O SIGNIFICADO NO GESTO

Representatividade das Mãos na Arte

É lógico pensar no rosto como elemento mais expressivo da figura humana. Através das nossas feições faciais, nós temos a possibilidade de entender os sentimentos e as emoções do outro, uma capacidade empática que já vem como padrão de fábrica em nós, seres humanos.

São vários músculos responsáveis exclusivamente pelo controle das nossas expressões, em um arranjo intrincado que nos permite realizar pelo menos 21 tipos de expressões claramente diferentes.

Retratos por John Singer Sargent

Tudo isso é determinante para que rostos sejam, invariavelmente, ponto focal em qualquer imagem, guiando quase que instantaneamente nossos olhos para o reconhecimento da sua presença. Daí nossa fascinação por retratos e estudos do rosto.

Entender sobre expressividade facial e representação do rosto não exclui, porém, o fato de que outro elemento possui um valor comunicativo relevante demais pra ser deixado de lado. E quando falo isso, me refiro às nossas mãos.

Muitas vezes a nossa percepção das mãos em uma obra de arte é bem superficial e rasa. Sendo bem direto: o ponto onde quero chegar é que nós precisamos pensar melhor sobre a representatividade das mãos e do gesto na arte, entendendo melhor sua utilização e também criando obras que se aproveitem do seu potencial.

Enquanto nosso rosto pode exprimir emoções, nossas mãos falam muito sobre nossas intenções, sendo que nem sempre essas duas coisas estão diretamente relacionadas.

Alguns motivos pelos quais podemos entender as mãos como poderosos recursos narrativos:

  1. Elas funcionam muito mais de forma reativa, respondendo a estímulos externos de maneira quase que imediata
  2. São extensões do nosso pensamento
  3. São ótimas ferramentas de comunicação. Se imagine em um país estrangeiro, sem saber sua língua e tentando se comunicar com um nativo, e você logo se verá usando as mãos.
  4. As mãos ajudam a criar relações entre as pessoas a partir do contato e do toque.

Até mesmo quando os personagens já não conseguem se expressar, as suas mãos podem ajudar a contar a história.

A Morte de Marat — Jacques-Louis David — 1793

Existem vários simbolismos associados aos gestos da mão, muitos deles relacionados a lugares e épocas diferentes. Um aceno pode ter vários significados em vários países, enquanto um gesto muito específico pode ser facilmente reconhecido por um grupo de pessoas mas, ao mesmo tempo, ser completamente incompreensível pra outro grupo. Ou seja, existem também camadas na interpretação do significado dos gestos: alguns sendo mais universais enquanto outros demandam pesquisa e estudo para serem interpretados.

Em Virgem das Rochas, Leonardo da Vinci imbui cada gesto com um sentido.

Virgem das Rochas — Leonardo da Vinci — c.1486

Maria, ao centro, ao mesmo tempo protege e conduz João Batista, à esquerda do quadro, e abençoa com a mão aberta a Cristo, à direita e com o anjo ao seu lado. O anjo aponta e indica João como predecessor de Cristo, que, com dois dedos levantados, o abençoa também. João Batista, por fim, reverentemente se curva à Cristo, demonstrando toda sua obediência e adorando o Filho de Deus.


Outra pintura de Jacques-Louis David também mostra como as mãos desempenham funções importantes na construção de significado de toda a obra.

Julgamento dos Horácios — Jacques-Louis David — 1784

Julgamento dos Horácios retrata uma lenda romana onde três homens de uma família romana, os Horatii, batalhariam com outros três homens de uma família da cidade de Alba Longa, os Curiatii. Esse embate serviria para evitar uma possível guerra entre as cidades e decidir a disputa entre elas.

Na pintura, vemos os três filhos dos Horácios (ou Horatii) fazendo um juramento diante de seu pai, que segura uma espada para cada filho. À direita da pintura, as mulheres da família lamentam a partida dos irmãos, sabendo que estavam arriscando suas vidas.

Os gestos ligam todos os personagens e estabelecem um fluxo que evidencia as relações entre eles.

As mãos dos três irmãos estão erguidas, afirmando seu compromisso e lealdade à Roma e assumindo todos os riscos de suas atitudes, sendo que morreriam pela República se fosse preciso. Ao mesmo tempo em que fazem o juramento e saúdam ao seu pai, também parecem estar tentando alcançar as armas, mostrando toda sua disponibilidade para o combate, com os músculos tensionados, prontos pra batalha.

Os irmãos Horatii também estão abraçados, mostrando que, além da fidelidade à República Romana, também eram leais entre si e estariam juntos até o fim, unidos tanto pelo sangue quanto pela guerra.

Seu pai conduz o juramento e os abençoa com a mão espalmada, garantindo sua permissão pra que partam nessa jornada. Sua pose é como uma prece ao alto para que os filhos recebam proteção e cumpram seu dever.

Enquanto isso as mulheres da família se consolam diante da possibilidade da morte dos irmãos (uma se apoia na outra e a última protege as crianças). Com as mãos lançadas pra baixo elas mostram a sua incapacidade de interferência no acontecimento. Sua dor é ainda maior pelo fato de que as duas famílias eram muito próximas, sendo que existem relacionamentos de casamento e noivado entre eles.


Por fim, uma das pinturas mais sensíveis e significantes do pintor russo Ivan Kramskoi tem muito a nos ensinar sobre o assunto.

Cristo no deserto — Ivan Kramskoi — 1872

Aqui vemos Cristo assentado sobre uma pedra durante seu período de reclusão no deserto, onde passou por um jejum de 40 dias até ser tentado. Na pintura, o rosto de Jesus se apresenta quase inexpressivo, dificultando uma leitura precisa de suas emoções.

Mas as mãos nos dizem o que o rosto não exprime. Os dedos apertados e trançados conseguem complementar a postura e mostrar que, apesar da calma aparente, existem pensamentos que afligem Cristo de forma profunda. As dores aqui não não físicas e o problema parece não ser a fome ou o tempo, mas sim uma exaustão mental e uma preocupação constante.


Cada uma dessas obras, além de milhares de outras, são bons exemplos de quando as mãos são utilizadas com propósito e acabam servindo em função de toda a obra: suportando, intensificando, afirmando e significando.

Vale apena pensar mais sobre isso enquanto tentamos enriquecer sempre nossos trabalhos e contar histórias que sejam vividas não só pelos personagens representados nelas, mas também por todos aqueles que se interessem em vivê-las.