A Linha e o Poder da Simplicidade

Caricatura de Jascha Heifetz por Al Hirschfeld

Por muito tempo, eu acreditei que a Linha era só um suporte. Ela estava ali para servir a outros propósitos que nunca a si mesma. Que a Linha seria um dos pilares para coisas muito mais grandiosas.

Técnicas e mais técnicas podem ser usadas para desenvolvermos trabalhos. Existem por aí fórmulas para simular cada pedacinho de uma pintura de forma realista, quase um cardápio que nos convida a montarmos nosso próprio frankenstein artístico: um tutorial de olho aqui, um de pele ali, referências à gosto.

Técnicas assim podem iludir os mais despercebidos, podendo dar um ar de profissionalismo ao trabalho. Formas, luz e sombras, texturas, pincéis, cores. Tudo isso pode enganar.

Mas a Linha não.

A Linha não curte muito essa de mentir, de enganar. Em sua simplicidade, a Linha é pura. O problema é que essa simplicidade coloca os erros na nossa frente, evidenciando tudo aquilo que, de alguma forma, transgride algum princípio. Mas não podia ser diferente, afinal somos íntimos da Linha desde que nascemos e dificilmente ela trairia nossa confiança assim, de graça. Tente se lembrar de seus primeiros desenhos e você logo de lembrará dela lá, confiante mas inconstante, firme mas indefinida.

Acredito que somos muito mais amigos da Linha quando crianças do que quando crescemos. Depois de um certo tempo, ficamos receosos de nos aproximarmos dela e ela reflete isso, sendo cada vez mais tímida e indecisa.

A verdade é que a Linha, em sua simplicidade, pode ser qualquer coisa. Ela, enquanto Elemento da Arte, talvez se configure como o mais completo de todos. Pode indicar luz e sombras? Sim. Pode representar texturas e materiais? Sim, claro. Pode dar volume, criar perspectiva? Absolutamente. Cria movimento? Com certeza!

Aliás, a Linha é também movimento.

Wassily Kandinsky, artista, teórico da arte e professor da Bauhaus, define bem essa questão em seu livro Ponto e Linha sobre Plano, de 1947:

“Ela [a Linha] é o rastro feito pelo ponto em movimento; portanto, é um produto. Ela é criada pelo movimento — especificamente através da destruição da intensa auto-contenção e repouso do ponto. Aqui, o salto do estático para o dinâmico ocorre.”
(p. 57)

Aquilo que é mais simples, como um Clips, pode ter muito mais funcionalidades do que aquilo que é mais complexo, como um Tubo de Pitot, que basicamente serve para para medir a velocidade de fluidos segundo modelos físicos simulados em laboratórios de hidráulica e aerodinâmica.

Veja bem, eu não desconsidero a importância das Formas e técnicas de reprodução de texturas, luz, cores e etc. Só acho que, como no exemplo acima, elas tem uma utilidade muito mais específica do que a Linha, que abrange quase tudo.


Confundimos constantemente simplicidade com facilidade. Por serem mais diretos, cometemos o erro de sempre imaginar que trabalhos só com linhas estão inacabados, ou até mesmo pensar que “quanto mais linhas, melhor!”.

Al Hirschfeld prova o contrário.

Liza Minnelli, por Al Hirschfeld

Hirschfeld (1903–2003) foi um famoso ilustrador que trabalhou para o The New York Times.

As linhas de seus trabalhos mais sugerem do que registram. Nelas está a síntese do movimento, da ação. É um balanço tão delicado que qualquer outro elemento inserido ali poderia quebrar a harmonia.

Muito do prazer de observar as obras do artista vem da chance que ele nos dá de fazermos parte da conclusão, completando todas as “lacunas” com nossas próprias experiências visuais.

Está tudo ali e ao mesmo tempo não está. O Paradoxo de Hirschfeld.

Uma sequência inteira do filme Fantasia 2000 da Disney foi produzida utilizando a mesma abordagem (com influências declaradas de Hirschfeld), animando aquilo que já estava em movimento.

Por trás da simplicidade aparente, existem horas, dias e anos de prática.

Jesse Hamm, no ótimo texto Toth’s Line, cita algumas frases do quadrinista Alex Toth que podem nos ajudar a entender melhor tudo isso:

“Na primeira metade da minha carreira, eu estava preocupado em descobrir o máximo de coisas para colocar em minhas histórias — render, texturas, detalhes. Na segunda metade da minha carreira, eu trabalhei intensamente pra abandonar todas essas coisas.”

e completa:

“Agora, como você deixa a coisa certa permanecer— esse é o segredo!”
Auto-retrato de Alex Toth

O que Toth percebeu, assim como Hirschfeld, é que uma linha sugestiva, por muitas vezes incompleta, não vai atrair a atenção para si mesma, como se a própria linha fosse o objeto em destaque. Uma linha sugestiva vai representar algo maior, sendo parte de um todo.

E essa representação vai ser muito mais eficiente porque, além da clareza visual, entenderemos que aquelas linhas mais simples se encaixam melhor em nossas próprias experiências e vivências, enquanto uma linha muito detalhada pode acabar se tornando específica demais, restrita a um único acontecimento.

Essa foi a filosofia de Toth ao redesenhar a versão do Aquaman produzida por Alex Ross, simplificando vários de seus aspectos.

Alex Ross à esquerda, Toth à direita

A diferença é que os desenhos de Ross, por mais bem elaborados que sejam, definem muito uma fisionomia específica, alguém que talvez possamos encontrar na rua ou no supermercado alguma vez em nossas vidas. Os desenhos de Toth, ao se fazerem síntese, se aproximam mais, porque deixam de representar alguém característico e passam a ser nossos avatares naquela história.

Enquanto os desenhos de Ross podem muitas vezes se encerrar no papel, os de Toth terminam na nossa imaginação.


Por fim, 3 situações como exemplos de que a Linha e a Forma são amigas de longa data. Se bem utilizadas, intensificam as capacidades uma da outra.

Linha em função da Forma
A Forma define os principais elementos focais e a Linha serve como um meio de sustentar as estruturas e silhuetas

Arte de Gennady Novozhilov

Forma em função da Linha
A interseção e o comportamento das Linhas criam várias formas reconhecíveis

Arte de Ronald Searle (Não podia deixar faltar né!)

Mutualidade da Linha e Forma
A Linha e a Forma desempenham papéis equivalentes

Arte de Mirko Hanak

Talvez a Linha seja intimidadora por justamente entendermos o seu poder. Queremos a todo custo escapar da vergonha a qual ela pode nos expor, mostrando ao mundo nossas incapacidades.

Os grandes mestres talvez não sejam aqueles que descobriram como dominar a Linha à força, colocando-a submissa aos seus pensamentos.

Talvez os grandes mestres são aqueles que, de mãos dadas, aprenderam a conviver com ela, aceitando as suas virtudes e defeitos.

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