dois triângulos cruzados. Presente de um velho amigo. Sorri e lembrei da saudade que sentia dele.

Tomei uma xícara, e fui até a despensa. No rádio tocava A Palo Seco do Belchior. Ao lado da máquina de lavar, havia um alçapão, que dava pro porão. Guardava as coisas não usadas lá em baixo, mas sempre mantinha em ordem. Fui pegar a tesoura de grama pra podar as árvores, aquela coisa de sempre do inverno pra vir as folhas novas na primavera.

Entrei no porão, e deixei o alçapão aberto. Procurando a tesoura, ouço batidas na porta da cozinha. Ficava a direita da despensa, no final do corredor, e a porta da cozinha era pra frente da casa. Saí do porão, e olheipra porta. A janela com cortinas, que dava na metade da altura da porta, me deixou ver apenas a ponta de uma cartola. Não lembrava de ninguém que usasse cartola.

Fiquei olhando a porta, e mais três batidas, e em seguida um arranhão na porta.

E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês

Cantava o Belchior. Nada de mais. Mais três batidas. Não abri a porta. Não há ninguém em casa. Voltei pra despensa pra ver o que poderia acontecer. Mais três batidas, e um arranhão mais forte. Senti o ruído da madeira rachando. Senti algo estranho descer pela nuca, e não quis mais olhar praquilo.

A porta abriu, mas eu não havia destrancado ela pela manhã. Entrei no alçapão e fechei-o, de modo que uma brecha ficava pra olhar pra fora, de soslaio. Não era muito que se dava pra enxergar, mas podia ver a despensa e parte do corredor e do quarto.

Os passos pesados que eram dados não eram familiares. A figura de um metro e trinta que apareceu não era nem um pouco familiar. Usava um smoking como o Tom usava pra tocar piano num dos episódios com Jerry. Com rabinho e tudo mais. Tinha os pés descalços, mas fazia um barulho horrendo quando tocava o chão. Suas mãos eram desproporcionais ao corpo, assim como seus pés. Em seu rosto, apenas um sorriso, com dentes de ouro, indo de ponta a ponta da face. Seus olhos negros eram gentis e pegavam fogo na direção que olhava. A cartola que usava era como se algo pudesse saltar de dentro dela a qualquer momento e arrancar os olhos de quem vislumbrado olhasse.

A figura parou em frente a porta da despensa e do quarto, um de frente pro outro. Olhou pros lados, e seguiu em frente, em direção ao banheiro. A porta bateu, o vidro quebrou. As cortinas do box foram arrancadas e jogadas ao chão. Os passos voltaram ao corredor, e foram ao quarto. De costas, podia-se ver um curto rabo da figura, como um rabo cortado de um cachorro, que mexendo o tempo todo, como se guiando a direção que iria rumar. Entrou no quarto, e apenas na direção que olhava, as coisas voavam. O olhar na direção da cama fez as cobertas voarem e o colchão ser jogado na parede.

O Marvin Gaye que tocava no computador foi interrompido em Inner City Blues com um clarão e um estrondo em seguida, com pedaços de plástico voando pelo quarto. Enquanto a figura dava as costas pro computador, os quadros iam ao chão, e cada estrondo fazia meus olhos arregalar cada vez mais. A figura parou na porta do quarto, e veio em direção à despensa. Parou na porta da despensa, olhou pros lados, e entrou.

Parou ao lado da máquina de lavar, bem em frente ao alçapão, de modo que a única coisa que podia enxergar eram seus pés. As unhas compridas e sujas, quebradas, com a sola do pé em sangue, nada fazia sentido. Senti tontura e uma tremenda vertigem. Estava prestes a enlouquecer ou algo do gênero. A figura deu meia volta, e se dirigiu em direção a porta. O rabo balançando, indicava a direção da porta.

Parou, e ficou. O silêncio agora parecia procurar onde estava escondido. Procurava um sinal de vida, uma respiração. Minha cabeça latejava. Olhei pras minhas mãos e vi o anel brilhando cada vez mais. No pé direito da figura pude notar uma tatuagem como a do anel que usava, também brilhando. Não uma tatuagem, mas uma marca. Parecia ter sido feita com ferro em brasa. A figura parada na porta se dirigiu ao quarto outra vez. Parou de frente pro quarto, de costas pra minha visão. Deu meia volta, ficando de frente, e riu. Riu muito. Gargalhava. Seu sorriso era quase contagiante, brilhava, convidando pra rir junto. Algo parecia ser muito engraçado. Balançou a cabeça, tomou a direção da cozinha e foi pra fora.

Fiquei algum tempo ainda no porão, tentando escutar algo. Nada, o dia voltou ao normal. Quando parecia seguro, resolvi sair do porão. Tudo estava destruído, ao chão, quebrado. A porta continuava aberta, as pessoas passavam na rua. O vizinho olhava estranhamente pra mim, como se soubesse de algo. Olhei-me no espelho e vi que minhas olheiras estavam enormes. Fui pra fora, até a frente de casa. Olhei ao longe, e a figura parada no meio da rua. Olhava pra mim, como se esperando aquilo.

Começou a caminhar, vinha em minha direção. Tentei correr, mas algo me prendia. Alguma coisa me impedia. Era algo como quando a voz não sai. O ônibus passou, fiz sinal, ele parou e eu entrei. Passando ao lado da figura, ela me encarava. Seus olhos negros pareciam agulhas em meu cérebro, e seu sorriso brilhante e dourado fazia minha nuca gelar. Fiquei sentado no fundo do ônibus olhando pra fora. Tinha umas moedas que sempre carregava no bolso e paguei ao cobrador. O ônibus ia pro centro da cidade, e lá poderia pensar no que faria depois.

Passando em frente de uma das praças da cidade, vi a cartola levantar-se e olhar pra mim, sorrindo. Tentei não ligar. Continuei o caminho com o ônibus. O anel ardia em brilho. Passando em frente a prefeitura, vi no topo, como um gárgula, sentado e balançando os pés, rindo e rindo. Começava a entrar em colapso. Cheguei no centro. O motorista olhou pra mim, sorriu e seu dente dourado me deu náuseas. Desci correndo do ônibus, vomitei o sanduíche da noite passada e derrubei minha cartola.

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